Batman, o homem-morcego (e das contradições) nas ruas do Rio
Figura presente nas passeatas de 2013 e 2014, o protético Eron Morais de Melo vai estar na rua domingo, mais uma vez, exigindo respeito de quem o considera traidor ou “duas caras”, por estar agora num movimento direitista
Quantas pessoas a Polícia Militar vai contar nas ruas dessa vez (e os institutos de pesquisa vão referendar isso)? A presidente Dilma Rousseff vai ficar ainda mais pressionada? O impeachment é algo realmente palpável, ou seguirá sendo "chororô" de quem quer um terceiro turno? As faixas pedindo intervenção militar (e ferindo lei federal) se multiplicarão? Você pode ter muitas dúvidas em relação as passeatas programadas para o domingo contra o governo. Uma coisa, porém, é certa: por volta de 9h30, no posto 5, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, você vai ver um manifestante vestido de Batman e com uma faixa “fora, Dilma”.
Eron Morais de Melo, 33, é protético e “arroz de protesto”. Ele virou figura famosa das manifestações de 2013, no auge dos movimento populares na base do “gigante acordou” – após o aumento das passagens de ônibus nas principais capitais do País. Cosplay confesso do homem-morcego, ele não faltou a nenhuma manifestação desde que viu pela TV a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) pegar fogo no primeiro grande ato de junho de 2013 na capital.
Em 2014, as marchas diminuíram consideravelmente de tamanho e importância. Mas ele estava lá. Neste ano, no última dia 12 de março, claro deu o ar de sua graça. A questão é que, em dois anos, o ideal do brasileiro nas ruas mudou da água para o vinho. Da esquerda para a direita. E, obviamente, ele foi cobrado por isso. “Muitos dos manifestantes de 2013 me detestam agora. Me consideram um traidor”, confessa ao Terra, em entrevista em sua casa, no subúrbio carioca.
“Recebi muitas ofensas. Eu tinha umas cinco mil pessoas no meu Facebook e precisei bloquear muita gente depois que eu comecei a fazer campanha contra a Dilma. Porque eu sou antipetista”, complementa ele, que se disse desiludido depois de ter votado no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro mandato. “PT nunca mais”, diz ainda ele, que votou em Aécio Neves no segundo turno da eleição presidencial do ano passado, mesmo sem simpatizar com o tucano.
“Eu uso esse personagem, que é uma alegoria, entendeu, já que o Rio de Janeiro e o Brasil são lugares corruptos e violentos. Usar esse personagem ligado a justiça é interessante, sim. Você tem direito de não gostar do Batman? Tem todo o direito. Mas eu também tenho o direito de me manifestar da maneira que eu quiser”, afirma ainda, sem deixar, no entanto, de transparecer contradições.
Sobre a Polícia Militar, por exemplo. Ele já posou ao lado de faixas pedindo o fim da instituição – esta, aliás, uma pauta de todas as manifestações de 2013. Já apanhou de PM e levou cinco pontos na cabeça quando protestava junto com os professores da rede municipal e estadual em greve. E protagonizou a cena dantesca, que nem os HQs da DC Comics puderam proporcionar tendo Gothan City como cenário: foi preso por se recusar a tirar a máscara num ato – após a aprovação de lei que obrigava manifestantes a mostrarem o rosto. Sim, a Polícia Militar do Rio de Janeiro conseguiu prender o Batman.
Diante disso, ficou incoerente a cena de Eron, ou o Batman, posando sorrindo para fotos com policiais no ato do último dia 15 de março, ou mesmo ao lado de quem mais defende midiaticamente as Forças Armadas: o deputado federal Jair Bolsonaro (PP). ”Eu tenho esse direito, já posei para foto com o Marcelo Freixo”, argumenta, lembrando sempre que “não sou nem de esquerda, nem de direita”.
“Porque eu fui numa manifestação contra a Dilma em que apareci com o Bolsonaro, eles acharam que eu não poderia estar ali protestando contra o aumento da passagem”, explica, relembrando que, no início do ano, foi expulso de um ato, no melhor estilo repórter da “verdade é dura a TV Globo apoiou a ditadura”. Foi chamado de “fascista”.
Sobre o fato de ter sido preso, explica que foi uma medida “ridícula”, mas em nada truculenta. E sobre a pancada que levou na cabeça de um policial, ficou a revolta, mas também a compreensão de que “eu não podia julgar todos por causa da conduta de um ou de um grupo”.
Na fama de aparecer, também esteve ao lado de faixas pedindo intervenção militar no Brasil. Eron se diz “absolutamente contra, sou adepto da mídia livre, não pode haver censura”. “E eles foram uma minoria”. Por fim, com suas oito máscaras, luvas, bota, capa e roupa do homem-morcego, prontos para domingo, ele fecha o seu pensamento, pronto para ir novamente às ruas. “Democracia é direito mútuo. Você não é obrigado a gostar do Batman, mas tem que me respeitar”.