Brasil aposta há décadas nos gastos militares para crescer, mas os dados mostram que a estratégia falha
A ideia de que investir em defesa pode impulsionar a economia e reposicionar o Brasil no mundo é antiga e duradoura, mas as evidências mostram tratar-se de uma percepção que não corresponde à realidade
O Brasil investe em defesa para se proteger, ou para crescer? A pergunta pode soar estranha, mas não é. Surpreendentemente, desde a redemocratização, diferentes governos brasileiros trataram os gastos militares como algo mais do que segurança: uma aposta no desenvolvimento econômico e no aumento da influência internacional do país.
O problema é que essa aposta, ao longo de quase 40 anos, raramente cumpriu com o que prometia.
A pesquisa que desenvolvi analisa o período entre 1985 e 2022 e mostra um padrão consistente no qual governos e suas estratégias mudam, mas a ideia de que investir em defesa pode impulsionar a economia e reposicionar o Brasil no mundo permanece. A evidência disponível, no entanto, é bem menos animadora.
Pesquisas internacionais indicam que gastos militares podem até estimular a produção industrial, mas frequentemente acabam por reduzir investimentos em outros setores; o que tende a frear o crescimento econômico a longo prazo.
Além disso, há uma condição decisiva: os ganhos dependem da capacidade de transformar tecnologia militar em aplicações civis.
E é justamente neste ponto que países como o Brasil enfrentam mais dificuldades. Com forte dependência de tecnologia importada, o efeito positivo sobre a economia tende a ser limitado.
Um histórico de instabilidade
Se a estratégia é incerta, a execução é ainda mais problemática. Ao observar o orçamento militar brasileiro entre 1985 e 2022, o que aparece é uma permanente instabilidade, como mostra a figura.
Há momentos de expansão, especialmente entre meados dos anos 1990 e início da década de 2010. Mas eles são intercalados por quedas abruptas, como no início dos anos 1990 e entre 2019 e 2021.
Mesmo quando os gastos aumentam em termos absolutos, sua proporção em relação ao PIB pouco cresce. Em vários momentos, ela até mesmo, diminui.
Esse padrão de instabilidade aparece de forma especialmente clara em dois momentos: no início dos anos 1990, durante o governo Fernando Collor, e entre 2019 e 2021, no governo Jair Bolsonaro - períodos em que os investimentos em defesa sofreram quedas significativas.
O custo direto disso é que projetos militares não são políticas de curto prazo, exigindo décadas de investimento contínuo. Sem previsibilidade orçamentária, tornam-se frágeis por definição.
Projetos ambiciosos, resultados incompletos
Ainda assim, o Brasil acumulou, desde a redemocratização, uma lista extensa de programas estratégicos.
Nos anos 1980, iniciativas como o Projeto Calha Norte buscaram integrar desenvolvimento regional e presença militar na Amazônia. Paralelamente, o país investiu em programas nuclear e espacial, tentando dominar tecnologias consideradas estratégicas.
Na década seguinte, porém, a realidade foi outra: cortes orçamentários severos comprometeram até a operação básica das forças armadas.
Nos anos 2000, há uma retomada mais ambiciosa. Projetos como o PROSUB (submarinos), o FX-2 (caças) e programas de modernização do Exército passaram a ser apresentados não apenas como políticas de defesa, mas como instrumentos de desenvolvimento tecnológico e industrial.
A promessa era reduzir a dependência externa, estimular a indústria nacional e aumentar a autonomia estratégica do país. Na prática, muitos desses projetos foram adiados, reformulados ou parcialmente executados.
A ambição geopolítica
Além de impulsionar a economia, os investimentos em defesa também estiveram ligados a ambição maior de reposicionar o Brasil no cenário internacional.
A partir dos anos 2000, ganhou força a ideia de um "entorno estratégico", que inclui América do Sul, África Subsaariana e Atlântico Sul. Nesse quadro, a capacidade militar aparece como um elemento de apoio à política externa.
O problema é que essa estratégia também depende de consistência - e o histórico brasileiro mostra justamente o contrário. Mudanças de governo, crises econômicas e reorientações diplomáticas interromperam ou redefiniram prioridades com frequência.
O que quase 40 anos de dados sugerem é que, desde 1985, praticamente todos os governos brasileiros apostaram (explícita ou implicitamente) na ideia de que o setor de defesa poderia cumprir duas funções adicionais: estimular o desenvolvimento econômico e ampliar o peso geopolítico do país.
Mas essa aposta esbarrou em três limites recorrentes: falta de previsibilidade orçamentária; descontinuidade de políticas públicas e instabilidade política interna. O resultado foi uma sequência de projetos incompletos e objetivos apenas parcialmente alcançados.
Isso não significa que investir em defesa seja irrelevante. Pelo contrário: esses investimentos são essenciais para qualquer país que pretenda ter alguma autonomia estratégica.
No entanto, os dados sinalizam que, sem continuidade e sem uma estratégia estatal de longo prazo que sobreviva a mudanças de governos, a defesa dificilmente cumpre o papel que se espera dela. Nem como instrumento econômico, nem como ferramenta geopolítica. E isso é especialmente perigoso em um mundo cada vez mais envolvido em conflitos.
No caso brasileiro, essa parece ter sido a regra, não a exceção.
David G. Borges não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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