Adolescentes da região costeira de Paraty não têm escolas, denuncia Conselho Tutelar
Todos os adolescentes da região costeira de Paraty, sul fluminense, moradores de pequenas comunidades caiçaras, estão fora da escola. Na cidade conhecida pelo turismo cultural da Festa Literária Internacional (FLIP) não há sequer uma unidade de 5º a 9º série em cerca de 10 vilarejos e a prefeitura tampouco oferece transporte escolar para o continente. Também faltam escolas de 1º a 4º em algumas comunidades e várias crianças crescem semianalfabetas.
A denúncia é do Conselho Tutelar do município, que em julho fez um levantamento nas comunidades da costa, com exceção do Saco de Mamanguá, junto com as associações de moradores. O laudo revela que 98 adolescentes não têm como completar o ensino fundamental em pelo menos três comunidades. Mais 28 crianças a partir de cinco anos não têm escolas em sete vilarejos e cerca de 30 estão semianalfabetas em vários povoados, devido à dificuldade de acesso às unidades de ensino.
"Muitas crianças têm dificuldades e mal escrevem o nome. A maioria delas tem que andar uma, duas, três horas e até o dia inteiro para chegar na escola. Se chover, não vão. O transporte mais rápido seria o barco, que já teve, mas nem sempre adianta. Em algumas localidades, devido às condições do mar e do tempo, é impossível ancorar. Para os adolescentes a situação é pior, não tem nenhuma escola", revela o subcoordenador do conselho, César Marcos Vieira.
Além dos prejuízos à educação infantil, o representante do conselho alerta que a falta de unidades de ensino de 5º a 9º série deixa os adolescentes com mais de 12 anos em situação de vulnerabilidade, principalmente devido ao avanço do turismo irregular. Segundo César Marcos, como a atividade não tem controle, surgiu nas comunidades o consumo de drogas, a prostituição e o abuso sexual nas famílias.
"Em épocas de baixa temporada, como a oferta de sexo diminui, os irmãos, primos, tios e pais têm mantido relações com meninas da própria família", denuncia. "Os turistas, por sua vez, trazem coisas que não existiam, como as drogas. Aí o adolescente vê o cara da cidade, com estudo, usando aquilo
drogae acha que é legal usar também. É difícil".
Acionado pelos moradores da região, o conselho cobra a o ensino fundamental da prefeitura ou o transporte em barcos até o continente. A situação tem acompanhamento da Justiça Estadual, que tenta convencer o Executivo a ampliar as escolas ou oferecer cursos supletivos. A prefeitura afirma que um acordo passou para o governo estadual a obrigação de oferecer os níves em falta.
"Os adolescentes da
regiãocosteira estão completamente sem perspectiva. As crianças terminam a 4º série e não têm como continuar, não existe nenhuma escola de 5º ao 9º ano e eles não têm como vir para cidade. A garotada acaba cooptada pelo trabalho nas pousadas, nos barcos, na construção civil e levadas pelas drogas e pela prostituição, que já chegaram lá. É uma situação dramática", diz o conselheiro.