Amazônia em debate: mais do que promessas, região precisa de uma ciência decolonial, integrada e estável
Em meio à crise climática, desafio dos cientistas da Amazônia é transformar discursos em estruturas permanentes de pesquisa, governança e financiamento, lideradas por pessoas e instituições da região
A Amazônia chegou à COP 30 como um dos principais temas da agenda climática global. Isso mostra que a região deixou de ser tratada apenas como uma fronteira distante de conservação e passou a ocupar um papel estratégico nas decisões ambientais do planeta.
Mas o reconhecimento internacional, por si só, não basta. Há uma distância entre reconhecer a importância da Amazônia e construir as condições necessárias para que a ciência produzida na região tenha continuidade, autonomia e impacto duradouro.
Apesar de avanços e do acúmulo de capacidades humanas e institucionais na região, o problema é que muitos desses esforços ainda funcionam de forma fragmentada, com financiamento instável e baixa capacidade de coordenação entre si.
Em artigo publicado na revista Perspectives in Ecology and Conservation, defendemos que a Amazônia precisa de um novo arranjo para sua ciência: mais integrado, mais estável e liderado por instituições, pesquisadores e pesquisadoras, e povos da própria região.
A Amazônia já tem redes de pesquisa, mas elas precisam ser fortalecidas
Uma primeira mudança necessária é integrar melhor o que já existe. A Amazônia conta com experiências consolidadas de pesquisa em rede, como o Programa de Pesquisa em Biodiversidade (PPBio) e a rede AmOr; os Programas de Pesquisa Ecológica de Longa Duração - PELDs; os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia, como o CENBAM e o SinBiAm; além de iniciativas mais recentes de articulação regional, como o CISAM e a Red Bioamazonia.
Essas redes não são apenas estruturas administrativas. Elas organizam protocolos de amostragem, bancos de dados, infraestrutura de campo, inclusão das comunidades e povos locais, formação de estudantes, parcerias entre instituições e diálogo com políticas públicas.
Quando cada projeto atua isoladamente e utiliza metodologias não padronizadas, os dados se tornam difíceis de comparar e os investimentos em pesquisa se tornam ineficientes. Quando as redes se articulam, com métodos padronizados e coordenados, os mesmos investimentos podem gerar séries históricas, análises em escala regional e evidências mais úteis para decisões públicas.
Por isso, defendemos que novos projetos e editais adotem uma cláusula de compatibilidade científica e institucional, em consonância com a Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade 2025-2030, que prevê a integração e a interoperabilidade entre sistemas de dados sobre biodiversidade.
Em termos práticos, isso significa exigir que propostas de pesquisa dialoguem com protocolos já consolidados, ou justifiquem a necessidade de protocolos diferenciados, compartilhem dados de forma ética e interoperável e evitem a duplicação desnecessária de esforços e investimentos, especialmente quando houver oportunidades de complementar, integrar ou ampliar iniciativas já existentes.
A ciência sobre as Amazônias precisa ser feita com as Amazônias
O segundo ponto é o que tem sido chamado de colonialismo científico. Durante muito tempo, uma parte importante da pesquisa realizada na Amazônia foi conduzida a partir de fora da região.
Esse padrão tem sido descrito como ciência "helicóptero", "paraquedas" ou "por controle remoto". Ele ocorre quando pesquisadores entram em um território, coletam dados e saem sem construir capacidade local, sem devolver os resultados de forma adequada e sem compartilhar decisões com quem vive na região.
Esse problema não ocorre apenas quando países do Norte Global atuam em regiões tropicais. Ele também se reproduz dentro do próprio Brasil, quando projetos sobre a Amazônia são liderados majoritariamente por instituições e pesquisadores localizados fora da Amazônia. Nesse caso, a Amazônia aparece apenas como um campo de estudo e uma fonte de dados, mas com pouco espaço para liderança científica, planejamento e tomada de decisão, fortalecimento das capacidades locais e soberania dos dados.
Esse modelo mantém assimetrias históricas: instituições externas concentram a formulação das perguntas, a coordenação dos projetos, a gestão dos recursos, o controle dos dados e a liderança das publicações, enquanto instituições amazônicas, pesquisadores locais, estudantes, povos indígenas e comunidades tradicionais permanecem em posições secundárias ou apenas colaborativas, sobretudo como mão de obra barata para coleta de dados.
Superar esse modelo significa envolver instituições amazônicas, povos indígenas, comunidades tradicionais, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas e agricultores familiares. É necessário que esses grupos tenham motivação em realizar pesquisas dentro de seus territórios, participem da definição das perguntas que nortearão a produção de conhecimento e compartilhem decisões sobre orçamento, métodos, uso dos dados, autoria, comunicação dos resultados e benefícios gerados.
Estudos recentes têm mostrado que o conhecimento indígena e local é central para entender e conservar a biodiversidade amazônica. Na mesma direção, pesquisas participativas em territórios indígenas têm ampliado a compreensão sobre a biodiversidade e a relação entre integridade ambiental e conservação.
Além de contribuírem para a produção de conhecimento, essas populações dependem diretamente dos recursos naturais e dos serviços ecossistêmicos que sustentam seus modos de vida, segurança alimentar, cultura e economia. Por isso, sua participação não deve se limitar apenas ao fornecimento de informações, mas também incluir um papel ativo na definição de prioridades, na interpretação dos resultados e na construção de soluções que afetarão seus territórios e seu futuro.
A ciência amazônica do futuro precisa, portanto, deixar de tratar esses saberes como complementares ou acessórios. Eles devem fazer parte da base legítima e estruturante da produção do conhecimento.
Financiamento de curto prazo produz ciência interrompida
O terceiro obstáculo é o financiamento. Fazer ciência na Amazônia custa mais caro. Não porque seja menos eficiente, mas porque a região exige outra escala de logística, infraestrutura e permanência em campo. Mesmo assim, muitos financiamentos continuam organizados em ciclos curtos.
Projetos de dois ou três anos podem gerar resultados importantes, mas raramente sustentam monitoramentos de longo prazo, manutenção de equipamentos, formação continuada de equipes, gestão de dados, articulação e presença permanente nos territórios.
Isso cria um ciclo conhecido por muitos grupos de pesquisa: uma equipe é formada, dados começam a ser coletados, estudantes são treinados, relações locais são construídas, mas o projeto termina antes que a iniciativa se consolide. Esse modelo consome energia institucional, desperdiça capacidades já formadas e dificulta a construção de séries históricas consistentes, além de quebrar a relação e a confiança entre pesquisadores e comunidades locais.
Para romper esse ciclo, propomos a criação progressiva de um Fundo Permanente para a Ciência na Amazônia. Esse fundo poderia reunir e estabilizar recursos já existentes de governos, organismos multilaterais, fundações filantrópicas e mecanismos como o Fundo Amazônia. Seus recursos deveriam apoiar programas de longo prazo, redes regionais, infraestrutura compartilhada, bancos de dados abertos, monitoramento contínuo e iniciativas lideradas por instituições amazônicas e organizações territoriais.
Sem financiamento previsível, não há ciência de longo prazo. Sem ciência de longo prazo, o país perde a capacidade de acompanhar mudanças ambientais, avaliar políticas públicas e responder a crises que se acumulam lentamente, como a perda de biodiversidade, a degradação florestal, além de outros efeitos diretos e indiretos associados às mudanças climáticas.
Um marco colaborativo para transformar declarações em ação
A COP 30 estimulou uma série de documentos e compromissos. A Declaração de Belém, a Declaração de Mamirauá, a Carta de Belém das Redes Amazônicas de Pesquisa e a Carta CENBAM/PPBio apontam para a necessidade de cooperação, integração de dados, fortalecimento regional e inclusão de diferentes sistemas de conhecimento.
O desafio agora é transformar esses princípios em mecanismos concretos e eficazes na produção de conhecimento de longo prazo.
No artigo, propomos um Marco Colaborativo de Decisão para a Ciência Amazônica. A ideia é simples: criar um processo permanente para conectar ciência, território e política pública. Esse processo teria cinco etapas.
Primeiro, governos, cientistas e sociedade definem conjuntamente os problemas prioritários. Depois, diferentes grupos produzem evidências de forma colaborativa. Em seguida, as ações são priorizadas com base em critérios transparentes. A implementação ocorre com responsabilidades distribuídas. Por fim, os resultados são monitorados e usados para ajustar políticas e decisões.
Esse ciclo poderia ser coordenado por um Conselho Regional de Ciência da Amazônia, que deve funcionar como uma plataforma de coordenação entre estruturas já existentes (organizações intergovernamentais, redes científicas, instituições amazônicas, representantes de povos e comunidades locais e centros regionais de pesquisa).
A governança da ciência precisa ser policêntrica: conectada por princípios comuns, mas flexível o suficiente para impulsionar e responder a uma grande variedade de realidades locais.
Depois da COP 30, a questão é estabilidade
Sem uma ciência amazônica integrada, decolonial e duradoura, os esforços globais para enfrentar a crise climática e a perda de biodiversidade continuam insuficientes. Transformar promessas em prática exige menos projetos isolados e mais compromisso institucional. Exige menos protagonismo externo e mais liderança regional. Exige menos financiamento de curto prazo e mais de longo prazo.
A Amazônia já tem redes, conhecimento acumulado e pessoas preparadas. O próximo passo é reconhecer essa base como parte estratégica da política científica, climática e ambiental do Brasil e como condição para que a Amazônia deixe de ser apenas tema de compromissos internacionais e passe a ser protagonista das soluções que definirão seu próprio futuro.
Rafael Magalhães Rabelo recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).
Clarissa Alves da Rosa recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).
Deliane Penha recebe financiamento do Instituto Serrapilheira.
Domingos de Jesus Rodrigues recebe financiamento da FAPEMAT e do CNPq Bolsa Produtividade 312407/2022-0.
Leandro Juen recebe financiamento do CNPq, FAPESPA e BRC.
Marina Hirota trabalha no Instituto Relva e estava afiliada como professora associada da Universidade Federal de Santa Catarina quando este trabalho foi iniciado e desenvolvido. Ela recebia financiamento do Instituto Serrapilheira quando este trabalho foi iniciado e desenvolvido.
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