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"Baratas ciborgues" são aposta para melhorar buscas após desastres

10 jul 2026 - 13h21
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Cientistas estudam a viabilidade de usar baratas controladas remotamente por eletrodos e com suprimento de oxigênio em resgates, inclusive subaquáticos.Pode soar como uma piada de mau gosto, mas a verdade é que, algum dia, poderemos contar com a ajuda das baratas após uma catástrofe.

O minúsculo dispositivo feito em impressora 3D gera oxigênio por meio de uma reação química com peróxido de hidrogênio.
O minúsculo dispositivo feito em impressora 3D gera oxigênio por meio de uma reação química com peróxido de hidrogênio.
Foto: DW / Deutsche Welle

Imagine esse inseto, símbolo da sobrevivência em condições extremas, abrindo caminho entre escombros, equipado com um traje de mergulho.

Foi exatamente isso que uma equipe da Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU), em Singapura, em parceria com a Universidade Waseda, em Tóquio, desenvolveu: um sistema capaz de transformar baratas em ciborgues anfíbios, aptos a se locomover e respirar debaixo d'água.

Tecnologia testada

Por mais extravagantes que pareçam, os insetos ciborgues não são novidade. Há mais de uma década, cientistas anestesiam insetos, implantam eletrodos em seus cérebros e órgãos sensoriais e depois os controlam remotamente por meio de um dispositivo simples.

Eles contam com a vantagem, em relação aos robôs normais, de aproveitarem a própria musculatura do animal, explica a NTU Singapura. Acabam consumindo muito menos energia e não precisam de motores para se deslocar. Além disso, mantêm certa autonomia: recebem impulsos apenas quando saem da rota ou param de se mover, o que lhes permite desviar naturalmente de obstáculos.

O grande problema, até agora, era a água. As baratas respiram por meio de espiráculos, pequenas aberturas conectadas a uma rede de tubos internos que deixa de receber oxigênio quando o inseto fica submerso. Em outras palavras: por mais obedientes que fossem, acabariam sufocando.

Traje que funciona como cilindro de oxigênio

Para superar esse obstáculo, os pesquisadores desenvolveram um traje flexível que, segundo os próprios criadores, funciona de maneira semelhante a um cilindro de oxigênio para mergulhadores. O sistema incorpora um pequeno reservatório contendo uma esponja revestida de dióxido de manganês.

Ao adicionar peróxido de hidrogênio diluído, ocorre uma reação química que libera oxigênio gradualmente. Esse oxigênio é conduzido por quatro tubos de silicone conectados aos espiráculos da barata, permitindo que ela respire enquanto permanece submersa, detalha a NTU Singapura.

O conjunto é surpreendentemente compacto. A revista Popular Science informa que a mochila mede apenas 10 por 10 milímetros — aproximadamente o tamanho de um chiclete pequeno — e foi produzida por impressão 3D com um material semelhante ao plástico. O projeto buscou o menor peso possível para preservar a mobilidade natural do inseto.

Os testes foram realizados com baratas de Madagascar, espécie ideal devido ao grande porte, à resistência e à ausência de asas. Equipadas com o dispositivo, elas permaneceram ativas e conseguiram se deslocar debaixo d'água por até três horas, atingindo velocidades ligeiramente inferiores às registradas em terra firme.

Busca e resgate: o precedente em Mianmar

Para além do laboratório, essa tecnologia já tem um histórico concreto de funcionamento. Baratas ciborgues equipadas com câmeras infravermelhas participaram de operações reais de busca e resgate após o terremoto de magnitude 7,7 que atingiu Mianmar em março de 2025.

Segundo relatos, as informações coletadas pelos insetos foram processadas por algoritmos de aprendizado de máquina para ajudar a identificar possíveis sinais de vida sob os escombros.

Justamente por isso, o professor Hirotaka Sato, da NTU e responsável pelo estudo, acredita que ampliar a capacidade de deslocamento desses insetos para ambientes aquáticos pode transformá-los em uma ferramenta ainda mais útil em enchentes ou desabamentos, situações em que a água pode bloquear o acesso de robôs convencionais.

Seu colega Shinjiro Umezu, da Universidade Waseda, afirma que o principal desafio foi encontrar um equilíbrio entre gerar oxigênio suficiente e manter um sistema leve e flexível a ponto de não limitar a mobilidade do inseto.

De Marte aos oceanos: os próximos passos

As ambições da equipe, porém, vão muito além das áreas inundadas. Em declarações à revista New Scientist, Sato chegou a sugerir a possibilidade de adaptar a tecnologia para criar uma espécie de "traje espacial" para insetos ciborgues, pensando em futuras missões de exploração da superfície de Marte.

O estudo, publicado na revista Nature Communications, também indica que o projeto pode ser adaptado para outros insetos com sistemas respiratórios semelhantes, como besouros e gafanhotos.

Ainda assim, é preciso moderar as expectativas. Por enquanto, os experimentos não passaram de alguns centímetros de profundidade. Ainda falta muito para que patrulhas de baratas explorem naufrágios ou recifes submarinos.

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