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Familiares das vítimas da Kiss protestam durante audiência pública

Presidente de associação diz que livro do padre Lauro fez todos reviverem a tragédia

13 abr 2013
16h04
atualizado em 16/4/2013 às 12h33
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A audiência pública sobre a tragédia na boate Kiss organizada pela Defensoria Pública do Rio Grande do Sul neste sábado em Santa Maria foi marcada por momentos de indignação e protestos. Quando o novo comandante do Corpo de Bombeiros do município, major Marcelo Maia, iniciou o discurso, familiares e amigos das vítimas demonstraram indignação e proferiram palavras ofensivas. 

<p>Incêndio na madrugada de 27 de janeiro na boate Kiss matou 241 pessoas</p>
Incêndio na madrugada de 27 de janeiro na boate Kiss matou 241 pessoas
Foto: Daniel Favero / Terra

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"As pessoas acham que existe algo a mais para ser feito então questionam o porquê de muitas coisas. Os pais ainda culpam muito os bombeiros pelo fato da ocorrência não ter sido atendida", explicou Adherbal Alves Ferreira, presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). 

Ferreira precisou pegar o microfone e interferir para acalmar os ânimos no Colégio Marista Santa Maria, no centro da cidade. Segundo ele, a reunião com representantes de entidades não contou com um número expressivo de pessoas e a presença de políticos na mesa - deputado estadual Jorge Pozzobom (PSDB), secretário estadual da Justiça e dos Direitos Humanos Fabiano Pereira (PT) e vereadora Sandra Rebelato (PP)  - causou descontentamento nos familiares.

Segundo a Secretaria da Justiça e dos Direitos Humanos, o secretário Pereira representou o governo do Estado na audiência, a convite da Defensoria Pública. Já a vereadora Sandra é integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara de Vereadores de Santa Maria que foi instaurada para apurar os fatos relacionados ao incêndio. 

"Fui convidado para falar sobre a associação, mas não consegui fazer a explanação como queria por falta de quórum. Havia pedido para falar por último, mas muito antes as pessoas começaram a ir embora", contou o presidente da associação. 

Para Ferreira, o livro Kiss: uma Porta para o Céu, lançado recentemente pelo padre Lauro Trevisan aflorou novamente o sofrimento dos familiares. "Esse livro esculhambou a cabeça das pessoas e causou um grande mal na cidade. Foi feito todo um trabalho psicológico e estava indo tudo bem, a audiência pública poderia ter ocorrido numa boa, mas aí veio esse livro e eles reviveram todo o momento", salientou.  

Ontem, a associação encaminhou um ofício para o delegado responsável pelas investigações da tragédia para que convoque o padre Lauro para prestar esclarecimentos sobre o conteúdo do livro. Um dos trechos que causou indignação aos familiares é o que relata que duas ou três vítimas haviam sido encontradas vivas no caminhão frigorífico que transportava os corpos ao Ginásio de Esportes. Depois de ser notificado extrajudicialmente pela associação, que pediu a retirada de circulação do livro, o padre Lauro divulgou uma nota dizendo que já retirou da publicação os trechos que causaram indignação. "O livro causou transtornos e tudo voltou à estaca zero", lamentou Ferreira. 

O padre Lauro não foi localizado para falar a respeito.  

Incêndio na Boate Kiss
Na madrugada do dia 27 de janeiro, um incêndio deixou 241 mortos em Santa Maria (RS). O fogo na Boate Kiss começou por volta das 2h30, quando um integrante da banda que fazia show na festa universitária lançou um artefato pirotécnico, que atingiu a espuma altamente inflamável do teto da boate.

Com apenas uma porta de entrada e saída disponível, os jovens tiveram dificuldade para deixar o local. Muitos foram pisoteados. A maioria dos mortos foi asfixiada pela fumaça tóxica, contendo cianeto, liberada pela queima da espuma.

Os mortos foram velados no Centro Desportivo Municipal, e a prefeitura da cidade decretou luto oficial de 30 dias. A presidente Dilma Rousseff interrompeu uma viagem oficial que fazia ao Chile e foi até a cidade, onde prestou solidariedade aos parentes dos mortos.

Os feridos graves foram divididos em hospitais de Santa Maria e da região metropolitana de Porto Alegre, para onde foram levados com apoio de helicópteros da FAB (Força Aérea Brasileira). O Ministério da Saúde, com apoio dos governos estadual e municipais, criou uma grande operação de atendimento às vítimas.

Quatro pessoas foram presas temporariamente - dois sócios da boate, Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, e Mauro Hoffmann, e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Luciano Augusto Bonilha Leão e Marcelo de Jesus dos Santos. Enquanto a Polícia Civil investiga documentos e alvarás, a prefeitura e o Corpo de Bombeiros divergem sobre a responsabilidade de fiscalização da casa noturna.

A tragédia fez com que várias cidades do País realizassem varreduras em boates contra falhas de segurança, e vários estabelecimentos foram fechados. Mais de 20 municípios do Rio Grande do Sul cancelaram a programação de Carnaval devido ao incêndio.

No dia 25 de fevereiro, foi criada a Associação dos Pais e Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia da Boate Kiss em Santa Maria. A associação foi criada com o objetivo de oferecer amparo psicológico a todas as famílias, lutar por ações de fiscalização e mudança de leis, acompanhar o inquérito policial e não deixar a tragédia cair no esquecimento.

Indiciamentos
Em 22 de março, a Polícia Civil indiciou criminalmente 16 pessoas e responsabilizou outras 12 pelas mortes na Boate Kiss. Entre os responsabilizados no âmbito administrativo, estava o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer (PMDB). A investigação policial concluiu que o fogo teve início por volta das 3h do dia 27 de janeiro, no canto superior esquerdo do palco (na visão dos frequentadores), por meio de uma faísca de fogo de artifício (chuva de prata) lançada por um integrante da banda Gurizada Fandangueira.

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O inquérito também constatou que o extintor de incêndio não funcionou no momento do início do fogo, que a Boate Kiss apresentava uma série das irregularidades quanto aos alvarás, que o local estava superlotado e que a espuma utilizada para isolamento acústico era inadequada e irregular. Além disso, segundo a polícia, as grades de contenção (guarda-corpos) existentes na boate atrapalharam e obstruíram a saída de vítimas, a boate tinha apenas uma porta de entrada e saída e não havia rotas adequadas e sinalizadas para a saída em casos de emergência - as portas apresentavam unidades de passagem em número inferior ao necessário e não havia exaustão de ar adequada, pois as janelas estavam obstruídas.

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Já no dia 2 de abril, o Ministério Público denunciou à Justiça oito pessoas - quatro por homicídios dolosos duplamente qualificados e tentativas de homicídio, e outras quatro por fraude e falso testemunho. A Promotoria apontou como responsáveis diretos pelas mortes os dois sócios da casa noturna, Mauro Hoffmann e Elissandro Spohr, o Kiko, e dois dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos e Luciano Augusto Bonilha Leão.

Por fraude processual, foram denunciados o major Gerson da Rosa Pereira, chefe do Estado Maior do 4º Comando Regional dos Bombeiros, e o sargento Renan Severo Berleze, que atuava no 4º CRB. Por falso testemunho, o MP denunciou o empresário Elton Cristiano Uroda, ex-sócio da Kiss, e o contador Volmir Astor Panzer, da GP Pneus, empresa da família de Elissando - este último não havia sido indiciado pela Polícia Civil.

Os promotores também pediram que novas diligências fossem realizadas para investigar mais profundamente o envolvimento de outras quatro pessoas que haviam sido indiciadas. São elas: Miguel Caetano Passini, secretário municipal de Mobilidade Urbana; Belloyannes Orengo Júnior, chefe da Fiscalização da secretaria de Mobilidade Urbana; Ângela Aurelia Callegaro, irmã de Kiko; e Marlene Teresinha Callegaro, mãe dele - as duas fazem parte da sociedade da casa noturna.

Fonte: Terra

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