SP planeja delegacia para combater crimes digitais contra crianças e adolescentes; saiba como será
Objetivo é elevar o status do Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), criado para monitorar a ação de criminosos na internet
Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.
A Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) pretende criar a Delegacia de Observação e Análise Digital, especializada em investigar crimes que ocorrem na internet e, principalmente, contra crianças e adolescentes.
A proposta foi apresentada pelo secretário da pasta, Guilherme Derrite, nesta segunda-feira, 8, durante o fórum "O Otimista Brasil", realizado na Faap, zona oeste da capital. Ele afirma que a delegacia será a primeira do tipo no País e diz que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) já aprovou a proposta. "Novas informações deverão ser dadas até o final do ano", acrescentou.
O objetivo é elevar o status do já existente Núcleo de Observação e Análise Digital (Noad), criado no final do ano passado pela SSP-SP para monitorar a ação de criminosos na internet. O centro funciona 24 horas por dia, com policiais se infiltrando em grupos na deep web e na dark web para fazer as investigações.
Três operações já foram deflagradas para coibir esse tipo de crime. "Tenho 23 anos de segurança pública e nunca vi nada na vida tão horrível quanto essas imagens", disse Derrite em referência ao material apurado para os inquéritos.
Dados da SSP-SP apontam que 748 pessoas são alvos do monitoramento do Noad. Nas três operações deflagradas, 25 adolescentes infratores foram apreendidos e 17 pessoas foram presas.
Um caso recente foi a prisão, em Pernambuco, de um suspeito de ameaçar de morte o influenciador Felca e uma psicóloga. Segundo a polícia, o jovem de 21 anos chegou a invadir o sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para inserir ilegalmente um mandado de prisão contra o youtuber.
O secretário descreveu que os criminosos cooptam crianças e adolescentes (maioria meninas), em plataformas de jogos virtuais, criam vínculos de confiança e passam a fazer trocas de imagens íntimas. "A partir dali, vira um caos na vida daquela menina", afirmou.
Com material sensível em mãos, chantageiam as vítimas a fazer desafios violentos, como automutilação, agressão contra animais e até indução ao suicídio. Adotam também a estratégia de hackear sistemas do governo e ameaçar as vítimas de cortar benefícios de familiares caso não façam o que é pedido.
Os bandidos abrem fóruns virtuais e transmitem as cenas dos desafios para outras pessoas assistirem às cenas de abuso. O objetivo é gravar e vender o material para ter lucro. "É uma grande organização criminosa", definiu o chefe de segurança.
Além de prisões, o monitoramento feito pelo Noad ajudou a salvar vítimas. Conforme a SSP-SP, foram 162 desde a criação do núcleo. Uma delas, diz Derrite, estaria perto de cometer um suicídio no próprio quarto, quando a mãe conseguiu evitar após ser avisada pelo núcleo.
"Era uma menina que já vinha sendo vítima de torturas psicológicas, praticando automutilação. Os criminosos falam: 'Agora você vai se matar, senão a gente vai cortar o benefício da aposentadoria do seu avô'", lembrou. "Hoje, por conta da internet, não existe ambiente 100% seguro. Cabe ao Estado usar tecnologia e inteligência para romper esse ciclo", concluiu o secretário.
Onde buscar ajuda
Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:
Centro de Valorização da Vida (CVV)
Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.
Canal Pode Falar
Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.
SUS
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.
Mapa da Saúde Mental
O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.
NOTA DA REDAÇÃO: Suicídios são um problema de saúde pública. Antes, o Estadão, assim como boa parte da mídia profissional, evitava publicar reportagens sobre o tema pelo receio de que isso servisse de incentivo. Mas, diante da alta de mortes e tentativas de suicídio nos últimos anos, inclusive de crianças e adolescentes, o Estadão passa a discutir mais o assunto. Segundo especialistas, é preciso colocar a pauta em debate, mas de modo cuidadoso, para auxiliar na prevenção. O trabalho jornalístico sobre suicídios pode oferecer esperança a pessoas em risco, assim como para suas famílias, além de reduzir estigmas e inspirar diálogos abertos e positivos. O Estadão segue as recomendações de manuais e especialistas ao relatar os casos e as explicações para o fenômeno.