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Ações individuais de motoqueiros e tentativas de reação: como foram latrocínios recentes em SP?

Foram ao menos sete casos no intervalo de pouco mais de 30 dias, segundo mapeamento do 'Estadão'; Secretaria destaca que, no primeiro trimestre, ocorrências caíram pela metade no Estado

25 mai 2026 - 05h41
(atualizado às 14h50)
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Marcada por abordagens de motociclistas e tentativas frustradas de reação das vítimas, uma sequência de latrocínios (roubos seguidos de morte) tem assustado moradores de São Paulo. Foram ao menos sete casos no intervalo de pouco mais de um mês, conforme mapeamento feito pelo Estadão. Na semana passada, a capital teve três ocorrências - na Vila Formosa, zona leste, no Butantã, oeste, e na região do Morumbi, sul (vídeo acima) -, mais do que em todo o mês de maio do ano passado, quando foram dois registros.

No último dia 9, uma estudante morreu em uma tentativa de assalto na Marginal Pinheiros. No fim de abril, outras três ocorrências em um curto intervalo de tempo - todas na zona sul, em bairros como Moema e Itaim Bibi - também ligaram o alerta para a modalidade.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP) afirma que, como resultado do trabalho integrado entre as forças de segurança, os latrocínios caíram 50% no Estado no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Na capital paulista, os casos foram de 13 para sete no mesmo período. "Ambos os índices são os menores desde 2001, início da série histórica", diz a pasta. As estatísticas mais recentes, porém, são de março, o que limita a análise.

Homem morre após levar tiro na cabeça ao tentar ajudar casal vítima de assalto em Moema.
Homem morre após levar tiro na cabeça ao tentar ajudar casal vítima de assalto em Moema.
Foto: Reprodução/TV Globo / Estadão

Os casos em sequência ocorrem pouco mais de um ano após latrocínios como o do ciclista Vitor Medrado, morto com um tiro à queima-roupa em fevereiro do ano passado perto do Parque do Povo, no Itaim Bibi, zona oeste. "Parece uma roleta-russa o tempo todo", disse meses depois a viúva de Medrado ao Estadão. Na época, mais de uma dezena de suspeitos de envolvimento direto ou indireto no caso e em outros latrocínios foram presos.

Ciclistas participam de homenagem a Vitor Medrado, morto nos arredores o Parque do Povo.
Ciclistas participam de homenagem a Vitor Medrado, morto nos arredores o Parque do Povo.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Neste ano, a ocorrência mais recente foi a morte do bancário aposentado Celso Luiz Pavani, de 62 anos, assassinado na Vila Formosa após uma tentativa de assalto em um golpe conhecido como "golpe da falsa entrega". Como mostrou o Estadão, o aposentado estava em casa quando foi surpreendido com o toque de uma campainha. Ao sair do portão da residência, encontrou um carro estacionado e duas pessoas com uma caixa de papelão nas mãos.

Eles disseram para Pavani que se tratava de uma entrega. Quando o aposentado respondeu que não havia feito qualquer pedido, os dois tentaram puxá-lo para dentro do carro. Segundo o boletim de ocorrência, o homem gritou por socorro e um dos criminosos disparou na cabeça de Pavani, que não resistiu. Os dois fugiram. O caso foi registrado como latrocínio no 56° Distrito Policial (Vila Formosa).

Dias antes, o ex-piloto do Globocop, helicóptero usado pela Rede Globo para reportagens, Odailton de Oliveira Silva, de 77 anos, foi morto em uma tentativa de assalto no Butantã. Dato, como era conhecido, dirigia um Jeep Renegade preto na tarde da última terça-feira, 19, na Avenida Rio Pequeno quando foi abordado por um motociclista. Ao tentar reagir, foi baleado na cabeça.

Vídeos mostram que o carro que Dato dirigia chegou a bater na traseira de um ônibus, indicando que ele perdeu a consciência logo depois do crime. Segundo a polícia, ele chegou a ser socorrido ao Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (USP), mas não resistiu. Já o motoqueiro fugiu. A perícia foi acionada e o caso foi registrado no 14º Distrito Policial (Pinheiros).

O crime gerou revolta, sobretudo de funcionários da Rede Globo que trabalharam com Odailton. "Um assalto, um tiro na cabeça, mais uma vida que se vai", desabafou, ao vivo durante um telejornal da emissora, a apresentadora Sabina Simonato.

Conhecido como Dato de Oliveira, Odailton de Oliveira Silva morreu vítima de latrocínio na zona oeste.
Conhecido como Dato de Oliveira, Odailton de Oliveira Silva morreu vítima de latrocínio na zona oeste.
Foto: Reprodução/@dato_de_oliveira via Instagram / Estadão

Conforme autoridades policiais consultadas pela reportagem, a tentativa de assalto que resultou na morte de Odailton, além da violência brutal, foi marcada por uma abordagem atípica. Roubos à mão armada costumam ser cometidos por ao menos dois bandidos, com funções complementares. Desta vez, não há qualquer registro de um comparsa dando suporte à abordagem, o que pode ter tornado a ação ainda mais violenta.

"Geralmente são pelo menos dois, sempre dão cobertura, mas a gente não identificou (um segundo veículo) ainda", disse ao Estadão o secretário da Segurança Pública do Estado, Osvaldo Nico Gonçalves. "Estamos trabalhando, ficamos sentidos demais com esse caso. Foi covarde."

Chama atenção que, ainda que as abordagens individuais sejam menos frequentes, um outro caso desse tipo resultou em um latrocínio recente. No fim de abril, um homem morreu ao tentar intervir em um assalto na região de Moema, na zona sul (mais abaixo).

"Quando as ações são individuais, o assaltante tem menos guarida por causa da ausência de um comparsa", afirma Alan Fernandes, membro do conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. "O que chama atenção é que agora foram muitos casos em poucos dias. Os latrocínios têm isso: eles flutuam muito rapidamente", acrescenta.

As abordagens dos assaltantes também passam por mudanças. Como mostrou o Estadão, no ano passado, a distribuição de ao menos dois homens em duas motocicletas passou a ser recorrida com frequência em roubos para despistar as forças policiais - a configuração já conhecida de dois homens em uma moto costuma gerar mais suspeitas, enquanto abordagens individuais expõem os assaltantes a mais riscos.

Ao mesmo tempo, quando o alvo do assalto é uma moto, outra configuração que resulta em latrocínios com frequência, criminosos costumam agir em grupos até maiores - com cerca de três motocicletas - e com ao menos dois assaltantes em uma só delas. Depois do assalto, o garupa, no caso, passa a ser o responsável por conduzir o veículo levado.

Neste ano, não é exatamente isso que tem sido visto: as ocorrências mais recentes de latrocínio foram marcadas pela ação de dois homens em uma só moto (veja caso abaixo) ou mesmo por abordagens individuais. Ainda não se sabe se é um novo padrão, mas o perfil dos casos recentes ligou o alerta das autoridades.

"'Lobo solitário' para roubo não é muito comum", afirmou, sob reserva, um delegado do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) que atua diretamente em casos de latrocínio. "Quando o roubador está sozinho numa primeira moto, geralmente há uma segunda motocicleta de cobertura", acrescentou.

Irmão de PM foi morto ao sair de festa da sobrinha para fumar

No último dia 17, um domingo, Leandro Fernandes de Souza, de 40 anos, foi morto ao tentar reagir a um assalto na Rua do Símbolo, na região do Morumbi. O boletim de ocorrência do caso, também obtido pelo Estadão, aponta que a vítima estava na festa de aniversário da sobrinha quando saiu do local para fumar com o irmão, que é policial militar. Por volta das 21h, uma moto com dois assaltantes se aproxima.

Surpreendidos, os dois se ajoelham e entregam os celulares para os ladrões. Quando os assaltantes vão sair, no entanto, Leandro avança sobre a dupla e entra em luta corporal com um dos bandidos. Leandro foi atingido com um disparo no peito. Ele chegou a ser socorrido até o Hospital Israelita Albert Einstein, no Morumbi, mas não resistiu.

De acordo com o boletim de ocorrência do caso, o irmão dele, que logo correu para ajudar Leandro, chegou a pegar a arma de um dos assaltantes. No momento da fuga, ele chegou a efetuar disparos em direção à dupla, mas não se sabe se algum deles foi atingido. O caso foi registrado pelo 89º Distrito Policial (Jardim Taboão).

Homem é morto ao tentar reagir a assalto no Morumbi.
Homem é morto ao tentar reagir a assalto no Morumbi.
Foto: Reprodução/TV Globo / Estadão

No último dia 9, uma estudante de Direito morreu após perder o controle da moto ao tentar fugir de dois assaltantes em outra motocicleta na Marginal Pinheiros, zona sul. "Os laudos periciais requisitados ao Instituto Médico Legal (IML) estão em elaboração e, assim que concluídos, serão avaliados pela autoridade policial, que segue colhendo depoimentos e analisando imagens, visando à localização dos autores do crime e ao esclarecimento dos fatos", disse a SSP. O caso também é investigado no 89º DP.

Ainda que muitas vezes instintivas, reações desse tipo são contraindicadas por autoridades policiais, até pelo risco ao qual as vítimas podem se expôr - isso não só em relação ao assaltante que está por ali, no campo de visão, mas a possíveis comparsas, que ficam de prontidão caso seja necessário intervir. A orientação é sempre tentar abreviar o tempo de exposição.

Segundo o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública, as medidas para tentar frear esse tipo de crime vão desde medidas para tentar reduzir os roubos - que estão em queda na capital, com redução de 14,3% no primeiro trimestre na cidade - até em investigar criminosos focados em crimes violentos e combater a circulação de armas ilegais.

No caso deste último ponto, trata-se de um dos quatro eixos abordados inclusive no Programa Brasil Contra o Crime Organizado, lançado neste mês pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Como mostrou o Estadão, a iniciativa é considerada uma sinalização positiva de priorização da área da segurança pública, mas peca pelo timing e por limitações consideradas importantes, segundo pesquisadores ouvidos pela reportagem.

Fim de abril também foi marcado por sequência de latrocínios

No mês passado, foram ao menos três latrocínios na capital. Na manhã do dia 19, uma guarda civil metropolitana de 34 anos foi encontrada morta na região da Saúde, zona sul. A agente de segurança, identificada como Sara Andrade dos Reis, foi vítima de latrocínio na Rodovia dos Imigrantes, na altura da alça de acesso ao Viaduto Matheus Torloni.

Sara Andrade dos Reis foi vítima de latrocínio na Rodovia dos Imigrantes.
Sara Andrade dos Reis foi vítima de latrocínio na Rodovia dos Imigrantes.
Foto: Reprodução/@gcmspoficial / Estadão

De acordo com a Secretaria da Segurança Pública, Sara conduzia uma motocicleta quando foi abordada por criminosos, que levaram sua arma de fogo. Ela foi encontrada com ferimentos provocados por disparos de arma de fogo na região da cabeça e nos ombros.

Também no mês passado, no dia 16, um homem de 42 anos morreu após também tentar impedir um assalto, desta vez a um entregador, na Rua das Margaridas Amarelas, no Jardim Ângela. Segundo informações da Polícia Militar, ele avançou o carro contra os suspeitos, atingindo o muro de um estabelecimento na região (foto abaixo).

Veículo ficou preso em um muro após homem avançar contra suspeitos.
Veículo ficou preso em um muro após homem avançar contra suspeitos.
Foto: Reprodução/TV Globo / Estadão

Diante do impacto, os assaltantes caíram no chão, mas um deles se levantou e efetuou disparos contra o homem, segundo o registro da ocorrência. A vítima foi atingida na cabeça e morreu ainda no local. Em seguida, a dupla fugiu com a motocicleta do entregador.

Horas depois, ocorreu o caso de Moema, que se deu mais especificamente na Avenida Juriti. Imagens divulgadas na época também indicam que o motoqueiro, que se passava por falso entregador, agiu sozinho. O ladrão assaltava um casal quando a vítima, que presenciou a cena, tentou intervir. Ele chegou a ser socorrido após sofrer um disparo na cabeça, mas não resistiu. O ladrão fugiu de moto do local.

Procurada pela reportagem, a Secretaria da Segurança Pública afirma que batalhões da Polícia Militar e delegacias contam com ferramentas e aplicativos que permitem o acompanhamento das análises criminais, contribuindo para o aprimoramento das estratégias de prevenção.

A pasta acrescenta que, entre as iniciativas para o combate aos latrocínios, destaca-se o SPVida, programa que integra as forças de segurança na análise de ocorrências, considerando contexto, motivação, local e demais fatores envolvidos nos crimes. "Os dados são disponibilizados ao público e auxiliam as autoridades no planejamento de políticas públicas e no desenvolvimento de ações de prevenção aos latrocínios e homicídios", diz.

Estadão
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