Moradores de São Gonçalo se revoltam por receber lixo de Niterói
A tragédia no Morro do Bumba, em Niterói, está deixando desesperados moradores de São Gonçalo, onde 16 pessoas morreram com as chuvas da semana passada. Desde a catástrofe na cidade vizinha, caminhões carregados de lama e lixo retirados do antigo lixão onde foi erguida a comunidade chegam dia e noite a São Gonçalo. Em pelo menos dois bairros (Itaoca e Itaúna) o cheiro de chorume é insuportável.
Revoltados e com medo de doenças, moradores fecharam no domingo a rua de acesso ao lixão de Itaoca e impediram a passagem de alguns veículos. A presença da Polícia Militar, que dispersou o protesto e retirou os carros que fechavam a rua, não foi suficiente para impedir que a aposentada Severina Maria Barbosa, 62 anos, tentasse, sozinha, bloquear a chegada de mais um carregamento de chorume.
"É uma falta de humanidade tirar de lá e colocar aqui. O cheiro está insuportável, porque os caminhões passam por dentro do bairro e o chorume vai caindo pelas ruas", desabafou a aposentada, sem conter as lágrimas.
O auxiliar de enfermagem Valdemir Pinto, 60 anos, teme pela saúde dos três filhos e dois netos: "Desde que começou o resgate lá em Niterói, os caminhões passam por aqui entornando água de lixo no meio da rua. As crianças pisam e levam isso para dentro de casa. Estou preocupado e revoltado com a decisão de transferir o que não presta lá para cá", disse.
A passagem dos caminhões com os escombros, que se deslocam cerca de 18 km do Morro do Bumba até Itaoca, tira o sono dos que moram nas ruas de acesso ao lixão de São Gonçalo. "Isso é um pesadelo. Dizem que já encontraram até pedaços de corpos no lixão", contou Anete Lopes de Souza, 62 anos.
Vice-presidente da Câmara Municipal de São Gonçalo, o vereador Miguel Moraes (PT) apoiou o protesto dos moradores. E garantiu que cobrará explicações da prefeita de São Gonçalo, Aparecida Panisset. "Há quatro dias, chegam centenas de caminhões cheios de lixo contaminante, sem tratamento. Estamos solidários com Niterói, mas não podemos prejudicar os moradores daqui. Soube que a prefeita fez um acordo com o prefeito de Niterói (Jorge Roberto Silveira), mas ela não consultou a Câmara", afirmou.
Procuradas, as prefeituras de Niterói e São Gonçalo não quiseram falar sobre o assunto.
A transferência do lixo para São Gonçalo não é a única queixa dos moradores. Eles relatam que bairros como Palmeiras e Salgueiro estão alagados desde as chuvas, e nada foi feito pelas autoridades.
Polícia reforçou a segurança
A notícia de que os caminhões estavam sendo impedidos ontem de entrar na rua de acesso ao lixão de São Gonçalo fez com que o comandante do 4º Comando de Policiamento de Área, coronel Paulo Mouzinho, fosse ao local. "Expliquei aos moradores que o lixo está sendo colocado aqui por uma emergência, por uma calamidade. Estamos aqui para garantir que os caminhões entrem porque, se pararem, o trabalho no Bumba também para. E há muitas famílias lá esperando pelos corpos de seus parentes", afirmou Mouzinho.
Os motoristas que dirigem os caminhões com a lama retirada do Morro do Bumba - por dia, segundo a Defesa Civil, são 200 caminhões com capacidade para 30 toneladas de entulho cada - temem não só a revolta dos moradores. Para chegar ao lixão de Itaoca, passam por uma rua sem asfalto, com cerca de 2 km, onde agem traficantes da região. Sem se identificar, um motorista admitiu que tem medo. "Eles ameaçam. Eu tenho medo porque se acontecer alguma coisa, nem tem como acelerar muito o caminhão", afirmou.