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Gastronomia dá novo uso a casarões tombados no centro expandido de São Paulo

Donos dos estabelecimentos encaram desafio de dar novo uso a imóveis históricos e afirmam que características únicas potencializam a experiência do cliente

25 dez 2019
05h11
atualizado em 30/12/2019 às 18h20
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SÃO PAULO - Que tal visitar um espaço histórico de São Paulo? Diante de um convite assim, costuma-se pensar em museus, centros culturais e afins. Mas não precisa ser apenas isso: as opções são mais amplas e estão renovadas, com a abertura de bares, cafés e restaurantes em casarões e predinhos tombados pouco conhecidos do centro expandido no último ano e meio. Os novos espaços seguem uma tendência iniciada décadas atrás e que tem ganhado força.

A antiga residência da família Vicente de Azevedo, tombada pelo município desde 2012 como "raro testemunho das primeiras edificações" da região, é um dos exemplos. Localizada a uma quadra da Avenida Paulista, foi reaberta em setembro deste ano como restaurante da rede carioca Gula Gula.

O amplo jardim do casarão, com árvores como pau-brasil e figueira, e também tombado, foi um dos principais atrativos para os sócios da rede. Eles procuravam um ar praiano para manter a identidade da marca. "Estávamos procurando há um ano, basicamente no entorno da Avenida Paulista, mas não poderia ser um shopping ou prédio comercial. Ser uma casa tombada foi um superdesafio", explica Eduardo Daniel, de 54 anos, um dos sócios.

O terreno tem quase 3 mil metros quadrados e o restaurante conta com 150 lugares. O projeto de transformação do espaço custou R$ 5 milhões. "Passamos oito meses conversando com a Prefeitura para aprovação (do projeto) e manutenção do patrimônio histórico da cidade." Hoje, o casarão é o único imóvel tombado ocupado pela rede, que tem 12 restaurantes. "Dentro da casa, as áreas também estão restauradas, as pessoas vão lá olhar", comenta o sócio.

Assim como o Gula Gula, o Zel Café e a Livraria do Comendador ocupam um dos últimos casarões na região da Avenida Paulista - ele fica na Rua Pamplona. O imóvel é tombado desde 2002, também na esfera municipal, e durante décadas foi sede da Fundação Instituto de Física Teórica.

"O meu pai estava procurando um lugar, mas tinha a ideia de ter uma coisa bem menor em um prédio comercial, que pudesse oferecer um café, um pão de queijo, bem simples", lembra a sócia-proprietária Carol Megale, de 36 anos. "Ele veio no prédio do lado por outro motivo e, quando passou na frente do casarão, chamou a atenção dele a construção antiga, bonita; ele entrou."

O projeto de implantar o café no casarão começou em meados de 2016 com a adaptação do imóvel. "A gente não podia mexer nas paredes, não podia mexer na estrutura, não tinha espaço tão adequado para a cozinha, para a saída de mercadorias e do lixo", comenta. "A gente não consegue colocar mais nada, precisa respeitar a capacidade, o limite do casarão."

Apesar das dificuldades, Carol cita aspectos positivos de ter um espaço em um bem histórico. "A casa remete a essa situação de fazenda, quem está no casarão vê natureza, tem uma tranquilidade que não costuma existir na região da Paulista (a duas quadras de distância). Casou muito bem, parece um cenário montado, mas é real."

Outro caso é o do restaurante Reduto Vegano, que abriu neste ano em um predinho na Rua Álvaro de Carvalho, no distrito da República e tombado desde 1992. "A ideia se moldou ao local. Já trabalhávamos com lanches em eventos e feiras veganas e um futuro projeto era algo de nosso interesse, mas foi a visita (ao prédio) que nos fez tirar esse projeto do papel", conta Diego Lima, de 32 anos, um dos sócios. "O grande desafio foi adaptar toda a ideia para que fique harmoniosa, com a cara do local. Não dá para simplesmente trazer um conceito e querer mudar tudo e adaptar", comenta.

Segundo o empresário, o aspecto histórico do prédio costuma ser lembrado pelos clientes "por conta do clima mais acolhedor". "Não conhecemos a história do prédio em si, não achei nada em buscas na internet além de informações vagas no mapa digital da cidade de São Paulo. Isso nos levou a notar que muitos prédios históricos são tombados e não se sabe nada da história para que as pessoas a conheçam", lamenta.

Aspectos históricos viram parte da experiência

O aspecto histórico foi um dos motivos que levou o jornalista Fabricio Scarcelli, de 38 anos, a conhecer o Gula Gula paulistano. "São Paulo tem uma carência desses espaços, onde você pode ficar ao ar livre. Aqui não parece que a gente está na região central", diz ele, que estava no espaço pela segunda vez. "Sempre tive curiosidade de ver como era essa casa por dentro."

Já a diretora comercial Andréia Barbosa, 40 anos, nunca tinha reparado no casarão do Zel Café até ir ao médico em um prédio vizinho. "É diferente. Acho que o lugar bonito atrai, o antigo traz uma beleza diferente", comenta. Situação semelhante também ocorreu com o engenheiro Joscelin Soares, 55 anos, que foi ao café após uma reunião. "Não sabia (do casarão). Isso aqui guarda um pouco da história da cidade."

Novos usos são alternativa para preservar imóveis antigos

Com cerca de 4 mil imóveis tombados, a capital paulista tem grande variedade de bens históricos inutilizados e, em muitos casos, em mau estado de conservação. Quando há novo uso, espaços icônicos da cidade ganham atenção e são preservados. "Sem uso não tem preservação", simplifica Lucio Gomes Machado, professor de Arquitetura e Urbanismo da USP.

Ele ressalta outros exemplos paulistanos de imóveis históricos que ganharam novos usos, como o Edifício Matarazzo (sede da Prefeitura) e a Casa de Francisca (espaço de shows). "A vantagem é que você fica instalado em um imóvel notável e todo mundo quer ter notoriedade. Isso traz prestígio para a sua atividade", analisa o especialista.

Machado aponta que um dos empecilhos para ampliar o uso de imóveis históricos é a legislação vigente. "Existem leis que poderiam favorecer a recuperação de imóveis, mas que não funcionam em conjunto. A lei de conservação de fachadas (que pode dar isenção de IPTU) não pode ser usada com outras aplicações."

Também professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Condephaat (conselho estadual de patrimônio), Carlos Augusto Mattei Faggin afirma que ainda há uma espécie de tabu para conferir novos usos e investir em imóveis tombados.

"Há uma tendência de mercado de que a gastronomia é um uso com características turísticas e que atrai uma população grande, e a classe média tem interesse nisso, se serve de características desses imóveis, que se ajustam a esse tipo de uso", comenta. "E é um uso ativo porque tem capacidade de colocar parte da sociedade em contato com esse patrimônio de alguma forma, não é predatório."

NOVOS RESTAURANTES, CAFÉS E BARES PARA CONHECER SÃO PAULO

Gula Gula

Horário: de domingo a quinta-feira, das 8h às 23h, e sexta e sábado, das 8h à 0h

Endereço: Rua Padre João Manuel, 109 - Jardim Paulista

Reduto Vegano

Horário: de segunda-feira a sábado, das 12h às 15h30

Endereço: Rua Álvaro de Carvalho, 79 - República

Zel Café

Horário: segunda-feira, das 7h30 às 19h, de terça a sábado, das 7h30 às 22h30, e domingo, das 8h às 17h

Endereço: Rua Pamplona, 145 - Jardim Paulista

Bar dos Arcos

Horário: terça e quarta-feira, das 18h à 1h, quinta e sexta-feira, das 18h às 2h, e sábado, das 18h às 3h

Endereço: Praça Ramos de Azevedo, s/nº (Theatro Municipal) - República

Bar do Cofre

Horário: quinta e sexta-feira, das 17h à 1h, sábado, das 14h à 1h, e domingo, das 14h às 20h

Endereço: Rua João Brícola, 24 (Farol Santander) - Sé

Bacio di Latte

Horário: domingo, das 12h às 20h, e de segunda-feira a sábado, das 9h às 21h

Endereço: Praça da República, 61 (Edifício São Luiz) - República

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Estadão
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