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Edifício Liberdade: mãe vive angústia de não saber se enterrou o filho

25 jan 2013 - 10h52
(atualizado às 15h11)
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Há exatamente um ano, a vida de Vera Fernandes Githay Charles, junto do marido Antônio Evangelista Charles, sofreu o baque que tirou ambos do eixo. Para nunca mais voltar. Toda dor foi por saber que o filho único, que nunca deu problema, e "sempre avisava onde estava e que horas iria voltar para casa", estava entre as 22 vítimas (17 delas encontradas, e cinco ainda desaparecidas) do desabamento do Edifício Liberdade, no centro do Rio de Janeiro, que levou junto outros dois prédios anexos, na noite do dia 25 de janeiro de 2012.

Pais de Bruno Githay Charles se emocionam ao falar do filho único morto na tragédia do dia 25 de janeiro de 2012
Pais de Bruno Githay Charles se emocionam ao falar do filho único morto na tragédia do dia 25 de janeiro de 2012
Foto: Mauro Pimentel / Terra

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Bruno Githay Charles, 25 anos, era formado e trabalhava com sistemas de informação e, além de ser funcionário da Tecnologia Organizacional (TO), empresa que ocupava vários andares do Edifício Liberdade, e cuja obra no nono pavimento teria sido a principal causa do desmoronamento. Ele passava por um curso no sexto andar no momento em que a avenida 13 de Maio, no coração central carioca, virou uma grande névoa de poeira e fumaça.

Enquanto o Ministério Público anunciava nesta quinta-feira, na véspera do fatídico aniversário, que oferecia denúncia contra o dono e presidente da TO, Sérgio Alves de Oliveira, contra a administradora da empresa, Cristiane do Carmo Azevedo, além de quatro pedreiros, todos eles, segundo o MP, negligentes com a obra que teria causado toda a dor dos familiares das vítimas, Dona Vera ainda enfrenta a sua luta pessoal por justiça. O síndico Paulo Renha, que havia sido indiciado pela Polícia Federal por permitir as intervenções no prédio, morreu também na quinta-feira, vítima de uma infecção respiratória, aos 83 anos.

Neste depoimento exclusivo ao Terra, Vera conta que convive ainda com um drama que lhe tira o sono. "Nunca mais dormi como antes", revela a dona de casa, que se debruçou sobre o calhamaço de páginas da investigação da morte de Bruno e encontrou diversas informações confusas que colocaram uma dúvida devastadora em seu coração: "não sei se o corpo que enterrei era o do meu filho".

Ela aguarda posicionamento do Ministério Público sobre o pedido de exumação do corpo, e principalmente, por uma nova perícia. Quer saber a todo custo a causa da morte do filho e tirar da sua cabeça a dúvida de que ele pudesse estar vivo sob os escombros e que as retroescavadeiras de resgate possam ter "terminado o serviço".

Luta familiar

Leia a seguir o depoimento da dona de casa Vera e a luta da família para conseguir ter a certeza que o corpo enterrado é mesmo o do filho Bruno, morto no desabamento dos prédios no centro do Rio: 

"O Bruno é um menino que se formou em sistema de informação e trabalhava na TO (empresa que funcionava no edifício Liberdade, o maior, que desmoronou empurrando os outros dois) como analista de sistema. Meu filho único, que não deixou neto, não deixou filho, nada além de saudade. Meu filho, sinceramente, eu nunca mais vou conhecer uma pessoa igual. Nunca me deu aborrecimento, nunca tive que procurar meu filho, eu sempre sabia onde ele estava porque ele sempre me avisava.

No dia do desabamento, quando era 20h15, eu liguei para saber se ele vinha jantar. Eu tinha costume de deixar o prato pronto para ele esquentar no micro-ondas. Ele disse que aquele dia não vinha, que tinha curso lá no prédio. De repente, depois de uns 15 minutos, mais ou menos, que eu falei com ele, entra o plantão na TV que tinha desabado um prédio no centro do Rio. Jamais iria imaginar que ia ser o prédio do meu filho. Apreensiva, comecei a tentar ligar para ele e só dava caixa postal. Liguei para minha irmã, que trabalhava próximo ao local, para saber. Quando ela atendeu, e disse que estava vindo para cá me encontrar, soube na hora que o prédio era o que meu filho trabalhava. Parecia que eu queria voar, ter asas para chegar rápido. Meu desejo era entrar no meio daquela fumaça e tentar alguma coisa. Aquela cena não me sai da cabeça. A fumaça e o cheiro.

Nunca ninguém do Instituto Médico Legal (IML) falou que o corpo do meu filho estava lá, ou algum responsável. Conforme ia aparecendo, davam características. Mas nunca deram uma descrição do meu filho. Era só palestra no IML, ninguém via mesmo o corpo, no máximo, fotos. No dia 29 (quatro dias após a tragédia), meu irmão foi ao IML e disse que queria ver o cadáver que estava com a carteira dele ao lado. Era um corpo sem a cabeça, e com os braços decepados. Ele disse que reconheceu como sendo do Bruno por causa das roupas, que já tinha um 'zunzunzun' acontecendo por ali, mas no IML ninguém falava nada, diziam que não tinham nada disso. Um dia depois, a gente foi chamado para recolher material para o exame de DNA.

Quando eu estou na minha casa no dia 6, chega o meu irmão com a liberação do cadáver do meu filho, com o exame de DNA. Foi lido no dia 2. O exame dizia que ele tinha aparecido no dia 28. Pensei na hora que tinha coisa errada. Já me ligaram para realizar o enterro, junto com a assistente social. Eu estava lendo aquilo tudo, e ele falando: "como vamos fazer o enterro do Bruno, a senhora quer escolher o cemitério?".

Só consegui ir ao dia IML no dia 14, meus parentes não deixavam. Eu só ia enterrar alguém se eu visse o corpo do meu filho. Enganei meus parentes dizendo que tinha consulta médica, peguei o meu marido e fomos. Quando a gente chegou ao IML, não me deixaram ver o cadáver. Estava liberado, mas não deixaram. Falaram que nem com advogado. Liguei para o 190. Na ocorrência no Ministério Público tem tudo isso registrado. Passei na Defensoria Pública (do Estado) porque eu queria uma perícia, além, claro, de ver o corpo do meu filho. Eu tenho esse direito.

Mas o pior de tudo foi o fato de que meu irmão tinha visto na foto um corpo branco, e emitiram um laudo de um corpo diferente do que ele viu, um corpo com características negras. Muitas coisas não batiam, depois eu fui descobrir. Diversas guias dos corpos estavam com identificações erradas, muito embora o exame de DNA atestasse o contrário. Estava tudo muito confuso. O cadáver que meu irmão tinha visto não era esse. Meu irmão disse que só tinha calça, sem camisa, e o que me mostraram estava de camisa. Oras, ele sempre usava uma camisa branca por baixo, lisa, e este corpo não tinha, além de tudo. Só aumentavam as minhas dúvidas. Nada batia com o laudo cadavérico, que também não explicava ainda a causa da morte. Diziam que o corpo estava em elevado processo de putrefação, mas, como, se ele foi achado dia 28, três dias depois? Foi quando eu descobri depois, no IML, falando com o rapaz que trabalha lá, que o corpo tinha chegado na verdade dia 27, um dia antes. Tudo errado.

Me levaram para uma sala de baixo, com janela de vidro, e levaram esse corpo, tudo escuro. Me falaram que a luz estava queimada. Não deu para ver nada. IML com luz queimada? Era parecido com o da foto, mas, além disso, eles tinham alguma coisa a esconder. De lá eu saí. Eu fiz uma cautela para esse corpo não ser enterrado como indigente, pois eu não tinha certeza. Eu exigia uma nova perícia, queria saber a hora, e o que matou o meu filho.

Não sai da minha cabeça, depois de toda essa confusão, que podem ter sido aquelas retroescavadeiras que terminaram de fazer o serviço com o meu filho. Me mostraram fotos de pés todos machucados, e no laudo estava tudo bem com os pés. Outra coisa: o laudo do Instituto de Criminalística Carlos Eboli dá informações do corpo do meu filho que não batem com o corpo que eu enterrei. Que bagunça é essa que fazem com o meu filho, com o marido, com parentes, amigos das pessoas que morreram?

Dia 22 de março venceria a cautela do corpo, e no sábado, dia 17 de março, fui obrigada a enterrar o corpo que me deram sem saber se era mesmo o do meu filho. Repito: já entrei com representação no Ministério Público, via Defensoria Pública do Estado, e quero saber a verdade. Pedi a exumação do corpo, mas a própria defensoria requeriu um novo exame de DNA. Eu não quero só isso, até porque pode ter vestígios do meu filho lá dentro, eles podem me enganar. Aprendi nesse ano, investigando muito, que todo cadáver 'fala'.

Quero saber por que meu filho morreu, por que aquele primeiro cadáver, que foi reconhecido pelo meu irmão, estava com as mãos e cabeça decepadas, e depois me apresentaram outro. Tenho que botar isso para fora para alguém fazer alguma coisa. Não aguento mais. Não sai da minha cabeça a ideia de que, como a tragédia aconteceu perto do Carnaval, eles correram para retirar tudo, arrumar tudo, para a onda passar. Aqueles caminhões em cima do meu filho. Tenho a certeza de que meu filho estava vivo debaixo daqueles escombros."

Vítima foi identificada por DNA, diz polícia

De acordo com informações do diretor do Departamento Geral de Polícia Técnico Científica (DGPTC), Sérgio Henriques, dois laudos foram entregues à família de Bruno Gitahy Charles, um em janeiro de 2012 e outro em fevereiro do mesmo ano. O primeiro apresentou o resultado da necropsia, e o segundo ratificou a necropsia e apresentou a identificação da vítima por exame de DNA.

O exame de DNA foi executado por ser o único meio de identificação da vítima. Exames de impressão digital ou de arcada dentária seriam inviáveis, pois o corpo só possuía tronco, membros inferiores e parte do braço esquerdo. A cor de Bruno Gitahy foi declarada como ignorada. A cor enegrecida citada no laudo, de acordo com Henriques, se deve ao estado de putrefação da vítima. "Convém frisar que a família só pode solicitar a certidão de óbito com o nome completo da vítima junto ao juiz e ao cartório, por possuir o resultado do laudo de identificação", diz a Polícia Civil em nota.

Os desabamentos

Três prédios desabaram no centro do Rio de Janeiro por volta das 20h30min de 25 de janeiro de 2012. Um deles tinha 20 andares e ficava situado na avenida Treze de Maio; outro tinha 10 andares e ficava na rua Manuel de Carvalho; e o terceiro, também na Manuel de Carvalho, era uma construção de quatro andares. Segundo a Defesa Civil do município, 22 pessoas morreram.

Segundo o engenheiro civil Antônio Eulálio, do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), havia obras irregulares no edifício de 20 andares. Na época, o especialista afirmou que o prédio teria caído de cima para abaixo e acabou levando os outros dois ao lado. De acordo com ele, todas as possibilidades para a tragédia apontam para problemas estruturais nesse prédio.

Na época da tragédia, a prefeitura do Rio de Janeiro interditou várias ruas da região. O governo do Estado decretou luto. No metrô, as estações Cinelândia, Carioca, Uruguaiana e Presidente Vargas foram interditadas na noite dos desabamentos, mas foram liberadas após inspeção e funcionam normalmente.

Veja como era o local no centro do Rio antes do desabamento dos prédios:

Fonte: Terra
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