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[Coluna] O desserviço de desqualificar a universidade pública

13 fev 2026 - 18h11
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Desqualificar universidades públicas com base em desinformação não é só um desserviço ao debate educacional, mas também um gesto profundamente antipatriótico."Um dos fatores maiores de não permitir nossos filhos irem para a federal é a gente manter nossos valores familiares. A faculdade particular [se] alinha mais aos nossos princípios [...]. A federal aqui no Rio está bem precária, tem greve vários meses, prédio quebrado, está caindo aos pedaços."

Falar das universidades públicas como "caindo aos pedaços" não faz justiça a toda a inovação que produzem, escreve Vinicius De Andrade
Falar das universidades públicas como "caindo aos pedaços" não faz justiça a toda a inovação que produzem, escreve Vinicius De Andrade
Foto: DW / Deutsche Welle

As falas acima saíram de um vídeo em que o ex-jogador Túlio Maravilha, sua esposa e sua filha explicam as razões pelas quais a jovem não iria para a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ou para a estadual (UERJ) mesmo após, segundo eles, ter sido aprovada.

Parecia uma nota ao público - ainda que, curiosamente, não tenha havido demanda popular por uma. Na verdade, a maior motivação parece ter sido aproveitar a oportunidade para subestimar e desdenhar publicamente das universidades públicas.

Valores não alinhados?

Segundo Cristiane, esposa de Túlio, as universidades privadas estão mais alinhadas aos seus valores familiares do que as universidades públicas. O que exatamente ela quis dizer? Ela não explicou, mas sua fala pode reforçar estigmas preconceituosos contra as universidades públicas.

Alguns acham que são apenas um espaço de drogas e sem qualquer produção científica, o que não é verdade. A UFRJ, por exemplo, está acima das privadas do estado nos rankings de produção científica.

Outros, partindo de um viés político, sustentam a rasa ideia de que são um espaço de ditadura política em que apenas uma visão é permitida e em que uma verdadeira lavagem cerebral é feita em seus alunos, o que também não é verdade. As universidades públicas são plurais, produzem ciência e instigam o senso crítico.

Não estão caindo aos pedaços

Segundo Túlio, a federal é bem precária. Sua filha complementa: "Caindo aos pedaços". Entendo que há sim problemas de infraestrutura em muitas universidades públicas do país, devido a questões orçamentárias. Mas gravar um vídeo resumindo-as a "caindo aos pedaços" é muito perigoso e não faz justiça a toda a inovação que produzem.

Trarei aqui, o que nem precisou de muita pesquisa, dois exemplos de inovações de pesquisadores da UFRJ.

Tatiana Coelho de Sampaio lidera uma pesquisa que está desenvolvendo um medicamento capaz de reverter a lesão medular. Sua pesquisa - inovadora, diga-se de passagem - ganhou reconhecimento nacional e internacional.

Já Christal Abraham, Cristiane de Sá Ferreira Facio, Amanda Ranhel, Daniele Fernandes, Enrico Riscarolli e Elaine Sobral da Costa, do laboratório de citometria de fluxo, desenvolveram em parceria com o instituto nacional de Câncer (INCA) um método que reduz o tempo de espera do diagnóstico do câncer infantil de até 15 dias para apenas um dia, agilizando o tratamento.

Devemos nos orgulhar das nossas universidades

Vivemos em um país polarizado. Lidar com fake news e vivenciar o efeito delas na população, sobretudo em quem acredita sem questionar, já é parte do nosso cotidiano.

Não há problema em uma família não permitir que seus filhos ingressem em uma universidade pública.

Agora, uma família com acesso à informação e com o poder de influenciar outras nas redes sociais chegar ao ponto de publicar um vídeo reforçando estigmas e desvalorizando nossas universidades públicas é sim um grande problema.

Nossas universidades públicas têm sim problemas, mas devido à falta de orçamento, e não à falta de produtividade acadêmica e científica, pois é justamente essa produtividade que as torna referência não apenas nacional como também internacional.

O vídeo de Túlio Maravilha e sua família, ao desqualificar universidades públicas com base em desinformação, não é apenas um desserviço ao debate educacional, mas também um gesto profundamente antipatriótico.

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Vozes da Educação é uma coluna semanal escrita por jovens do Salvaguarda, programa social de voluntários que auxiliam alunos da rede pública do Brasil a entrar na universidade. Revezam-se na autoria dos textos o fundador do programa, Vinícius De Andrade, e alunos auxiliados pelo Salvaguarda em todos os estados da federação. Siga o perfil do programa no Instagram em @salvaguarda1.

Este texto foi escrito por Vinícius De Andrade e reflete a opinião do autor, não necessariamente a da DW.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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