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O que se sabe sobre ataque de aluno em escola de SP que deixou uma professora morta e mais 4 feridos

Adolescente de 13 anos, que cometeu o crime com uma faca, foi apreendido; outras três professoras e um aluno foram feridos, mas passam bem

28 mar 2023 - 14h57
(atualizado em 28/3/2023 às 10h11)
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O ataque com faca provocado por um adolescente de 13 anos dentro da Escola Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, na zona oeste da capital paulista, na manhã de segunda-feira, 27, deixou uma professora morta e três educadoras e um aluno feridos. Elisabeth Tenreiro, de 71 anos, que ensinava Ciência, morreu na sala de aula após ser golpeada pelas costas.

O que se sabe sobre o ataque?

O ataque cometido por um adolescente com um faca aconteceu por volta das 7h20 de segunda-feira na Escola Estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, na zona oeste da capital paulista. O garoto esfaqueou pelo menos quatro professoras e um aluno.

O que se sabe sobre o autor do ataque?

O agressor do 8º ano do ensino fundamental, de 13 anos, foi apreendido e levado para uma delegacia. Segundo informações apuradas pelo Estadão na escola, o alvo principal do autor do ataque era um estudante com quem teria brigado na semana passada, mas esse colega não estava no local na segunda-feira.

Quem são as outras pessoas feridas?

As outras quatro vítimas receberam atendimento em outras unidades (nos Hospitais das Clínicas, Universitário da USP, Bandeirantes e São Luiz) e apresentaram quadro estável.

Além de Elisabeth, que não resistiu aos ferimentos, as outras professoras atacadas foram Ana Célia da Rosa (História), Rita de Cássia (Matemática) e Jane Gasperini.

Ainda na tarde de segunda-feira, a professora Ana Célia passou por cirurgia para sutura dos ferimentos no Hospital das Clínicas. Era a única vítima que permanecia internada até o começo da noite.

As outras duas professoras que receberam atendimento nos Hospitais Universitário da USP e São Luiz tiveram ferimentos superficiais e também tiveram alta, assim como os dois alunos que foram atendidos no Hospital Bandeirantes. Um estudante teve ferimento superficial, enquanto o outro recebeu atendimento após ficar em estado de choque. Seus nomes não foram revelados.

Quantos alunos há na escola estadual?

O colégio, de tempo integral, tem cerca de 300 alunos do ensino fundamental 2 (6º ao 9º ano) e do médio.

Onde o caso está sendo investigado?

A Polícia Civil de São Paulo ouviu 32 testemunhas, entre educadores e alunos, que estavam presentes durante o ataque na Escola Estadual Thomazia Montoro, que deixou uma professora morta e outras quatro pessoas feridas na manhã desta segunda feira, 27. O autor do ataque, um estudante de 13 anos, foi o último a ser ouvido. O caso foi registrado no 34º Distrito Policial (Vila Sônia).

"Ele foi frio, bem frio, e não demonstrou emoção", disse o delegado Marcos Vinicius Reis, sobre a postura do rapaz durante o depoimento.

Durante uma busca na residência do adolescente, a Polícia Civil encontrou uma arma de air soft, máscaras parecidas com a que ele utilizou durante o ataque e manuscritos feitos pelo próprio rapaz, no qual ele admite que já planejava o ataque há muito tempo.

Para onde o adolescente foi encaminhado?

O adolescente saiu por volta das 18h30 do 34.° DP e foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) da zona oeste. De lá, ele seguiu para o Juizado da Infância e da Juventude, antes de ir para uma unidade da Fundação Casa.

O que disseram as autoridades?

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que está em viagem a Londres, na Inglaterra, lamentou o ataque por meio das redes sociais. "Não tenho palavras para expressar minha tristeza com a notícia do ataque", escreveu.

"A melhor forma de honrar a memória da professora Elisabeth é trabalhando em ações que garantam que algo assim nunca mais aconteça", completou.

Nas redes sociais, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), também se pronunciou. "As forças de segurança pública e de saúde agiram imediatamente, e continuaremos oferecendo todo o suporte necessário às vítimas e suas famílias", disse ele.

O que ainda é preciso esclarecer?

Pais de estudantes ouvidos pelo Estadão contam que teriam ocorrido brigas entre alunos na última semana. O autor dos ataques teria sido um dos envolvidos e a professora Elisabeth, vítima do atentado, uma das que separaram os estudantes durante o conflito.

Um adolescente que estudava na escola disse que o autor dos ataques tinha uma relação complicada com outros alunos, se envolvendo com frequência em brigas e discussões, inclusive com ofensas racistas. "Ele ameaçava de morte, falava: 'Vou matar todo mundo'", disse.

Ainda de acordo com colegas, na semana passada ele havia se envolvido em discussões de cunho racista a outro aluno. Segundo o secretário da Educação do Estado de São Paulo, Renato Feder, a diretora da escola pretendia conversar na segunda-feira com o menino. "Ela me disse que a briga foi na sexta e ela tinha marcado para conversar com ele na segunda-feira", afirmou o secretário.

Segundo o delegado Reis, a investigação agora busca descobrir "o que aconteceu antes e o que motivou" o ataque. Além de apurar as redes sociais do rapaz, a polícia tenta entender também se ele teve algum tipo de apoio ou instigação para o crime.

A Polícia de São Paulo vai investigar ainda se outras pessoas ajudaram o adolescente de 13 anos a cometer o ataque na Escola Estadual Thomazia Montoro. O jovem chegou a dizer no Twitter sobre seu plano de violência e sua ideia de executá-lo na segunda-feira. Segundo o secretário de Segurança, Guilherme Derrite, aqueles que curtiram ou comentaram as mensagens também serão investigados.

Outros ataques foram impedidos neste ano?

Segundo Derrite, outros ataques em escolas de São José dos Campos, Caçapava e Tupã, todas no interior do Estado, foram impedidos este mês pela polícia, que agiu antes dos agressores. "Ações já vêm sendo tomadas nas inteligências das polícias para evitar que tragédias como essa aconteçam", disse o secretário nesta segunda-feira.

Derrite pediu que a imprensa e a sociedade, pelas redes sociais, não divulguem os vídeos do ataque para que isso não estimule "adolescentes que estejam imbuídos de vontade de cometer novos atos". Especialistas também recomendam esse tipo de providência e que não se divulgue detalhes do agressor para que ele não seja tratado como exemplo para grupos violentos. Pesquisas internacionais mostram que há até três casos de violência em escolas após um primeiro ser divulgado.

Foram contratados psicólogos para prestar atendimento na rede estadual de ensino?

A Secretaria da Educação do Estado anunciou que já iniciou processo de contratação de 150 mil horas de psicólogos para atender a rede de ensino de forma presencial durante um ano. Desde a pandemia, os atendimentos psicológicos vêm sendo feitos remotamente. "Independentemente da tristeza de hoje, já estava no cronograma essa contratação, está na cotação de preços e já faremos a licitação", disse o secretário Feder. Desde 2019, lei federal diz que as escolas da rede pública do País devem ter serviços de psicologia.

Feder afirmou ainda que o Estado vai ampliar o programa Conviva, em que profissionais trabalham nas escolas para lidar com conflitos, como brigas, agressão e discriminação. Há 500 deles na rede. O secretário disse que todas as 5 mil escolas estaduais terão um educador do Conviva.

Como especialistas analisam a alta no número de ataques a escolas no Brasil?

Casos semelhantes começaram a aparecer no Brasil nos anos 2000 e se intensificaram recentemente. A especialista em convivência escolar e formação ética, Telma Vinha, que pesquisa violência nas escolas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), diz que não há política pública no Brasil para prevenir novos ataques.

"Acende um alerta muito grande porque a gente sabe que vai acontecer de novo. Só não sabe onde. Antigamente esses casos aconteciam muito mais devido a bullying, sofrimento, agressão. Isso permanece, mas atualmente são muito mais movidos por uma radicalização da juventude", disse ela.

"A gente classifica os ataques em dois tipos: o primeiro são os motivados principalmente por vingança, raiva, que é o que aconteceu em São Paulo. Mas todos têm planejamento. Não é que acontece uma briga e tiro um estilete, entende? É algo que a pessoa volta para mostrar o que é capaz, para se vingar. Existe premeditação, planejamento, que geralmente é aprendido na internet. O outro tipo de ataque tem também sofrimento na escola, por isso que ele volta para escola, não para qualquer outro lugar, mas é cometido por adolescentes usuários de uma cultura extremista. Tem o objetivo de fazer o maior número de vítimas", completou a especialista.

O que é possível a sociedade fazer?

"Uma das coisas que você vê claramente é o problema de flexibilização das armas, que favorece muito a letalidade do ataque. Em muitos dos casos que ocorreram no Brasil, usaram armas de parentes. Tem de haver mudança no sentido de não só a diminuição das armas, dos calibres, como responsabilizar o dono da arma. Outra coisa são as plataformas da internet. Você fica chocado se entra em plataformas, como o Twitter. Os meninos colocam claramente o que vão fazer. As pessoas vão sendo cooptadas. Se você denuncia para a plataforma, ela não sabe o que fazer. Elas (as plataformas digitais) têm de ser responsabilizadas", afirma Telma.

E nas escolas, que trabalho precisa ser feito de prevenção?

"A gente sabe que aumentar a vigilância e segurança na escola não funciona. Para se ter ideia, em Barreiras, na Bahia, aconteceu em uma escola cívico militar. A segurança e proteção da escola têm de existir em regiões vulneráveis, mas ela tem de ser aberta à comunidade, é parte do território. As escolas precisam melhorar a qualidade da convivência porque, em todos os casos, têm sofrimento na escola, todos. A gente defende fortemente políticas públicas na área da convivência escolar, da convivência democrática, que ajudem os professores a se sentirem capazes de lidar com conflito", finaliza a especialista em convivência escolar e formação ética.

Estadão
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