Adolescentes como a nadadora chinesa Yu Zidi devem participar de competições de alto nível?
Aos 13 anos, a chinesa Yu Zidi brilhou nos Jogos Asiáticos com três ouros e recordes, reacendendo o debate sobre a presença precoce de adolescentes no esporte de alto rendimento. Embora jovens talentos sejam comuns na natação, especialistas alertam para a intensa pressão psicológica e a rotina exaustiva de treinos. Defende-se que prodígios possam competir, desde que contem com suporte educacional, físico e mental contínuo, além de preparação para o futuro após o fim da carreira esportiva.
Três medalhas de ouro e três recordes nos Jogos Asiáticos lançaram a chinesa Yu Zidi, de 13 anos, para o centro das atenções na natação mundial.A terceira medalha de ouro dos Jogos Asiáticos pareceu tão convincente quanto as duas primeiras, embora a nadadora Yu Zidi tenha insistido que "não foi fácil de jeito nenhum, foi bastante desafiador."
Na quarta-feira passada (23/09), a atleta chinesa de 13 anos quebrou um recorde nos Jogos pela terceira vez e acrescentou o título dos 400 metros medley feminino aos ouros que já havia conquistado nos 200 metros medley e nos 200 metros borboleta. Essas três medalhas somam-se ao bronze que ela ganhou no ano passado no Campeonato Mundial.
Mesmo faltando dois anos para os Jogos Olímpicos de Los Angeles, já se fala numa possível rivalidade com a canadense Summer McIntosh, de 20 anos, que terminou em quarto lugar nos Jogos de 2020, aos 14 anos, e conquistou um título mundial aos 15.
Além do talento extraordinário, a pouca idade de ambas também levantou questões. "A primeira reação quando você vê algo assim é pensar: 'Uau, há uma grande carreira pela frente'", disse à DW a nadadora Leonie Beck, da Alemanha, tricampeã mundial de natação em águas abertas.
"Mas acho que talvez esse seja o problema. As pessoas ao redor [da atleta], ou talvez a mídia, podem criar essa pressão sobre um jovem talento. Mas o fato de você ser muito boa e rápida nessa idade não significa que toda sua carreira será assim."
O sucesso precoce
Aos 29 anos, Beck já se aposentou das competições de elite - a natação é um esporte em que os atletas frequentemente atingem o auge cedo. A americana Katie Ledecky e a japonesa Kyoko Iwasaki conquistaram ouro olímpico aos 15 anos, e o japonês Yumeki Kojima, de 17 anos, tornou-se um dos favoritos da torcida nos Jogos Asiáticos, conquistando uma medalha de ouro e uma de prata na piscina.
Embora seja tentador considerar Yu uma prodígio, Beck afirma que alcançar esse nível também requer dedicação e sacrifícios extraordinários.
"Minha primeira competição internacional foi em 2011 [aos 14 anos]. Nessa época, eu já treinava oito vezes por semana. Você acorda às 5h, às 6h já está na piscina, sai às 7h30 para estar na escola às 8h. Aí fica na escola até as 13h, volta para casa, come, talvez faça algum dever de casa, retorna para o treino na água às 15h. Depois uma hora de treinamento fora da água, volta para a piscina novamente e chega em casa às 19h. Eu também vivi isso quando era jovem."
Yu, que foi descoberta por acaso por um treinador de natação num parque aquático aos 6 anos, disse em entrevista à agência estatal chinesa Xinhua, durante um evento na China em janeiro, que a carga de trabalho cobra seu preço.
"Passar o dia inteiro na escola e ainda ter que treinar era realmente cansativo", disse ela. "Às vezes eu estava tão cansada que podia adormecer até enquanto comia."
Embora, para Beck, o sucesso esportivo tenha feito esse esforço valer a pena, nem todos os atletas que dedicam a infância ao esporte chegam ao topo. A nadadora alemã acrescentou que é fundamental oferecer estruturas de apoio educacional, físico e mental em modalidades que permitam a participação de menores de 18 anos.
"A psicologia esportiva deveria começar desde muito cedo porque deveria ser algo normal, assim como os fisioterapeutas", afirmou. "Especialmente numa idade em que o esporte também deve ser diversão."
As regras da World Aquatics - entidade mundial responsável pelas competições de esportes aquáticos - estabelecem que a idade mínima em campeonatos internacionais é 14 anos, mas exceções podem ser feitas para atletas suficientemente rápidos, como Yu.
Apesar de nadadores atingirem o auge mais cedo do que atletas de muitos outros esportes, adolescentes no mais alto nível não são algo tão incomum.
No futebol, Lamine Yamal conquistou a Eurocopa com a Espanha aos 16 anos. No críquete, o indiano Vaibhav Sooryavanshi estreou na Premier League Indiana aos 13 anos. Já a romena Nadia Comaneci tornou-se a primeira ginasta a receber uma nota 10 perfeita nos Jogos Olímpicos de Montreal, em 1976, aos 14 anos.
Atletas jovens também não são um fenômeno moderno. Dimitrios Loundras continua sendo o medalhista olímpico mais jovem da história, ao conquistar um bronze com a equipe grega de ginástica em 1896, aos 10 anos.
Se é bom, então já tem idade suficiente
De modo geral, as entidades esportivas costumam adotar a abordagem de que, se um atleta é bom o suficiente, então tem idade suficiente para competir. Beck afirma que, desde que acompanhado do apoio adequado, esse raciocínio está correto.
"Cada atleta tem um desenvolvimento completamente diferente. Por que impedir o sucesso de uma jovem atleta apenas porque ela é jovem e bem-sucedida? Na minha opinião, deve-se dar a ela a possibilidade de ter sucesso nesse momento porque numa fase posterior da carreira ela talvez não seja tão bem-sucedida. Não basta simplesmente dizer: 'Olhe, você tem essa idade e não pode competir.'"
Mas ela também alerta que, como o sucesso não dura para sempre, os jovens atletas de elite devem ser incentivados a construir um plano para a vida longe as competições, algo com que ela mesma teve alguma dificuldade após os Jogos de Paris em 2024.
"Você tem essa ideia de que quer chegar aos Jogos Olímpicos, conquistar essa medalha. Então existe uma estrutura de para onde ir, o que fazer. E, em determinado momento, isso desaparece, e você pensa: 'Ok, mas o que vou fazer da minha vida agora? O que quero alcançar? Quais são os meus objetivos?'"
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