Governo Trump anuncia que vai classificar CV e PCC como terroristas: 'Influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil'
Anúncio foi feito pelo Departamento de Estado nesta quarta-feira e entra em vigor a partir do dia 5 de junho. Decisão acontece dois dias após Flávio Bolsonaro se reunir com Trump
O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que vai classificar as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Em comunicado publicado nesta quinta-feira (28/5), o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que CV e o PCC "são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil" e que elas serão designadas como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir do dia 5 de junho.
"A Administração Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos", afirmou.
O anúncio ocorre dois dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL) ter se reunido com o presidente Donald Trump na Casa Branca e, posteriormente, com Rubio, na quarta-feira (27/8).
Segundo Flávio, durante o encontro com Trump, ele pediu que o governo americano designasse as facções brasileiras como organizações terroristas.
"Enquanto Lula vai de joelhos, rastejando, para implorar ao presidente americano Trump que não declare organizações criminosas, como o PCC e o CV, como terroristas, eu faço o contrário", disse Flávio durante coletiva de imprensa nos EUA.
"Fui exatamente fazer esse pedido expresso a ele", acrescentou o senador. Segundo ele, Trump disse que iria avaliar.
Diplomatas e integrantes do governo Lula ouvidos reservadamente pela BBC News Brasil avaliam que uma medida desse tipo não seria tecnicamente correta, uma vez que não haveria indícios de que as duas facções pratiquem terrorismo sob a lei brasileira.
Nos bastidores, o temor é que a classificação das facções como organizações terroristas seja usada para justificar ações, inclusive militares, na região, a exemplo dos bombardeios a barcos na Costa de países como Colômbia e Venezuela sob o pretexto de combater o narcotráfico.
Há meses Trump tem defendido que organizações criminosas ligadas ao narcotráfico sejam consideradas terroristas.
Em março deste ano, o Departamento de Estado dos EUA disse que via as facções brasileiras como ameaças de alcance regional após especulações de que Trump pretendia classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Na época, o governo americano disse que não fazia previsões sobre "potenciais designações terroristas ou deliberações relativas a designações terroristas"a que o país estaria "totalmente empenhado em tomar medidas adequadas contra grupos estrangeiros envolvidos em atividades terroristas".
Apesar disso, uma fonte do Itamaraty minimizou os riscos à BBC News Brasil e disse que a cooperação entre os dois países na área de segurança pública "é antiga e muito boa".
Três semanas atrás o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve em Washington para se encontrar com Trump e tentou, entre outras coisas, evitar esse movimento, segundo interlocutores de seu governo.
A comitiva brasileira falou durante o encontro sobre as iniciativas do país no combate à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas.
A ideia era se antecipar à intenção de parte do governo Trump de designar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
O assunto, porém, não teria sido discutido na reunião, de acordo com Lula.
Com a medida anunciada, os Estados Unidos podem lançar mão de instrumentos jurídicos, financeiros, diplomáticos e militares na tentativa de ampliar sua influência sobre Brasília e, de alguma forma, sobre as eleições, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, uma vez que a decisão foi tomada após o pedido de Flávio Bolsonaro — o que, em última análise, pode desgastar Lula.
Por que governo brasileiro não considera que facções sejam grupos 'terroristas'
A discussão sobre a designação de facções brasileiras como entidades terroristas vem sendo tratada pelos dois governos há pelo menos um ano.
Em maio de 2025, o então secretário nacional de Justiça, Mário Sarrubo, disse à agência Reuters que o governo brasileiro havia rejeitado um pedido sobre o assunto feito por David Gamble, um oficial do Departamento de Estado americano responsável pela estratégia do país em relação a sanções.
Na época, Sarrubo descartou a tese de que as facções brasileiras atuem como organizações terroristas.
"Nós não temos organizações terroristas aqui. Nós temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade", disse Sarrubo à época.
A Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016) brasileira classifica como terrorismo os atos "cometidos com a finalidade de provocar terror social ou generalizado, expondo a perigo pessoa, patrimônio, a paz pública ou a incolumidade pública".
A lei diz ainda que esses atos devem ter "razões de xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião".
Por isso, argumenta o governo, não seria correto classificar o PCC e o CV como organizações terroristas.
De acordo com o governo, a atuação das facções é movida por interesses econômicos e não políticos.
Nessa interpretação, sua finalidade seria econômica — não política ou ideológica.
Parte da base bolsonarista, contudo, apoia um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional que equipara os crimes praticados por facções criminosas a atos de terrorismo.
O projeto chegou a ser aprovado pela Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados e ainda precisa ser aprovado pelo Plenário da Câmara e do Senado antes de ser enviado à sanção do presidente Lula.
Confira o comunicado do Departamento de Estado na íntegra:
"Hoje, o Departamento de Estado dos EUA está designando o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGTs) e pretende designar ambos os grupos como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs), com efeito a partir de 5 de junho de 2026.
O CV e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntos, comandam milhares de membros e têm orquestrado ataques brutais contra policiais brasileiros, agentes públicos e civis. Sua influência e redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil, por toda a nossa região e até o nosso país.
A Administração Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos. A ação de hoje tomada pelo Departamento de Estado demonstra ainda mais o compromisso inabalável da Administração Trump em desmantelar cartéis e organizações criminosas na nossa região e garantir a segurança do povo americano.
As ações de hoje são tomadas em conformidade com a seção 219 da Lei de Imigração e Nacionalidade e a Ordem Executiva 13224. As designações de FTO entram em vigor após publicação no Federal Register."
*Esta reportagem está em atualização.
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