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Alice Ferraz: Escolhendo a própria vida

Sua vida não era vista então como uma imposição sem saída e sim uma escolha baseada em sua preferência

2 jul 2022 - 06h10
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Ela sabia por incontáveis consultas com astrólogos que nascer com ascendente em sagitário era sentir aquela necessidade de conhecer o mundo. Cada vez que saía de sua zona de conforto, de sua casa, de sua segurança, enxergava a própria vida por outro ângulo e esse contato com o novo alterava prioridades e, muitas vezes, descortinava a pequeneza da sua própria vida cotidiana.

Quando mais jovem, as novas rotas às vezes mais sedutoras já fizeram com que ela literalmente perdesse o foco e o caminho de casa, mas viajar continuava sendo um vício. A verdade é que depois de uma temporada presa e domesticada pelo dia a dia de afazeres, de espaços e pessoas conhecidas à exaustão, começava a sentir sua potência diminuir.

Parecia menor, mais frágil e com poucas possibilidades, partia então para um mundo interno, se refugiando em romances, em outras vidas que certamente eram mais interessantes que a sua.

Quando, no entanto, conseguia viajar, era chegar ao novo destino para perceber a potencialidade da vida e o enorme número de estradas que só esperavam que calçasse os sapatos da Alice no País das Maravilhas para se abrirem. Nesses caminhos já tinha feito planos de abrir uma sorveteria na Itália e trabalhar apenas no verão para depois se dedicar à vida intelectual fazendo cursos de história e morando no interior do Reino Unido.

Quando conheceu a África tinha se visto como guia para, assim, ter tempo para conhecer com profundidade os animais e a vida daquele povo ancestral que se relacionava com a terra de forma íntima. Já quis ensinar esqui na Suíça, apesar de não ser esportista e professora de comunicação em tempo integral em uma escola em Florença, e tudo na mesma viagem.

Viver os espaços fisicamente e não só através dos livros descortinava uma possível realidade alternativa e ter a visão dessa possibilidade a lembrava de que podia sempre escolher. Sua vida não era vista então como uma imposição sem saída e sim uma escolha baseada em sua preferência.

Existiam outras Alices que escolheram outras vidas e essa possibilidade sempre estaria à disposição. Na volta para casa ela era novamente grande e abraçava seu caminho com o poder que só existe quando se escolhe a própria vida.

Estadão
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