Pai e madrasta são investigados por ameaçar adolescentes a produzirem conteúdos sexuais para prejudicar mãe
Investigação aponta que homem, que está foragido, chegava a cobrar 20 vídeos por dia
Pai e ex-madrasta são investigados no Paraná por coagir adolescentes, incluindo a filha dele, a produzir vídeos de conteúdo sexual para retaliar a mãe; homem está foragido e mulher foi presa.
Conversas reveladas pela Polícia Civil do Paraná (PC-PR) mostram a rotina de terror imposta por um homem de 63 anos e sua companheira, de 33, contra duas adolescentes -- uma delas, a própria filha do homem. As mensagens enviadas às vítimas traziam ordens e ameaças em tom de "seita", exigindo que produzissem diariamente até dez vídeos de conteúdo pedófilo.
Receba as principais notícias direto no WhatsApp! Inscreva-se no canal do Terra
Segundo o delegado Gabriel Fontana, responsável pelo caso, as vítimas, de 14 e 16 anos, eram coagidas a cumprir um "acordo diário", com contagem regressiva do prazo. Em uma das mensagens, o suspeito escreveu:
"Por favor, não hesite em errar de novo, ou novamente para que se apaguem todas as suas oportunidades, ok? Seja esperta e não faça por errar para que tenhas que ser punida sem chance de volta [...] Você tem apenas uma hora a partir de agora para concluir seu acordo diário, ok? Não perca tempo e mais esta oportunidade de redenção."
A ex-madrasta foi presa na última quinta-feira, 21, em Curitiba. No mesmo dia, outra mulher foi presa por ser titular de números de telefone usados para solicitar os vídeos. Interrogada nesta terça-feira, 26, ela alega que havia perdido os documentos e negou qualquer envolvimento com as linhas telefônicas cadastradas no nome dela. O delegado apontou que a mulher não possui vínculo com os investigados e nem com as vítimas. O homem segue foragido.
Como começou
De acordo com Fontana, o esquema teve início em outubro de 2024, quando o homem combinou um encontro com as adolescentes em um parque de Curitiba. No entanto, ele as levou vendadas para sua casa, onde as forçou a gravar os primeiros vídeos juntas, com ajuda da ex-companheira.
"Com base nesse material inicial, ele passou a sistematicamente coagi-las para que encaminhassem vídeos diariamente", disse o delegado ao Terra.
Após o primeiro registro, as exigências passaram a vir acompanhadas de ameaças de divulgação do material. Segundo o delegado, tanto o homem quanto a ex-companheira enviavam as mensagens, muitas vezes trocando de linhas telefônicas para tentar despistar.
"Elas sabiam que eram eles mandando as mensagens, por mais que não se identificassem e trocassem de linhas constantemente. As vítimas sabiam, até porque, da primeira vez que foram gravadas as cenas, elas estavam lá presentes e viram esse homem e a madrasta. Como as mensagens vieram logo na sequência e pela forma de escrita, elas sabiam que se tratava dessas pessoas", detalhou.
Vingança como motivação
A polícia apura se o crime tinha motivação financeira ou ligação com redes de exploração, mas a principal linha de investigação aponta para uma retaliação pessoal.
"A finalidade financeira desses crimes não foi confirmada nas investigações. A linha investigativa principal é que ele forçava essas vítimas como forma de prejudicar a mãe de uma delas". O homem foragido é pai da adolescente de 16 anos.
Fontana ainda destacou que a retaliação teria acontecido ao descobrir que a filha foi abusada pelo companheiro da mãe. O crime foi confirmado pela vítima.
"Ele divulgou esse material na loja no qual a mãe trabalhava. A mãe foi demitida, a filha foi demitida. Tudo leva a crer que ele queria prejudicar a mãe, mas prejudicando a própria filha".
O caso veio à tona em fevereiro deste ano, quando mensagens com ameaças de divulgação chegaram ao celular de uma das vítimas.
"As ameaças eram nesse sentido: 'Vou acabar com sua vida, vou divulgar que você é uma péssima mãe, que você vende conteúdo delas'", relatou Fontana.
Para aumentar o medo, os suspeitos usavam uma narrativa espiritual. "Além de toda a divulgação dos conteúdos, elas teriam esse temor adicional com base nesse plano espiritual, que essa seita poderia fazer elas".
A investigações também apontam que as vítimas foram obrigadas a gravar com um terceiro - ainda não indentificado. Com isso, não se sabe se era um menor de idade ou vítima.
Parte do material chegou a ser compartilhado em grupos de família e até em redes sociais ligadas ao ambiente de trabalho das vítimas e da mãe. Fontana não descartou a possibilidade de o caso estar conectado a outros crimes, já que o suspeito possui antecedentes por estupro.
Os investigados respondem por coação, divulgação e armazenamento de imagens de exploração sexual, associação criminosa e ameaça.