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'Não se pode criminalizar a manifestação cultural da periferia', diz pesquisadora

Diretora do Redes da Maré, do Complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, Eliana Souza Silva critica criminalização de movimentos culturais da periferia

3 dez 2019
05h11
atualizado às 10h26
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Diretora da Redes da Maré e professora visitante do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), Eliana Sousa Silva argumenta que tragédias como a de Paraisópolis, ocorridas a partir de ações policiais, explicitam uma conduta do Estado que deve ser combatida: a de criminalizar a população e as manifestações culturais da periferia. Após ação policial que terminou em tumulto na comunidade da zona sul paulistana, nove jovens morreram. Moradores acusam a Polícia Militar de agir com truculência, o que é negado pela corporação.

Que tipos de falhas do Estado ficam claras em episódios como o ocorrido em Paraisópolis?

O que aconteceu em Paraisópolis acontece de maneira muito recorrente em favelas e periferias de todo o País. A polícia costuma chegar de maneira truculenta, muito desrespeitosa, em uma posição de enfrentamento e com pouca inteligência. Mas tem o aspecto também de criminalizar o baile funk, uma atividade cultural artística que tem origem na periferia. Há um processo de criminalização da manifestação cultural dessa população, uma confusão entre o que é atividade ilícita e criminosa que acontece nesse território e o que é apenas um evento cultural onde jovens estão querendo se divertir. Há muitos outros eventos culturais na cidade onde as pessoas usam drogas também, mas, fora da periferia, a abordagem da polícia não acontece da mesma forma.

Quais seriam as maneiras mais eficientes de coibir atividades criminosas nesses espaços sem colocar em risco os frequentadores desses eventos?

Em primeiro lugar, é preciso que o poder público repense sua forma de atuar nas periferias. Não pode ser sempre de forma violenta, com medo estabelecido. E não se pode criminalizar toda manifestação cultural que ocorre na periferia como se ela estivesse sempre ligada a grupos criminosos. Atividades ilícitas devem ser combatidas com ações de inteligência. É absurdo fazer uma ação num evento com 5 mil pessoas com o argumento de que duas pessoas teriam atirado.

Essa criminalização da manifestação cultural da periferia também tem impacto na definição de políticas públicas culturais?

Acho que elas são influenciadas por essa perspectiva preconceituosa sobre a periferia. Se a gente tivesse espaços públicos para a realização de atividades culturais como um baile funk, com tratamento acústico, maior segurança, o cenário seria outro. O Estado deveria olhar para essas demandas e construir espaços de arte e cultura que contemplassem esse tipo de manifestação cultural, mas hoje esses equipamentos públicos não existem e a rua vira uma opção.

Estadão
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