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Museu Judaico de São Paulo abre no domingo, para exibir arte, história e pluralidade

Criado na antiga sinagoga Beth-El, no centro, espaço chega com quatro exposições e muitos planos para o setor cultural; iniciativa foi idealizada há 20 anos

1 dez 2021 05h11
| atualizado às 10h26
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Um dos primeiros elementos que o público encontrará no Museu Judaico de São Paulo (MUJ) será a pergunta "O que é ser judeu?". A resposta estará ao redor, com depoimento de judeus brasileiros de diferentes origens, vivências, idades, classes sociais, cores e identidades de gênero. A ideia é mostrar a pluralidade desta comunidade a todos, especialmente àqueles que pouco a conhecem.

"O que queremos mostrar é que a cultura judaica, como outras, é plural dentro de si mesma", explica o diretor-geral do museu, Felipe Arruda. Essa é uma das facetas do novo espaço, idealizado há 20 anos e que será inaugurado neste domingo, 5, na Rua Martinho Prado, 128, na Bela Vista, região central de São Paulo.

O museu está na antiga sinagoga Beth-El, de 1928, restaurada com as características originais, que ganhou um anexo de arquitetura contemporânea, envidraçado e com vista para a Avenida Nove Julho. Embora sediado em um antigo templo religioso, não receberá cultos e manterá uma programação sociocultural diversa.

A abertura contará com quatro exposições. Entre elas, destaca-se um acervo histórico de relíquias doadas por famílias e instituições judaicas ao longo de décadas — como o "Diário de Lore", escrito por uma menina de 13 anos durante o nazismo — e obras de arte contemporânea relacionadas ao tema "palavra", incluindo de autoria de Arthur Bispo do Rosário e Arnaldo Antunes.

"É um museu que apresenta a cultura judaica, seus rituais, festas, valores, crenças", descreve Arruda. "Me convidaram justamente querendo que o museu atinja para além da comunidade judaica", justifica ele, que não é judeu.

As exposições temporárias são A vida judaica, sobre costumes e ritos, e Judeus no Brasil: histórias trançadas, que aborda os diferentes períodos migratórios. "Tem capítulos que o público em geral não conhece tanto, como a presença de judeus na Amazônia", destaca Arruda. "E mostra a resistência dos judeus para manter as suas crenças e costumes."

O holocausto é abordado em uma seção específica. Entre os itens expostos, está o citado "Diário de Lore", cujas 28 páginas foram escritas em francês e alemão por uma menina na Bélgica ocupada por nazistas, de 1941 a 1942."Remete um pouco ao Diário de Anne Frank, de uma menina relatando como amigos foram desaparecendo, sendo perseguidos, até ela própria deixar de escrever (por ser enviada a um campo de concentração)", comenta o diretor do museu.

O período atual também se faz presente. "Tem uma peça, por exemplo, que fala sobre o judaísmo em 10 questões, o que inclui temas contemporâneos, como o casamento homossexual e mulheres serem rabinas. Questões do nosso tempo que atravessam essa cultura", exemplifica. Há também referências a obras de artistas judeus, como Deborah Colker e Noemi Jaffe, por exemplo.

O acervo é composto por doações reunidas a partir dos anos 1970 (então por professores ligados à USP), e cujos números (1 milhão de páginas de documentos e 100 mil fotos, por exemplo) seguem crescendo mês a mês. Entre as peças, há o relógio escondido na sola do sapato durante o nazismo por um sobrevivente de campo de concentração radicado no Brasil. "As histórias por trás desses objetos são valiosas, também do ponto de vista afetivo", destaca Arruda.

Há, ainda, as mostras temporárias Inquisição e cristãos-novos no Brasil: 300 anos de resistência, sobre os cristãos-novos (judeus obrigados a se converterem ao cristianismo) chegados em terras brasileiras séculos atrás, e Da Letra à Palavra, que explora a relação entre a arte e a palavra, com obras de 32 artistas brasileiros contemporâneos.

Esta última propõe atividades "entrelaçadas" com a cultura judaica, mas sem uma relação direta e reúne autores também não judeus. "É um projeto mais amplo. A palavra, o texto, é um elemento fundante na cultura judaica. Nos rituais de iniciação (como o bar mitzvá, por exemplo), a capacidade de ler um texto é vista como um dos elementos que torna a pessoa adulta", cita o diretor.

No geral, as exposições reunirão recursos em diferentes formatos, como objetos, vídeos interativos, reproduções sonoras e outros, incluindo acessibilidade em libras, audiodescrição e Braille. Um dos destaques é a projeção de retratos de imigrantes no teto da cúpula central. "Será um espaço de experiência sensorial, do corpo com o espaço, com a antiga sinagoga, que já é uma experiência em si, com a arquitetura do novo prédio, todo transparente, com a cidade...", descreve.

O museu inclui ainda uma cafeteria, uma loja e uma biblioteca com temática judaica. O ingresso tem o valor sugerido de R$ 20, mas a bilheteria digital fornece desde entradas gratuitas a no valor de R$ 80. Há também a possibilidade de agendamento de visitas guiadas, incluindo teatralizadas, para escolas, especialmente a partir de 2022.

Segundo o diretor, a ideia é estimular o público a ser parceiro do museu, sem restringir o acesso. Ele cita, por exemplo, a trajetória de mobilização ao longo de duas décadas para criar o espaço, com doações e patrocínios via lei de incentivo.

Museu tem planos de ampliação da programação para 2022

Para 2022, o museu prepara novidades. Uma delas é a transferência integral do acervo para o local, onde poderá ser acessado em visitas técnicas. A programação também deve se expandir, com um festival de cinema de humor judaico, uma festa literária e eventos relacionados à cultura judaica, como um "Iídiche For Fun", com falantes do idioma, e o "Dia do Objeto", com relatos das histórias carregadas por itens.

Mais adiante, a expansão também chegará a um edifício vizinho, na Rua Avanhandava, cujo auditório foi comprado pelo museu e precisa ainda passar por reformas. A ideia é que receba futuramente palestras, shows, cursos e outras atividades. Mais espaços no mesmo local receberão parte do acervo do Centro de Memória do MUJ. Todos serão interligados internamente ao edifício principal.

Museu fica na primeira grande sinagoga paulistana fora do Bom Retiro

O projeto original da sinagoga é de 1928, do arquiteto russo Samuel Roder, ligado à Companhia City e autor do projeto do Edifício Tupã, icônico residencial art déco da Santa Cecília, no centro. Ele é inspirado no estilo bizantino (da idade média), pouco comum em São Paulo e conhecido especialmente pela Basílica de Santa Sofia, de Istambul.

O espaço é tombado na esfera municipal desde 2013, quando o projeto de transformação em um museu já estava em andamento e a congregação Beth-El já havia se mudado para os Jardins. A resolução de tombamento classifica o imóvel como a "primeira grande sinagoga fora do Bom Retiro", bairro historicamente ligado à imigração judaica.

Como visitar o Museu Judaico de São Paulo:

Endereço: Rua Martinho Prado, 128 - Bela Vista

Horário: terça-feira a domingo, das 10 às 19 horas

Valor sugerido: R$ 20

Estadão
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