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Bares e restaurantes ignoram quarentena e servem clientes

Parte dos estabelecimentos permite que clientes consumam em mesas dispostas na entrada; outros 'escondem' frequentador atrás de portas

4 abr 2020
05h11
atualizado às 09h21
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A quarentena no Estado de São Paulo contra a pandemia do novo coronavírus chega ao 12º dia neste sábado, 4, com cumprimento parcial por parte dos afetados. Entre os setores mais resistentes, estão pequenos bares, lanchonetes e restaurantes da capital paulista, que adotaram "jeitinhos" para continuar servindo alimentos e bebidas no local - o que é vetado.

Foto: Claudia Martini/AM Press & Images / Estadão

O Estado percorreu vias da região central e do distrito de Pinheiros entre as 12 e as 15 horas da sexta-feira, 3, período em que avistou ao menos 20 estabelecimentos que descumpriam o decreto estadual. Os espaços permitiam o consumo de alimentos no balcão ou em mesas dispostas no limite entre a área interna e a calçada.

Na República, por exemplo, um bar na Rua Bento Freitas baixou parcialmente as portas, mas não conseguiu esconder um cliente que consumia um pão na chapa e tomava um café no balcão. Perguntado, um funcionário disse que está servindo apenas uma pessoa por vez na parte de dentro do estabelecimento e que a maioria dos atendimentos são por delivery.

Caso semelhante se repetiu na Rua Xavier de Toledo, nas proximidades da Estação Anhangabaú. O restaurante impedia a entrada de clientes na área interna criando uma espécie de barreira de mesas, nas quais justamente servia cachaça e cerveja em copos de vidro para dois clientes - ambos idosos. Os funcionários falaram que era "exceção" por se tratar de "amigos da casa".

"O limão dizem que protegem, o álcool dizem que protegem também (contra o covid-19)", brincou um dos clientes, que disse ter 72 anos. "Vim resolver uma coisa e aproveitei para encontrar um amigo, mas a gente fica bem longe um do outro, nem beijo na boca a gente dá", ironiza. "Minhas filhas não sabem (que está fora de casa). Se soubessem, tinham me amarrado no pé da cama."

A situação também se repetia perto dali, na Avenida São João. Nas quadras entre o Largo do Paiçandu e a Rua Ana Cintra, ao menos cinco bares repetiam o procedimento.

O funcionário de um dos locais justificou que servia as bebidas em copos plásticos e que não conseguiria controlar o comportamento dos clientes, que colocavam os copos sobre as mesas que bloqueavam a entrada, aglomerando-se. "Da porta para fora, eles podem não podem fazer nada", justifica um frequentador.

Também sobre as mesas de madeira que bloqueavam a entrada, outro bar da mesma via colocava não somente copos de vidro como um prato de cerâmica com diversos cortes de carne. O estabelecimento, de pequeno porte, reunia seis homens na entrada e justificou que a maioria dos clientes compra para levar.

Situações do tipo também foram vistas na Rua Augusta, na Barra Funda, na Santa Cecília, na Bela Vista e em dois pequenos restaurantes de Pinheiros - todos voltados para um público de classes média e baixa. Em contraste aos que burlam o decreto, outros chegavam a usar fitas para impedir a aproximação de clientes da área interna ou entregavam os pedidos por pequenas janelas entreabertas.

Decreto

Quando anunciou quarentena, que permanece ao menos até 7 de abril, o governador João Doria (PSDB) ressaltou que estabelecimentos não podem servir bebidas e alimentos para consumo no local e pediu que comerciantes sejam "criativos" e "solidários".

"Serviços de alimentação preparada deverão ser suspensos e, se desejarem, transformados em serviços de delivery. Isso implica que bares, cafés e restaurantes em todo o Estado de São Paulo devem fechar as suas portas (...), mas, se desejarem, poderão funcionar através de delivery."

Na sexta-feira, 3, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), disse, em coletiva de imprensa, que a gestão municipal está com 2 mil fiscais das subprefeituras para garantir o cumprimento da quarentena e que denúncias podem ser feitas pelo serviço 156. A orientação é fechar o local infrator e, em caso de reincidência, cassar o alvará de funcionamento e encaminhar o caso para a Polícia Civil.

"Essa não é questão de responsabilidade exclusiva do poder pública, embora a gente não abra mão da nossa responsabilidade, mas é também da população", afirmou. "É um ato humanitário poder respeitar essa quarentena."

MOVIMENTO

Moradores e frequentadores da região central dizem que o movimento de carros e pessoas cresceu nos últimos dias. "Aumentou muito, está um absurdo. Antes de ontem, você olhava aqui (Largo do Paiçandu) e não via um carro subindo. Não tinha isso, de gente andando pra lá e pra cá", comenta o empresário Sérgio Schumann, de 67 anos. "Eu tinha certeza que, depois de ontem (do posicionamento do Ministério da Saúde sobre máscaras de pano), todo mundo estaria de máscara hoje."

Já na Vila Madalena, na zona oeste, era raro encontrar um pedestre e grande parte dos bares e restaurantes estava fechado até mesmo para serviços de entrega. "Está um eterno domingo. Em uma sexta-feira, já estaria um movimento meio de happy hour. Só aqui, a gente costuma servir uns 120 almoços por dia", conta o chef Filipe Leite, de 34 anos, que agora prepara pratos apenas para delivery. "Costuma ser um bairro mais movimento de pedestre, até porque tem muito escritório pequeno (no entorno)."

Leite conta, contudo, que percebeu o trânsito mais intenso do que nos dias anteriores. "Foi o dia mais movimentado para chegar (do centro, onde mora, até o restaurante). Infelizmente."

Mesmo com a suspensão do rodízio, a cidade de São Paulo não tem enfrentado engarrafamentos na quarentena. Segundo dados da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a capital não teve registros de lentidão na sexta-feira.

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Estadão
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