Esperança e tragédia se misturam em resgate no morro do Bumba
- Luís Bulcão Pinheiro
- Direto de Niterói
Pouco depois do deslizamento no morro do Bumba, no bairro Cubango, em Niterói (RJ), na noite de quarta-feira, a reportagem do Terra chegou ao local, para se deparar com um cenário de caos e desespero. Passava das 23h quando uma multidão aterrorizada encarava a montanha de lama, lixo e escombros em frente ao morro. Três horas antes, havia casas ali. Uma pizzaria, duas igrejas, uma creche, um campo de futebol, além de muitas residências. De 40 a 60, estimavam. Não havia informação. Reinava o desespero.
"A casa dos meus tios ficava ali. A das minhas primas logo ao lado", disse Gisele Pimenta apontando para um amontado de entulho. De repente, um sobrevivente foi resgatado. Era Sailor, o cão da família dos tios de Gisele. Pelos dourados cobertos de pó e barro, olhos catatônicos, rabo entre as pernas. Sailor estava em estado de choque, mas trazia algo precioso: esperança. "Se ele escapou, a minha família também está viva", afirmou Gisele.
O contingente de 80 bombeiros removido às pressas para o local trabalhava rápido. Conseguiram resgatar 23 sobreviventes. Antes de os bombeiros chegarem, diversas pessoas já haviam sido resgatadas pelos próprios moradores do local. No entanto, quanto mais o tempo passava, menor era a chance de que alguém fosse encontrado com vida.
Por volta das 2h, próximo à área onde Sailor foi encontrado, os bombeiros retiraram o corpo de uma mulher. Era uma das primas de Gisele. Abraçada em sua mãe, Gisele deixou o local. A esperança sucumbia.
Acompanhando as buscas durante toda a madrugada, o comandante geral dos Bombeiros, Pedro Machado, o subcomandante, José Paulo Miranda, e o secretário de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro, Sérgio Cortes, concordavam em uma previsão dura, mas realista. Os indícios eram de não haveria mais sobreviventes.
"Diferentemente do Haiti, onde os escombros proporcionavam bolsões de ar onde as pessoas conseguiam sobreviver até 15 dias, a lama dos deslizamentos cobre tudo. Estamos trabalhando para isso, mas dificilmente encontraremos vítimas com vida", afirmou o coronel Pedro Machado.
A madrugada de quinta-feira seguiu em agonia. Bombeiros vasculhavam a área de terreno ainda perigoso, em meio a pancadas fortes de chuva que se repetiam. Quando chovia, as pessoas se recolhiam embaixo de uma pequena marquise. Olhos vidrados no trabalho dos bombeiros. O ronco das escavadeiras, o cheiro do lixo revirado, a água que não parava de escorrer pelas ruas, a lama. No horizonte, a escuridão absoluta, onde antes havia casas.
Tragédia anunciada
O morro do Bumba, no bairro Cubango, em Niterói, era o epicentro tardio de uma catástrofe. Já havia tragédia por toda a parte no Estado do Rio de Janeiro quando, no início da noite de quarta-feira, ocorreu o deslizamento de terra com maior número de vítimas fatais. Havia um alerta para que os moradores próximos a encostas deixassem suas casas. No entanto, não houve interdição das áreas de risco.
Habitações em áreas de risco, como o morro do Bumba, mapeadas ou não, com alertas ou não, foram a causa da tragédia. A confusão no trânsito, as perdas materiais, o comércio fechado, as aulas canceladas, os alagamentos, nada disso foi fatal. Foi a terra deslizando de encostas devido ao acúmulo de água, um fenômeno natural e previsível, que acabou com vidas como a do menino de Marcus Vinícius, 8 anos, soterrado no Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, na capital.
Mesmo depois de tragédias antigas, como nas chuvas 1966, quando cerca de 250 pessoas morreram, e recentes, como a de Angra dos Reis no início do ano, com 53 vítimas fatais, o Rio de Janeiro não tinha plano de emergência capaz de minimizar perdas e proteger a população diante do fenômeno recorrente. Se tinha, não funcionou.
Na manhã de quarta-feira, antes do deslizamento no morro do Bumba, moradores da Travessa Beltrão, em Niterói, trabalhavam sem a ajuda de bombeiros. Eles já haviam resgatado sete corpos. Seis pessoas continuavam desaparecidas. Do alto do morro, Dalto Santana, 68 anos, encarava a devastação da sua comunidade. Ele contou que ajudou a retirar um amigo com vida. Minutos depois, foi encontrado o corpo da esposa de seu amigo. Exausto e emocionado, Dalto começou a chorar.
As autoridades de Niterói admitiam que não havia contingente para atender todas as ocorrências. "Nem mesmo a Defesa Civil do País teria condições", disse o secretário de Segurança e Defesa Civil do município, Marival Gomes, na sexta-feira, quando pancadas de chuva continuavam a ocorrer e havia notícias de mais deslizamentos em outras áreas da cidade. Junto com o incêndio no circo da família Stevanovich em 1961, que deixou quase 500 mortos, essa foi a pior tragédia já vivida por Niterói.
Traumatizados, os moradores entraram em pânico quando boatos de um arrastão se espalharam pelo centro da cidade na tarde de quinta-feira. Comerciantes fecharam as portas em três bairros, as pessoas saíram das ruas. A situação só voltou ao normal quando a polícia ocupou ostensivamente o centro da cidade com patrulhas preventivas.
O significado da tragédia foi sintetizado quando, na tarde de sexta-feira, o governador do Estado entrou em uma tenda da Defesa Civil montada próxima ao deslizamento para falar com Sabrina Carvalho de Jesus. Na noite de terça-feira, ela saiu de casa para verificar o que descreveu como um grande estrondo no alto do morro. Um de seus filhos saiu com ela. Ao virar as costas não pode mais achar sua casa. Seu outro filho, junto com sua mãe, seu pai e seu irmão ainda estavam lá dentro. Para salvar o filho que estava com ela, Sabrina correu para longe. Quando retornou, só encontrou lama, entulho e lixo. Exaurida pelo desespero, sentada em uma cadeira de plástico, com os olhos inchados pelas mais de 40 horas de espera por notícias, ela olhava para o governador, sem se mover, sem responder. Apertava os lábios enquanto as lágrimas escorriam de seu rosto.
Sérgio Cabral começou a falar dos esforços do governo para prestar socorro: "Disponibilizamos pronto atendimento aqui mesmo, vocês vão ter assistência jurídica", dizia. Mas de repente, Cabral interrompeu a si mesmo e suspirou. "É... não adianta. Eu sei que tudo isso não é nada diante da perda de um filho".
Os lábios apertados de Sabrina, molhados pelas lágrimas constantes, se moveram para falar ao governador: "Ninguém sabe o que estou sentindo".
229 mortes
A chuva que castiga o Rio de Janeiro desde segunda-feira deixou 229 mortes - 39 no Morro do Bumba - e 161 feridos, de acordo com balanço do Corpo de Bombeiros atualizado neste domingo. A enchente alagou ruas, causou deslizamentos e destruição no Estado. Segundo o Instituto de Geotécnica do Município do Rio (Geo-Rio), desde o início do mês foi registrado índice pluviométrico entre 200 mm e 400 mm (dependendo da localidade). É o maior índice de chuvas na cidade desde que começou a medição, há mais de 40 anos. A média prevista pro mês de abril é de 91mm.