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Gerente da Boate Kiss diz que seu depoimento foi 'mal-interpretado'

Ricardo de Castro Pasche afirmou que delegado Sandro Meinerz "interpretou da forma dele" trechos sobre funcionamento da boate

19 ago 2013
17h10
atualizado às 17h38
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O gerente da Boate Kiss e cunhado de Kiko Spohr - um dos proprietários do estabelecimento -, Ricardo de Castro Pasche, disse na tarde desta segunda-feira, durante audiência em Porto Alegre (RS), que a Polícia Civil mudou trechos de seu depoimento no inquérito que apura as responsabilidades pelo incêndio que causou a morte de 242 pessoas em Santa Maria. "Alguns pontos ficaram mal interpretados”, disse o gerente, citando o delegado Sandro Meinerz, responsável pela investigação.

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"Quando foi finalizado o meu depoimento, o policial disse para ler. Comecei a ler, contestei algumas coisas e ele corrigiu. Nisso, o delegado Sandro chegou e pediu para segurar, para ver o depoimento. Quando eu fui reler o depoimento pronto, o Sandro entrou na sala e disse que queria fazer perguntas informais, mas quando vi estava digitando, e perguntando sobre andamento da boate. Quando me dei por conta... foi bem cansativo, peguei o celular e era 22h20. Estava esgotado, assinei, não reli a outra parte que tinha modificado. Tem coisa que eu não disse, ele interpretou da forma dele", disse Pasche.

Entre os trechos contestados pelo gerente, estavam depoimentos sobre as obras na boate. De acordo com o documento policial, Pasche imaginava que as grades instaladas na frente da boate seriam rejeitas pelo Corpo de Bombeiros. No entanto, ele diz que não falou isso. "Sobre as barras e portas, isso foi perguntado de outra forma. Agora, dizer que eu sabia que elas não iam passar pelos bombeiros...", disse , reconhecendo apenas que as barras atrapalharam a saída do público.

O gerente relatou ainda que a espuma do isolamento acústico da boate - feita de um material inflamável e apontada pela perícia como um dos fatores que contribuíram para o incêndio - foi instalada em setembro de 2012, por recomendação dos engenheiros que vistoriaram as obras acústicas na casa noturna.

Segundo Pasche, foi realizada uma série de obras de isolamento acústico na boate, por conta do termo de ajustamento de conduta (TAC) assinado com o Ministério Público, por conta de reclamação de poluição sonora. Segundo ele, as espumas foram colocadas por recomendação dos engenheiros identificados como Samir e Pedroso, em setembro de 2012. "Depois da colocação da espuma, pararam as reclamações dos vizinhos", afirmou.

Ainda sobre o isolamento acústico, o gerente afirmou que o Corpo de Bombeiros esteve na boate em setembro, após a conclusão das obras e colocação das espumas, para entregar a notificação do vencimento do alvará, e pode constatar como estava a casa no dia no incêndio, já que a configuração permaneceu inalterada até o dia da tragédia.

Pasche é acusado por André de Lima, segurança que trabalhou na Boate Kiss, de ter tentado influenciar seu depoimento. Segundo a versão do segurança, o gerente teria tentado manipular a sua fala após oferecer carona ao funcionário. Durante a audiência desta segunda-feira, Pasche negou as acusações. "Essa pessoa está mentindo."

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 242 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Terra

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