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Onda de protestos no Rio sufoca moradores de Laranjeiras: 'saco cheio'

Bairro onde fica palácio do governo tem moradores revoltados com depredações. Novo ato está previsto para hoje na região

16 ago 2013
14h28
atualizado às 17h08
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Luiz Fernando de Oliveira tem uma banca de jornal num endereço privilegiado do Rio de Janeiro. Na rua Pinheiro Machado, vizinho ao Palácio Guanabara e o clube do Fluminense, em Laranjeiras, bairro da zona sul da capital fluminense, ele não tem concorrência nos arredores. Seria o endereço perfeito não fossem as circunstâncias atuais. 

<p>Charmoso bairro da zona sul sofre com protestos em sequência e violência entre PM e manifestantes</p>
Charmoso bairro da zona sul sofre com protestos em sequência e violência entre PM e manifestantes
Foto: Terra / Daniel Ramalho

O bairro das Laranjeiras, onde fica a sede do governo fluminense de Sérgio Cabral (PMDB), o maior alvo dos protestos desde junho, amanheceu nesta sexta-feira, mais uma vez, contando prejuízos. Somente nesta semana, foram três manifestações na rua Pinheiro Machado e rua das Laranjeiras, e arredores. E mais um ato está programado para esta sexta-feira, desta vez com professores da rede estadual de ensino - na última terça-feira, os Black Blocs se uniram aos profissionais de educação e o local virou, mais uma vez, uma praça de guerra. 

Luiz Oliveira mostra a porta da banca: tentativa de arrombamento
Luiz Oliveira mostra a porta da banca: tentativa de arrombamento
Foto: Terra / Daniel Ramalho

“Fui para casa e voltei com a banca destruída”, lamentou Oliveira. “Não aguento mais”, completou o jornaleiro, que somente este mês já viu o seu estabelecimento comercial sofrer tentativa de arrombamento e de roubo do aparelho de ar condicionado. “Destruíram tudo, somente com esse ar condicionado foi R$ 5 mil de prejuízo. Todo mês eu pago R$ 2.200 de aluguel. E aí, quem é que vai pagar essa conta”, perguntou, enfurecido.
 
A situação de Oliveira é compartilhada pelos moradores da região, que, por mais que apoiem e legitimem os movimentos nas ruas, dizem não suportar mais as depredações e confrontos entre a PM e manifestantes que se tornaram cena comum no charmoso e arborizado bairro. 

“Moro aqui há mais de 20 anos e vou te dizer que já estou de saco cheio, ninguém aguenta tanto protesto, tanta confusão. Não dá mais nem para sair na rua à noite. Impuseram um toque de recolher para a gente”, reclamou o aposentado Ricardo Freitas, que lembra ainda do confronto que marcou a visita do Papa Francisco ao Palacio Guanabara, logo em seu primeiro dia no Brasil, que o obrigou a se refugiar no banheiro de sua casa, quase na esquina da rua Coelho Neto com a rua Pinheiro Machado. 

“Aquele dia foi terrível, eles botaram tudo para ‘derreter’. Era tanto gás (lacrimogêneo) que o vento levou tudo lá para casa. Quando vi, minha casa estava cheia de gás. Tive que correr e me trancar no banheiro”, recordou. “Nem o governo, e nem esses manifestantes me representam”.
 
José Barreto, mestre de obras que cuida de uma construção vizinha a Ricardo Feitas, contou a reportagem do Terra que na noite da última quinta-feira, os moradores da rua Coelho Neto, cansados de bombas e confusão, bateram boca e quase entraram em rota de conflito com os manifestantes que quebravam pontos de ônibus e queimavam lixeiras, além de espalhar muito lixo pelas ruas do bairro. 

Seu Ricardo teve que se esconder no banheiro das bombas de gás
Seu Ricardo teve que se esconder no banheiro das bombas de gás
Foto: Terra / Daniel Ramalho

“É todo dia isso aqui. Coloquei seguranças na obra, pelo menos ninguém entrou aqui. Mas o pessoal está revoltado, ontem quase teve confusão mesmo entre os moradores e os manifestantes. Ninguém aguenta manifestação e bagunça todo dia. Ninguém está dormindo direito mais”, relatou. “No começo eu achei maneiro, era importante mesmo, mas está difícil aguentar este ‘bando de filhinho de papai’ que não tem que acordar cedo no dia seguinte”. 

A aposentada Verônica Neiva foi um dos poucos entrevistados pela reportagem que, mesmo com tanta confusão, afirmou que continua apoiando os atos em frente ao Palácio Guanabara. “Qualquer país só escuta a voz das ruas quando as pessoas saem de casa e vão agir. Não me importo de queimarem lixeira. Claro que não gostaria que depredassem a frente do meu prédio, por exemplo, mas só não vou para a rua porque sou aposentada”, confessou. 

Amiga de Verônica, a também aposentada Yolanda Alves se mostrou mais cética. “Quem paga todos esses prejuízos somos nós mesmos. Só Deus para me dar paciência para essa gente que não sabe direito o que quer”, concluiu.  

Protestos contra tarifas mobilizam população e desafiam governos de todo o País
Mobilizados contra o aumento das tarifas de transporte público nas grandes cidades brasileiras, grupos de ativistas organizaram protestos para pedir a redução dos preços e maior qualidade dos serviços públicos prestados à população. Estes atos ganharam corpo e expressão nacional, dilatando-se gradualmente em uma onda de protestos e levando dezenas de milhares de pessoas às ruas com uma agenda de reivindicações ampla e com um significado ainda não plenamente compreendido.

A mobilização começou em Porto Alegre, quando, entre março e abril, milhares de manifestantes agruparam-se em frente à Prefeitura para protestar contra o recente aumento do preço das passagens de ônibus; a mobilização surtiu efeito, e o aumento foi temporariamente revogado. Poucos meses depois, o mesmo movimento se gestou em São Paulo, onde sucessivas mobilizações atraíram milhares às ruas; o maior episódio ocorreu no dia 13 de junho, quando um imenso ato público acabou em violentos confrontos com a polícia.

A grandeza do protesto e a violência dos confrontos expandiu a pauta para todo o País. Foi assim que, no dia 17 de junho, o Brasil viveu o que foi visto como uma das maiores jornadas populares dos últimos 20 anos. Motivados contra os aumentos do preço dos transportes, mas também já inflamados por diversas outras bandeiras, tais como a realização da Copa do Mundo de 2014, a nação viveu uma noite de mobilização e confrontos em São PauloRio de JaneiroCuritibaSalvadorFortalezaPorto Alegre e Brasília.

A onda de protestos mobiliza o debate do País e levanta um amálgama de questionamentos sobre objetivos, rumos, pautas e significados de um movimento popular singular na história brasileira desde a restauração do regime democrático em 1985. A revogação dos aumentos das passagens já é um dos resultados obtidos em São Paulo e outras cidades, mas o movimento não deve parar por aí. “Essas vozes precisam ser ouvidas”, disse a presidente Dilma Rousseff, ela própria e seu governo alvos de críticas.

 

Fonte: Terra
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