Ataque contra Ruy Ferraz Fontes foi planejado em bar no litoral de SP, aponta delegada
Ex-delegado foi monitorado de perto por integrantes do PCC durante três meses; suspeitos de mandarem matar foram presos nesta terça, 13
O assassinato do ex-delegado geral da Polícia Civil de São Paulo, Ruy Ferraz Fontes, foi planejado em um bar em Mongaguá, no litoral paulista, segundo revelado nesta segunda-feira, 13, pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). As investigações ainda apontam que ele vinha sendo monitorado por membros do Primeiro Comando da Capital (PCC) pelo menos três meses antes de ser executado, em setembro do ano passado.
"O doutor Ruy (Ferraz Fontes) passou a ser monitorado mais de perto pelo menos a partir de junho", afirmou a delegada Ivalda Aleixo, chefe do Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa.
Nesta terça, ao menos três suspeitos de envolvimento no crime foram presos - seriam nomes ligados ao planejamento da execução. Um deles foi encontrado em Monguaguá, justamente perto do estabelecimento usado para elaborar o crime. Os outros foram localizados em Jundiaí, no interior do Estado.
As investigações seguem para localizar outros dois alvos da operação e para definir a motivação do crime. Por ora, a Polícia Civil acredita que a execução se deu por conta de investigações conduzidas pelo ex-delegado geral ao longo das últimas duas décadas, o que o tornou um dos alvos da alta cúpula do PCC.
Para o secretário da Segurança Pública do Estado, Osvaldo Nico Gonçalves, a motivação pode estar ligada a uma retaliação por investigações relacionadas principalmente a crimes roubo a banco, que foram conduzidas pelo ex-delegado geral a partir de 2005.
"Todos eles (os presos nesta terça) tiveram contato direto com o Ruy na época, que os prendeu por roubo a banco. Ficou essa mágoa", disse. Outras hipóteses, incluindo as relacionadas com denúncias sobre possíveis irregularidades na prefeitura de Praia Grande, onde o ex-delegado geral trabalhava, ainda não são descartadas.
Segundo a polícia, um dos veículos usado na execução foi furtado em março do ano passado - ainda não se sabe se para ser usado no dia do assassinato de Fontes. O outro foi justamente no meio do ano, quando o monitoramento teria se intensificado. As investigações prosseguem.
"Agora está faltando a última peça, de quem foi a pessoa que colocou esse mecanismo todo para funcionar. Nós já temos a logística do crime e da execução, e estamos muito perto de chegar de quem ordenou a execução", disse Ronaldo Sayeg, diretor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic).
'Azul, Velhote e Manezinho'
Um dos detidos na operação desta terça é Fernando Alberto Ribeiro Teixeira, o Azul ou Careca, que exerce cargo de liderança no PCC e é apontado como um dos articuladores do atentado.
Além dele, foram presos Marcio Serapião de Oliveira, o Velhote, membro do PCC investigado por apoio estratégico e logístico, e Manoel Alberto Ribeiro Teixeira (Manezinho ou Manoelzinho), também da facção e investigado pelo apoio logístico e operacional. A reportagem busca contato com a defesa dos detidos.
A polícia chegou aos suspeitos por meio de impressões digitais localizadas em veículos utilizados no crime, dados extraídos de aparelhos eletrônicos apreendidos, movimentações financeiras suspeitas e vínculos entre os investigados, utilização de imóveis para apoio logístico, além de denúncias anônimas.
Para especialistas, a execução de Ferraz Fontes, um dos principais nomes no combate ao PCC no País, e do delator Antonio Vinicius Gritzbach - baleado no Aeroporto de Guarulhos em novembro de 2024 - mostram uma vontade da facção de mostrar força com ações violentas nas ruas.
Em 2006, foi o responsável por indiciar toda a cúpula do PCC, inclusive Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola - e era conhecido por sua atuação contra a facção.
Em 2019, na gestão do então delegado geral, Azul foi um dos presos transferidos da Penitenciária de Presidente Venceslau, em São Paulo, para presídios federais, a pedido do Ministério Público. Ele cumpriu pena em Mossoró (RN) e deixou o presídio no mês passado.
Em novembro, a Polícia Civil havia concluído a primeira fase das investigações. O inquérito inicial indiciou 12 suspeitos e solicitou suas prisões preventivas por homicídio qualificado consumado e tentado, porte ou posse de arma de fogo de uso restrito e participação em organização criminosa. Dez indiciados estavam presos e dois permanecem foragidos. A decisão da Justiça determina a soltura de cinco dos dez detidos.
Os suspeitos que tiveram a prisão preventiva negada responderão em liberdade, mas com medidas cautelares impostas, como o monitoramento por tornozeleira eletrônica.