"Arquitetura chavista" pode ter agravado danos de terremotos
Décadas de negligência, não aplicação de protocolos e licenciamento precário marcam história de conjuntos habitacionais construídos sob o regime chavista que ruíram após duplo terremoto na Venezuela.Quando o líder venezuelano Hugo Chávez (1999-2013) construiu um conjunto habitacional com seu nome, os novos moradores encontraram um recomeço. Eles haviam sofrido com uma enchente histórica que, uma década antes, devastara Catia La Mar, no estado de La Guaira, na Venezuela.
Agora, um novo desastre se abateu sobre os residentes do complexo Urbanismo Hugo Chávez. Os dois terremotos consecutivos da semana passada derrubaram grande parte dos mais de 190 prédios, colocando-os no centro da tragédia venezuelana.
A região foi a mais impactada pelos tremores. Uma análise de imagens de satélite de Catia La Mar, realizada pelo laboratório AI for Good da Microsoft, determinou que cerca de um terço das quase 30 mil estruturas da cidade foram danificadas.
Ainda é cedo para definir o que levou construções individuais a desmoronarem. Mas engenheiros pedem que o governo audite rapidamente os conjuntos habitacionais públicos que seguem de pé.
A suspeita é que anos de negligência, não aplicação dos códigos de construção e práticas precárias de licenciamento possam ter agravado o custo humano dos terremotos. Os especialistas apontam também para a instabilidade do solo em La Guaira, que aumenta os riscos para a construção de imóveis.
"Perdi todo o meu apartamento", disse Yelsa Rojas, que desde 2015 vivia no segundo andar do edifício conhecido coloquialmente como "Los Cocos", por sua proximidade com uma praia de mesmo nome. Na hora dos terremotos, ela estava numa consulta médica. "Acreditamos que todos no segundo andar estejam mortos."
Engenheiros se voluntariam
Enquanto socorristas correm para encontrar pessoas soterradas nos escombros, os engenheiros temem que outros edifícios ainda possam estar vulneráveis. Grandes rachaduras se espalharam pelos prédios do conjunto habitacional, revelando os materiais de construção internos. Alguns deles caíram e outros pareciam à beira do colapso.
Por ora, o governo se reuniu com a principal associação profissional de engenheiros do país, mas não iniciou avaliações. A presidente interina, Delcy Rodriguez, anunciou que estava criando uma comissão para examinar estruturas habitacionais danificadas. Ela não disse quando as avaliações começariam.
"É criminoso que o governo não esteja aceitando mais rapidamente ofertas de engenheiros e universidades", disse Enrique Larrañaga, arquiteto e urbanista da Universidade Simón Bolívar, que já prestou orientação ao governo. O Ministério da Comunicação não se posicionou.
Segundo o especialista, muitos empreendimentos, acelerados pelo governo no seu programa político voltado a programas sociais, provaram representar riscos de segurança ao longo dos anos, enquanto o país perdeu parte da expertise em engenharia durante o colapso econômico iniciado em 2013. "Eles precisam dar às pessoas que têm conhecimento acesso à informação e aos recursos."
Engenheiros voluntários estão oferecendo serviços aos cidadãos, disse Glennys Gonzalez, arquiteta e engenheira civil que coordena dezenas de profissionais. A avaliação inicial do seu grupo sugere que, em muitos casos, protocolos foram ignorados. Mas falta estudar por que algumas estruturas resistiram ao impacto e outras desabaram completamente.
Precariedade e corrupção
O governo Chávez começou a construir conjuntos como Los Cocos pouco antes das eleições de 2012, como parte de um esforço para erguer milhões de unidades baratas em todo o país. O seu sucessor, Nicolás Maduro, deu continuidade ao projeto, ampliando o acesso à moradia para venezuelanos de baixa renda.
À medida que Chávez e Maduro centralizaram o poder, as instituições se enfraqueceram, assim como os controles de qualidade sobre novas construções e a manutenção de estruturas existentes, dizem arquitetos e engenheiros.
Os empreendimentos foram construídos rapidamente, por uma combinação de órgãos estatais e empreiteiras de China, Turquia e Belarus sob supervisão militar, mas com pouca transparência pública. A falta de aplicação de códigos mais rigorosos em edifícios públicos também sinalizou a construtores privados que poderiam cortar custos, avalia Casanova.
Construções precárias e esquemas de corrupção ligados à habitação pública na Venezuela têm sido relatados por várias organizações e veículos de notícias nos últimos anos. Reportagens e estudos independentes já identificaram diversos edifícios construídos em áreas geologicamente arriscadas, alguns com rachaduras e infiltrações, entre outras deficiências.
"A história da habitação pública de Chávez é de corrupção e construções de baixa qualidade, feitas sem supervisão, inspeção ou adesão a códigos específicos em muitos casos", afirma Casanova.
Solo frágil e falta de controle
Muitos empreendimentos privados também desabaram, entre projetos novos e antigos. Os motivos provavelmente incluem a falta de controle de qualidade e a fragilidade do solo macio em La Guaira.
A mistura de areia solta, cascalho e detritos pode fazer com que as ondas sísmicas se propaguem mais lentamente, mas aumentem de intensidade, amplificando a vibração. Preso entre as montanhas e o mar, o solo tem o potencial de se tornar ainda mais fluido durante um terremoto, aumentando os riscos da construção.
Em particular, os edifícios mais antigos podem não ter sido adaptados para resistir a impactos fortes. Após um terremoto mortal em 1967, autoridades venezuelanas atualizaram os códigos de construção. Mas não está claro quantos edifícios cumpriram com as novas regras.
Desde a década de 1970, engenheiros sabem que edifícios de concreto são particularmente suscetíveis a terremotos e buscam reforçar novas construções com aço. Enquanto vários países ricos obrigaram proprietários a adaptar ou demolir edifícios perigosos, muitos países de renda baixa ou média demoraram a aplicar essas melhorias enquanto enfrentavam problemas mais imediatos.
"Alguns países, como Japão, Nova Zelândia e os Estados Unidos, fizeram essas mudanças, mas outros países não", aponta David Cocke, engenheiro estrutural na Califórnia e ex-presidente do Earthquake Engineering Research Institute. Ele aponta, em particular, para os prédios que desabaram, andar por andar, na Venezuela. "É um tipo de construção muito comum em todo o mundo."
Rodriguez disse, no domingo, que acampamentos temporários estavam sendo instalados para pessoas que perderam suas casas. "Ao mesmo tempo, começa o trabalho de planejamento de projetos que permitirão a construção de novas moradias em um prazo muito curto", afirmou a presidente interina.
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ht (Reuters, AFP)
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