Donos de bares famosos de SP sentem impacto da crise do metanol em bebidas: 'Reservas canceladas'
Intoxicações afetam imagem da alta coquetelaria da capital paulista; 5 morreram no Estado. Donos relatam cuidados para evitar adulterações
Os casos de intoxicação por metanol após ingestão de bebidas alcoólicas no Estado de São Paulo já estão impactando o setor de bares de alta coquetelaria da cidade. Desde sábado, 27, os estabelecimentos notaram uma queda no movimento, um maior questionamento de seus clientes sobre a procedência das bebidas e, principalmente, cancelamentos de reservas.
Dados do Centro de Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo informam que foram confirmados sete casos de intoxicação por metanol, com suspeita de consumo de bebida adulterada. Outros 15 casos seguem em investigação. Até agora, foram registrados cinco óbitos, sendo um confirmado na capital e quatro ainda em análise - três em São Paulo e um em São Bernardo do Campo. Quatro casos foram descartados.
"O impacto é significativo. Reservas estão sendo canceladas e os clientes têm deixado claro que a questão é o medo da intoxicação por bebida falsa. Todo o setor está sendo atingido. Precisamos nos focar em esclarecer nossos clientes sobre a segurança e confiabilidade dos produtos que trabalhamos", conta Ricardo Miyazaki, proprietário do The Punch.
"Esse é um momento muito delicado e importante. Desde o último fim de semana, estamos com muitas reservas questionadas, com clientes querendo trazer suas próprias bebidas de casa ou perguntando se sou eu mesmo quem autoriza a compra das bebidas", disse Jean Ponce, proprietário do Guarita Bar.
Para o sócio do Caledonia Whisky & Co., Maurício Porto, a notícia das intoxicações por metanol já pode estar causando consequências no movimento da casa. "Nós tivemos um sábado ruim. Ainda não é possível ter certeza, mas isso já pode ser um reflexo da repercussão dos casos de adulteração", comenta Porto. "Esse é, especialmente, um momento muito frágil para os bares. Outubro e novembro são meses para se fazer caixa. Historicamente, fim de dezembro e janeiro são meses muito fracos para os bares. Se houver uma queda significativa agora, as casas podem passar por muitas dificuldades em breve", completa.
Márcio Silva, sócio do Exímia Bar, também já sentiu uma mudança no comportamento de seus clientes. "Por causa de poucas pessoas, o mercado inteiro paga. No setor de eventos do Exímia (o segundo andar da casa costuma ser fechado para eventos), notamos um questionamento maior sobre o que está sendo servido, uma preocupação extra de quem vai contratar o espaço", fala.
O sócio das casas HighLine, Seu Justino e Pracinha do Seu Justino, Léo Cury, acredita que os casos de intoxicação irão "estremecer bastante o comportamento do consumidor". "Só nesta terça-feira já recebi três ligações de pessoas com dúvidas sobre as bebidas. Já tenho reservas para o próximo fim de semana que estão penduradas", disse.
Teve início nesta terça-feira, 30, a interdição de estabelecimentos com suspeita de comercialização de bebidas fraudadas. Ao menos quatro estabelecimentos foram fechados. Um dos alvos da ação foi o bar "Ministrão", na Alameda Lorena, nos Jardins, onde uma das vítimas disse ter consumido bebida alcoólica antes de passar mal e perder a visão. Ela continua hospitalizada.
O endereço já havia sido citado no Boletim de Ocorrência registrado por familiares da vítima, documento ao qual o Estadão teve acesso. O bar nega a venda de bebidas fraudadas. "Esclarecemos que todas as nossas bebidas são adquiridas de fornecedores oficiais, com nota fiscal e procedência garantida, provenientes de grandes distribuidoras reconhecidas no mercado. Nossa equipe jurídica já está em contato com os fornecedores para apurar todos os detalhes", disse, em nota, nas redes sociais.
Bebidas rastreáveis
O que os chamados bares de alta coquetelaria, por meio de seus proprietários, dizem para tranquilizar seus clientes é que todo o processo de compra de bebidas passa por uma cadeia fechada e rastreável.
De acordo com os principais representantes da cena de coquetelaria de São Paulo, os bares compram das próprias marcas (importadores) ou de distribuidores homologados - o que significa dizer que todos os lotes são rastreáveis. "A gente compra direto da marca ou dos homologados. Eventualmente, pagamos até mais por isso, mas cortamos toda a possibilidade de falsificação. Tudo é comprado com nota e pode ser rastreado", diz Porto. "Bares de alta coquetelaria e grandes grupos fazem isso - até porque trabalham com acordos entre marcas. O que gera a falsificação é comprar de fornecedor desconhecido. Se a promoção é muito grande, tem boi na linha", completa.
A questão parece mesmo evitar o "canto da sereia" de supostos fornecedores que surgem com preços "imperdíveis". "No Santana Bar e no Cordial só trabalhamos com fornecedores homologados pelas marcas, mas não é raro eu receber mensagens no meu WhatsApp de pessoas querendo me vender garrafas de bebidas por preços muito abaixo do mercado. É muito difícil encontrar preços muito abaixo da média do mercado. Nós não compramos nada que não venha de alguém certificado", disse Gabriel Santana, proprietário do Santana Bar e do Cordial.
Cury é outro proprietário de bar que diz receber ligações constantes de pessoas querendo vender bebidas por preços muito mais baratos. "Nós não conversamos. Até porque temos contrato com os fabricantes que nos obriga a comprar deles ou dos homologados", explica.
Combate à falsificação
Os próprios bares têm atuado para dificultar o crescimento da indústria de falsificação das bebidas. Alê Bussab, sócio e bartender do Trinca Bar, conta que já foi assediado para vender garrafas vazias. "Logo no início da nossa empresa, fazíamos eventos no Rio de Janeiro, e um certo dia uma pessoa quis comprar todas as garrafas vazias que sobravam. Nunca vendi porque sempre soube qual era a finalidade: encher essas garrafas com outro tipo de álcool."
Jean Ponce, do Guarita, também é proativo contra qualquer possibilidade de falsificação. "Nós zeramos as garrafas, arrancamos o rótulo, tiramos a biqueira (bico da garrafa) e nunca jogamos as tampas no mesmo lugar das garrafas. Tudo isso para dificultar qualquer um que tente reutilizá-las."
No caso do Guarita, outra providência prática está sendo tomada, desta vez para resguardar o próprio estabelecimento. "Tomamos a decisão de não deixar nenhum cliente trazer outra garrafa de fora do nosso estabelecimento. Isso afeta, principalmente, a questão do vinho. Algumas pessoas 'pagam a rolha' para trazer seu próprio vinho para consumo dentro do bar. A partir de agora, isso não será mais permitido", explica Ponce.