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Após ensinar inglês em troca de aulas de samba, britânica se consagra musa de escola no Rio

Samantha Mortner-Flores trocou o norte de Londres pela favela da Rocinha em 2006; neste ano, ela vai incorporar Iemanjá, a rainha do mar, como destaque de chão da Império da Tijuca no sambódromo.

8 fev 2018
10h12
atualizado às 10h33
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A inglesa Samantha Mortner-Flores veio pela primeira vez ao Rio em 2006 para fazer companhia a uma amiga designer de joias, que queria se familiarizar com o mercado de pedras brasileiras. Em apenas um dia na cidade, decidiu que queria ficar. E em pouco tempo estava morando na Rocinha, dando aulas de inglês em uma ONG e aprendendo o significado da palavra escambo.

Samantha se apaixonou pelo Rio e pelo Carnaval | Foto: Arquivo pessoal
Samantha se apaixonou pelo Rio e pelo Carnaval | Foto: Arquivo pessoal
Foto: BBC News Brasil

"Uma das minhas alunas era uma passista. Eu queria muito aprender a sambar, e ela queria aprender a dar aulas de samba em inglês para ensinar estrangeiros", conta à BBC Brasil. "Então fizemos uma troca. Ela me ensinou a sambar, mas só podíamos falar inglês. Funcionou para os dois lados."

Na sexta-feira, Samantha, de 37 anos, que na vida passada era "uma boa menina judia do norte de Londres" e diretora de uma agência de relações públicas, vai subir no salto alto, vestir a coroa de plumas e incorporar Iemanjá, a rainha do mar, como destaque de chão da Império da Tijuca no sambódromo.

"Uma Iemanjá inglesa. Diferente, não?", ela ri, jogando para trás os cabelos loiros enrolados, mostrando já ter incorporado os trejeitos que aprendeu para se destacar na avenida.

Será seu segundo ano como musa do abre-alas da Império, escola da Série A, a "segunda divisão" do carnaval carioca, que abre os trabalhos no sambódromo antes do desfile das agremiações do Grupo Especial, no domingo e na segunda.

A responsabilidade é grande. Na hierarquia feminina nas escolas, o papel só não é mais importante que o de rainha da bateria. Samantha vai abrir caminho, sozinha na avenida, para o primeiro carro da escola. E isso em um universo de rainhas, destaques e passistas que parecem nascer com samba no pé - e mostrando que sabe evoluir "sem sotaque".

"Claro que tem uma cultura muito forte das mulatas, especialmente na minha escola, que tem raízes afro muito fortes", diz. "Eu tenho muito respeito pelas rainhas e musas das escolas, são mulheres inacreditáveis. Mas se eu ficar me comparando com elas, vou entrar em parafuso. A única coisa que posso fazer é ser eu mesma, e não sou uma mulata voluptuosa."

Samantha durante os ensaios da Império da Tijuca | Foto: Geissa Evaristo/Divulgação
Samantha durante os ensaios da Império da Tijuca | Foto: Geissa Evaristo/Divulgação
Foto: BBC News Brasil

'Tem que chegar chegando'

No começo, diz ter ficado um pouco chocada com o convite. E às vezes ainda tem medo de que alguém vire e lhe diga que é uma fraude.

"O jeito é encarar. Tem que chegar chegando", resume em bom português - que achou mais difícil aprender do que o samba.

Quando resolveu ficar o Rio, Samantha começou a investir na compra, reforma e revenda de imóveis e viu que havia um mercado ali para estrangeiros, que ficavam perdidos nas leis e burocracia brasileira na hora de fazer negócios. Hoje vive da consultoria para compra e mora em Ipanema.

Mas logo foi "contaminada" pelo Carnaval - "sou um pouco obcecada" - e vem desfilando todos os anos desde 2011, quando foi "um grande pássaro amarelo" na União da Ilha. Já passou também pela Mocidade e Beija-Flor, mas construiu a relação mais longeva com o Império da Tijuca.

Em 2017, Samantha Mortner-Flores foi musa da Império da Tijuca pela 1ª vez | Foto: Arquivo pessoal
Em 2017, Samantha Mortner-Flores foi musa da Império da Tijuca pela 1ª vez | Foto: Arquivo pessoal
Foto: BBC News Brasil

A estrangeira conquistou o respeito da escola na qual já desfila há cinco anos, frequentadora assídua dos ensaios na quadra pé do Morro da Formiga, comunidade na Tijuca, zona norte do Rio.

"Acho que não tem nenhuma questão por eu ser estrangeira. Se você vai aos ensaios, se dedica, mostra que tem compromisso com a escola, eles te aceitam como uma brasileira", diz Samantha, que costuma ser chamada pelos integrantes da escola de "musa gringa", "gringuinha", "nossa inglesinha" e variações. As brincadeiras são comuns, mas sempre carinhosas, diz.

"Às vezes, quando sou apresentada para o pessoal da velha guarda, eles me olham com aquela cara de 'o que essa inglesa está fazendo aqui no Morro da Formiga?' Mas todo mundo na escola sempre me acolheu. Se há alguma dúvida, vem de mim, e não da escola. Às vezes temo não ser boa o suficiente para aquela posição, de decepcionar a escola, mas eles sempre me incentivam."

Fantasia de R$ 30 mil e mesma aula que Sabrina Sato

Sandro Carvalho, estilista responsável pelas musas do Império da Tijuca, diz que Samantha "samba mais do que muita brasileira" e se firmou na posição de primeira musa da escola pela dedicação aos ensaios e porque trabalha pesado, buscando sempre se aprimorando mais em aulas com bambas como Dandara Oliveira, que dá aulas para Sabrina Sato e virá ao lado da apresentadora na Vila Isabel neste ano, como princesa da bateria.

"A Samantha tem um entrosamento muito bacana com a comunidade. Não é aquela pessoa que só vai no ensaio faltando uma semana para o Carnaval. Está sempre na quadra e nos ensaios de rua", diz Carvalho.

"E ela investe pesado no figurino. Como ela vem na frente do abre-alas, precisa de uma roupa imponente, e investe cerca de R$ 30 mil. Esse ano a roupa tem 12 mil cristais e quase 500 penas de faisão."

O investimento no corpo, e a exposição de pele na avenida, também é muito maior do que teria feito em Londres, conta a inglesa.

"O padrão de beleza no Carnaval não é muito parecido com o da Inglaterra. Aqui tem mulheres muito mais musculosas. Malham muito a perna, o bumbum. Eu acho bonito, mas é um padrão que acho que as ingleses estranham um pouco."

Ela tem passado pelo menos três horas por dia fazendo exercício, alternando entre box ("bom para tonificar os braços"), malhação ("sempre bumbum e pernas") e aulas de samba-fit (uma espécie de samba em versão fitness), além de interpretação de samba e dança afro.

"Você precisa ter fôlego suficiente para não desmaiar e conseguir chegar no final do desfile ainda com energia. Tem que fazer muita aeróbica e ter muita dedicação para ficar em forma", diz. "Imagina só ter 90 mil pessoas olhando para você de biquíni? Você vai para a academia correndo!"

Ela mostra o braço arrepiado ao falar da experiência de desfilar como primeira musa no ano passado.

"Você vira aquela esquina (para passar da área de concentração e entrar no Sambódromo) e de repente tem 90 mil pessoas gritando, cantando, aqueles holofotes acesos. É algo único. Você se sente uma popstar. Chorei muito."

Como estrangeira, ela considera comovente ver a dedicação, criatividade e energia que as escolas depositam na preparação dos desfiles de cada ano - ainda mais neste, em que o Carnaval carioca sofreu com cortes de recursos da prefeitura e as agremiações tiveram que se desdobrar com orçamentos apertados.

"É incrível ver a comunidade se unir para esse evento. O Rio tem os seus problemas, mas a tradição e a cultura do samba une as pessoas, as enche de orgulho, e é incrível ver a criatividade e o amor com que as escolas preparam tudo ao longo de um ano inteiro, para ter uma hora para se apresentar. E depois aquela energia do público no desfile. Acho que não há nada parecido no mundo."

Do português para o iorubá

Embora fale português fluente, Samantha se viu desafiada pelo samba da Império da Tijuca deste ano, que voltou à sua tradição de enredos afro com Olubajé - Um Banquete Para o Rei.

Inspirado em uma tradição iorubá, conta a história de Obaluaiê, que é rejeitado pela mãe, Nanã, e entregue à Iemanjá para ser criado nas águas salgadas do Reino de Olokun. Todos os orixás estão representados nas alas, e o refrão dá uma amostra da complexidade da letra, que contém vários termos iorubá: "Araloko, Araloko Pajuê / Ê Pajuê Ê Pajuê / Vem o Morro da Formiga, vem pra vencer".

"Parece um teste para ver se conheço todos os orixás", brinca a musa da escola.

Apesar da fissura pelos desfiles no Sambódromo, Samantha já viu muitos estrangeiros perdidos naquele universo, desejosos de ter uma experiência no Carnaval carioca, mas sem conseguir estabelecer de fato uma conexão por não falar a língua nem estabelecer qualquer vínculo com as escolas.

"Cansei de falar com estrangeiros que desfilaram no Rio e depois nem conseguiam lembrar o nome da escola, ou não tinham entendido direito que se trata de uma competição."

Por pouco já não viu a falta de comunicação gerar experiências traumáticas.

Uma amiga inglesa que ia desfilar como destaque no alto de um carro não sabia que antes de entrar na avenida teria que se agachar, pois o carro passaria rente a um viaduto. Quando as pessoas no chão começaram a fazer gestos para que se abaixasse, achou que era uma coreografia e começou a gesticular de volta. Até ver o viaduto e, no último momento, se abaixar a tempo.

Com tantas histórias e estrangeiros entrando em contato perguntando como fazer para desfilar, Samantha resolveu lançar uma agência para ciceroneá-los no sambódromo, batizada de Experience Carnival Rio, que inaugura neste ano em paralelo à atividade de musa, levando os primeiros clientes para desfilar em escolas como Mocidade e Salgueiro.

"A ideia é ajudar a criar uma conexão deles com as escolas, para que entendam e aprendam o samba e que possam se envolver e ter a experiência para valer", diz.

"O Carnaval não é fácil para estrangeiros. Mas quero que eles possam ter a mesma experiência que eu tive da primeira vez, e entendam a força a o espírito comunitário que o Carnaval tem."

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