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Barracos são incendiados em reintegração de posse em SP

Moradores da comunidade Nelson Mandela, em Osasco, foram obrigados a deixar suas casas nesta terça-feira

9 jun 2015
09h15
atualizado às 10h59
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Origem das chamas é controversa: alguns moradores disseram que foi a PM que começou, outros afirmaram que foram os próprios "mandelenses"
Origem das chamas é controversa: alguns moradores disseram que foi a PM que começou, outros afirmaram que foram os próprios "mandelenses"
Foto: Elisa Feres / Terra

Quem passou pela zona norte de Osasco na manhã desta terça-feira pôde ver uma enorme fumaça negra pelo céu. O fogo vinha da comunidade Nelson Mandela, montada em terreno privado na divisa com Barueri, onde a Polícia Militar realizou uma ação de desapropriação. A origem das chamas é controversa: enquanto alguns moradores disseram que foi a PM que começou, outros afirmaram que foram os próprios "mandelenses". Em meio ao incêndio, muitos não tiveram tempo - e nem auxílio - para retirar seus pertences.       

"Eu estava dormindo. Quando acordei, umas 5h e pouco, tinha fogo por tudo na rua. Corri pegar o filho da vizinha e fui embora. Como a gente imaginava que a reintegração poderia acontecer, tirei minhas coisas de casa ontem e levei para a casa de um parente aqui perto. Mas muita gente não conseguiu", disse a faxineira Cícera Maria dos Santos. "Foi a polícia que fez isso. Tem até mulher grávida lá no meio. Sinto muita vergonha. É doído. Faz alguns meses que a polícia está aqui tratando a gente como bicho. Eles diziam: 'não vejo a hora de chegar o dia 9'. Para eles, somos bandidos", completou.

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Ela, que "pulou" de ocupação para ocupação por não conseguir pagar aluguel, afirmou que a favela foi o melhor lugar que já morou: "tinha até escola perto para os meninos".

Quem não tinha familiares ou amigos morando na região para levar os pertences a pé e nem conseguiu pagar um serviço de caminhão de mudança perdeu absolutamente todos os móveis e eletrodomésticos. 

Em meio ao incêndio, muitos não tiveram tempo - e nem auxílio - para retirar seus pertences
Em meio ao incêndio, muitos não tiveram tempo - e nem auxílio - para retirar seus pertences
Foto: Elisa Feres / Terra

"Ficamos sem informação aqui. Minha família estava preparada para sair, mas ontem à noite o que se falava na comunidade é que tínhamos ganhado o terreno. Fizemos até festa! Comemos, bebemos. De repente, começamos a ouvir que não, que a polícia viria, sim, tirar todo mundo. Aí não deu tempo de tirar tudo de casa. E não tivemos ajuda de ninguém", reclamou Joelma Pereira. Ela acredita que foram moradores revoltados que atearam o fogo.

Durante a manhã, o Rodoanel foi bloqueado entre o km 6 e o km 16, entre as rodovias Castello Branco e a Anhanguera, onde fica a comunidade, e o trânsito ficou bastante complicado na região. Até o fechamento dessa reportagem, o fogo ainda não havia sido controlado. Os mandelenses, mesmo desolados, não resistiram e não houve confronto.

Ainda no local, representantes da PM alegaram que o incêndio havia sido causado por moradores não-identificados e que um caminhão dos Bombeiros estava a caminho.

Quem não tinha familiares ou amigos morando na região para levar os pertences a pé e nem conseguiu pagar um serviço de caminhão de mudança perdeu absolutamente todos os móveis e eletrodomésticos
Quem não tinha familiares ou amigos morando na região para levar os pertences a pé e nem conseguiu pagar um serviço de caminhão de mudança perdeu absolutamente todos os móveis e eletrodomésticos
Foto: Elisa Feres / Terra

De acordo com o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), o espaço, que começou a ser ocupado em janeiro de 2014, pertence à empresa Dias Martins S/A Mercantil e Industrial e abriga 3 mil barracos e  cerca de 13 mil pessoas. Os moradores, por sua vez, falam em 7 mil barracos. Um comparativo: em Pinheirinho, São José dos Campos, onde aconteceu uma enorme desocupação em 2012, o número de habitantes era estimado entre 6 e 9 mil.

A deliberação da desapropriação aconteceu no dia 9 de março deste ano. Após reunião no Palácio da Justiça com magistrados, representantes da comunidade, do Ministério Público e dos governos federal, estadual e municipal, a promotora de Justiça Fernanda Queiroz Karan Franco alegou que laudos comprovavam a existência de restrições ambientais no terreno que impossibilitavam a fixação de residências. Por isso, declarou que a decisão judicial de desocupação deveria ser cumprida em um prazo de 90 dias.

Representantes da PM alegaram que o incêndio havia sido causado por moradores não-identificados e que um caminhão dos Bombeiros estava a caminho
Representantes da PM alegaram que o incêndio havia sido causado por moradores não-identificados e que um caminhão dos Bombeiros estava a caminho
Foto: Elisa Feres / Terra
“PM ri da nossa cara”, diz moradora em reintegração em SP
Fonte: Terra
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