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As plantas podem ver?

As plantas percebem o mundo com uma precisão surpreendente: a luz, mais que energia, é a fonte de informação que lhes permite tomar decisões fundamentais para sua sobrevivência

12 mai 2026 - 09h49
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As plantas obviamente não têm olhos como os nossos, mas, à sua maneira, elas percebem a luz do ambiente e, assim, regulam ciclos vitais, como a floração, e seu desenvolvimento. Ilie Barna / Unsplash., CC BY-SA
As plantas obviamente não têm olhos como os nossos, mas, à sua maneira, elas percebem a luz do ambiente e, assim, regulam ciclos vitais, como a floração, e seu desenvolvimento. Ilie Barna / Unsplash., CC BY-SA
Foto: The Conversation

Dizer que as plantas "veem" é uma licença poética. Obviamente, as plantas não têm retina, nem olhos, nem cérebro e, portanto, não têm o tipo de visão que atribuímos a outros organismos. Mas pensemos em uma definição ampla do termo visão, aquela que diz que é a capacidade pela qual um organismo capta a luz do ambiente, transforma-a em sinais biológicos e a interpreta para representar de maneira útil o mundo ao seu redor. Nesse sentido, poderíamos nos convencer de que as plantas "enxergam".

Luz, muito mais do que energia

Como organismos fotossintéticos, as plantas são capazes de absorver e utilizar a luz com uma sofisticação e eficiência extraordinárias. Mas, para elas, a luz não é apenas a energia que alimenta a fotossíntese, é também informação. A luz é um sinal ambiental de primeira ordem sobre a alternância dia-noite, sobre se estão cercadas por concorrentes, quando devem germinar, abrir os estômatos ou em que momento convém florescer, entre outras coisas.

Foto: The Conversation
Um estôma na epiderme de uma folha, tal como visto ao microscópio. É composto por duas células oclusivas unidas entre si nas extremidades que, juntas, delimitam um poro ou ostíolo.Wikimedia Commons., CC BY

A chave dessa percepção está nos fotorreceptores, biomoléculas que funcionam como sensores capazes de absorver luz e transformar essa informação física em respostas biológicas. Hoje sabe-se que as plantas têm fotorreceptores especializados em interpretar as informações luminosas associadas a faixas específicas de radiação eletromagnética. Isso implica que elas são capazes de interpretar sua qualidade espectral, ou seja, "percebem cores".

Por exemplo, os fitocromos são especializados em perceber luz na região do vermelho — comprimentos de onda entre 600 e 700 nm — e do vermelho extremo — entre 700 e 800 nm, logo na fronteira da faixa da luz visível para os humanos. Já os criptocromos, as fototropinas e os receptores de UV-B são sensíveis à luz azul e ultravioleta. Os fotorreceptores nas plantas não se encontram em estruturas organizadas, mas sim em tipos celulares muito diversos, que podem ser encontrados em todos os órgãos.

Interruptores biológicos da luz vermelha

Os fitocromos, uma ampla família de fotorreceptores, estão entre os mais bem caracterizados. Trata-se de proteínas ligadas a uma espécie de "antena" (cromóforo) capaz de absorver fótons na faixa do vermelho e do vermelho extremo (entre 600 e 800 nm, aproximadamente). A luz modula a atividade do fotorreceptor, induzindo alterações no dobramento da proteína.

Sabe-se que os fitocromos existem em duas formas interconversíveis: Pr, que absorve luz vermelha, e Pfr, que absorve luz vermelho extrema. A luz vermelha converte Pr em Pfr, a forma ativa; a luz vermelha extrema favorece o processo inverso.

Quando o fitocromo está em sua forma ativa, ou Pfr, ele pode se deslocar do citoplasma para o núcleo celular. Uma vez lá, ele ativa ou reprime a expressão de uma complexa rede de genes que controlam programas de desenvolvimento. Dessa forma, ele atua como um interruptor reversível que informa à planta sobre a qualidade espectral da luz que a rodeia. Esse mecanismo de ação ilustra muito bem o funcionamento geral de todos os fotorreceptores conhecidos nas plantas.

Como as plantas detectam suas vizinhas?

Um dos aspectos mais fascinantes é que as plantas podem detectar suas vizinhas com base no grau de sombreamento, utilizando os fitocromos como sensores. Elas conseguem isso medindo a proporção entre a luz vermelha e a luz vermelha extrema. A luz solar direta contém ambas, mas as folhas absorvem muita luz vermelha para a fotossíntese e deixam passar ou refletem mais luz vermelha extrema.

Assim, quando uma planta percebe uma queda na relação vermelho/vermelho extremo, ela interpreta que há outras plantas por perto. Essa leitura do ambiente ativa a chamada síndrome de evitação da sombra. A planta altera sua arquitetura: alonga os caules, modifica a orientação das folhas e reduz a ramificação. Ela não está "pensando", mas está tomando decisões de desenvolvimento. Seu corpo se reorganiza para alcançar a luz antes ou melhor do que suas concorrentes.

Essa capacidade tem enormes implicações agrícolas. Em um cultivo denso, por exemplo, as plantas gastam energia demais competindo por luz em vez de produzir sementes, frutos ou biomassa útil. Por isso, compreender os fotorreceptores ajuda a selecionar variedades mais tolerantes à sombra, capazes de crescer em alta densidade sem ativar excessivamente respostas de fuga.

A luz marca seu calendário

Além disso, a luz, por meio dos fotorreceptores, regula o calendário interno de muitas espécies. A mudança na proporção de luz vermelha/vermelha extrema na transição entre luz e escuridão pode ser percebida pelos fitocromos, o que permite às plantas medir a duração relativa do dia e da noite. Graças a isso, algumas espécies florescem quando os dias se alongam, outras quando se encurtam. Dessa forma, elas ajustam seu ciclo de vida à estação mais favorável.

A floração é um momento-chave de seu ciclo de vida e seu sucesso depende, em grande parte, da interpretação correta de quais condições ambientais são as mais favoráveis.

Vendo as plantas com outros olhos

Se este artigo chegou até vocês, espero que tenha contribuído para que "vejam" as plantas de outra maneira, digamos, com "outros olhos". Talvez agora pensem que elas são mais do que organismos passivos expostos ao Sol.

As plantas exploram seu ambiente luminoso, comparam sinais, antecipam a competição e ajustam seu desenvolvimento. Elas são capazes de perceber um mundo de cores invisíveis para nossa experiência cotidiana. Para elas, cada amanhecer não traz apenas energia: traz um manual de instruções.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Antonio E. Encina García não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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