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Conheça as mulheres decisivas na Revolução de 1932

Em 1932, mais de 72 mil mulheres atuaram no movimento armado contra o governo provisório de Getúlio Vargas

9 jul 2019
15h41
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Quase sempre deixadas de lado nas narrativas dos principais episódios da história do Brasil, as mulheres tiveram participação ativa na Revolução de 1932, comemorada nesta terça-feira, 9, em São Paulo. A imagem de destaque que elas ganharam no movimento, cujo objetivo era derrubar o governo provisório de Getúlio Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, foge do corriqueiro, segundo João Paulo Rodrigues, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

"Quando olhamos para a maior parte dos acontecimentos deste período, de 1920 e 1930, não é comum ver a imagem de mulheres estampadas em primeiro plano. Em 1932 elas ocupam a cena", explica. Há registro de mais de 72 mil mulheres voluntárias na guerra, o equivalente a 15% de toda a população feminina da cidade de São Paulo em 1932.

O destaque, de acordo com o pesquisador, pode ser explicado pela ausência do apoio de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul à São Paulo. "A guerra de 1932 foi planejada esperando pelo suporte desses dois estados, o que faria com que a revolução não necessitasse de confronto." Sozinha, São Paulo buscou ajuda para a guerra no voluntariado. "É aí que a gente encontra a participação delas", explicou Rodrigues.

As mulheres paulistas ingressam na Revolução de 32 como uma necessidade de São Paulo reunir forças para fazer frente ao governo provisório, segundo Rodrigues. "Elas acabam incorporadas em diversos setores da guerra. Não é apenas retórica, é participação absolutamente efetiva", disse.

Na produção historiográfica predominante, porém, o papel das mulheres no movimento é reduzido ao da propaganda política, explica o fotógrafo e historiador Jeziel De Paula no livro 1932: imagens construindo a história. Segundo ele, a atuação feminina à época acaba reduzida a uma espécie de "encenação teatral" praticada pelas damas da alta sociedade bandeirante.

A propaganda da época destacava a atuação feminina em setores tidos como "de mulher". Um deles era o da fabricação de roupas para as tropas. Nas salas de costura que funcionavam na capital, apenas nos primeiros vinte dias de guerra, foram confeccionados 60 mil fardamentos, alcançando o montante de 450 mil uniformes no final de setembro do mesmo ano.

Outra função amplamente divulgada era o de enfermagem. Solteiras e viúvas participaram de cursos promovidos pela Cruz Vermelha internacional e passaram a atender em hospitais de sangue e postos de emergência nas frentes de batalha.

Mais que 'trabalho de mulher'

O envolvimento das mulheres paulistas, no entanto, não se limitou à costura e enfermaria. "Elas também acabaram incorporadas a trabalhos mais pesados, tidos como 'de homens'. Muitas fábricas foram convertidas em decorrência da guerra para a fabricação de capacetes de aço, por exemplo", disse Rodrigues. De Paula, em seu livro, conta que foram criadas linhas de produção industrial exclusivamente femininas para a produção de material bélico leve, como embalagem de munição.

Houve também uma minoria de mulheres que foram à luta. Segundo De Paula, há confirmação de pelo menos três casos. O mais famoso é o da professora Maria Stela Rosa Sguassábia, de São João da Boa Vista, que foi ao combate junto ao seu irmão. O historiador conta que, durante um dos combates, Maria prendeu o tenente Arthur Nocce, da Força Pública de Minas Gerais - para ele, a humilhação de ter sido capturado por uma mulher foi maior do que ter caído prisioneiro dos constitucionalistas

Também lutou no batalhão de voluntários de Itu outra combatente, Francisca Messias. Foi descrita por um voluntário como uma mulher valente de meia-idade que, fardada e armada de revólver. No terceiro relato, sem maiores dados, havia quatro mulheres negras entre os soldados das duas companhias de fuzileiros da Legião Negra, que integravam, juntamente com os batalhões 14 de julho.

Pouca mudança no pós-revolução

Apesar de todo o prestígio que tiveram durante a Revolução de 1932, as mulheres não viram, ao menos nos anos seguintes ao movimento, mudanças palpáveis no que diz respeito à posição feminina na política regional. Nem mesmo a reivindicação de mais poder político, segundo a historiadora Barbara Weinstein.

Em sua pesquisa, Weinstein afirma ter encontrado meia dúzia de discursos e textos defendendo que a conduta admirável das mulheres na campanha constitucionalista legitimaria as aspirações a uma maior igualdade de direitos entre os gêneros.

Os ganhos na vida política e pública existiram, não há como negar. Mas a um seleto grupo de mulheres. Carlota Pereira de Queiróz é uma delas. Responsável pela direção do departamento de assistência aos feridos na capital, passou a fazer parte da política depois da guerra. No ano seguinte à Revolução, ela foi eleita a primeira deputada federal do Brasil. Maria Tereza de Camargo, por sua vez, participou da direção do Partido Constitucionalista em 1933 e foi nomeada prefeita de limeira em 1934.

Segundo Weinstein, apesar de exemplos isolados, os dois casos "constituem um contraste fascinante em face da total ausência de mulheres na política formal em épocas anteriores e em outras localidades".

A historiadora ressalta, no entanto, que uma sondagem sucinta entre centenas de funcionários municipais e estaduais da capital e do interior, ou nas comissões culturais e educacionais de 1954, revelou uma ausência quase que total de mulheres da vida pública de São Paulo após mais de duas décadas de Revolução de 1932. "A celebração da Mulher Paulista e sua dramática incursão na vida política e pública parecem não ter trazido benefícios correspondentes no tocante ao papel público e político das mulheres na região."

Estadão
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