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A Terra está passando por um período de maior atividade sísmica?

Os recentes terremotos na Venezuela, Colômbia, Indonésia, Japão e Espanha podem nos levar a pensar que estamos passando por uma espécie de "temporada de terremotos", mas não há nada que de fato os ligue

19 ago 2026 - 10h13
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Danos causados pelo tremor de magnitude 7,1 que atingiu o Japão no final de julho de 2026: fato de vários grandes terremotos coincidirem em poucas semanas pode chamar a atenção, mas a proximidade temporal não implica que os fenômenos estejam fisicamente relacionados. Arafatmyt/Shutterstock
Danos causados pelo tremor de magnitude 7,1 que atingiu o Japão no final de julho de 2026: fato de vários grandes terremotos coincidirem em poucas semanas pode chamar a atenção, mas a proximidade temporal não implica que os fenômenos estejam fisicamente relacionados. Arafatmyt/Shutterstock
Foto: The Conversation

Nos últimos meses foram registrados vários terremotos de grande magnitude em diferentes regiões do mundo. Em 24 de junho, dois grandes terremotos, de magnitudes 7,2 e 7,5, abalaram a Venezuela com apenas alguns segundos de diferença entre eles. No final de julho, foi a vez de um terremoto de magnitude 7,1 atingir o sul do Japão. Já em 10 de agosto, outro terremoto de magnitude 7,4 foi registrado na Colômbia. Apenas cinco dias depois, um terremoto de magnitude 7,7 abalou a ilha de Flores, na Indonésia. Pouco depois, a terra voltou a tremer, desta vez em Granada (Espanha), embora por um terremoto de magnitude 4,8, muito inferior aos anteriores. No dia 18 de agosto, três novos terremotos de magnitudes 4,8, 4,2 e 4,0 afetaram novamente a região espanhola da Andaluzia.

Diante de uma sucessão como essa, é fácil pensar que algo está ocorrendo em escala planetária. Estaremos passando por um período de maior atividade sísmica na Terra?

A resposta curta é que não temos evidências de que a Terra esteja passando por uma fase de maior atividade tectônica global. O fato de vários grandes terremotos coincidirem em poucas semanas pode chamar a atenção, mas a proximidade temporal não implica que os fenômenos estejam fisicamente relacionados.

O movimento das placas tectônicas e os sismos

A superfície terrestre está fragmentada em placas tectônicas que se deslocam continuamente, normalmente a velocidades de alguns centímetros por ano. Com isso, ao longo de anos, décadas ou séculos se acumulam tensões em suas bordas, até que o limite de resistência das rochas seja ultrapassado e ocorra uma ruptura brusca que gera um abalo sísmico, ou seja, um terremoto.

Um mapa da Terra com as divisões das placas tectônicas
Um mapa da Terra com as divisões das placas tectônicas
Foto: The Conversation
As placas tectônicas nas quais se divide a crosta terrestre, a camada mais superficial do planeta.Atlas Nacional da Espanha/IGN, CC BY

Mas esse processo não está sincronizado em escala planetária. Uma falha nos Andes, outra no Caribe e outra no sul da Península Ibérica respondem a contextos tectônicos bem diferentes. Não conhecemos nenhum mecanismo capaz de acelerar simultaneamente o movimento das placas tectônicas em escala planetária e desencadear, em questão de semanas, uma onda mundial de grandes terremotos.

Então, por que às vezes eles parecem se concentrar temporalmente? Isso é fundamentalmente uma questão de acaso. Pensemos no lançamento de uma moeda. Embora a probabilidade de sair cara seja a mesma de sair coroa, podemos obter várias caras seguidas. Isso não significa que a moeda tenha mudado.

Com os terremotos ocorre algo semelhante. Pode haver períodos com vários grandes eventos e outros relativamente tranquilos, sem que a taxa de atividade sísmica global tenha mudado. De fato, as análises estatísticas do catálogo mundial de terremotos de magnitude 7 ou superior mostram que os aparentes agrupamentos globais podem ser explicados pela variabilidade aleatória, juntamente com as sequências locais de réplicas.

Alguns terremotos são de fato relacionados

A situação muda quando reduzimos a escala. Após um grande terremoto, é comum que ocorram numerosos sismos de menor magnitude na mesma região: são as chamadas "réplicas". A ruptura principal altera as tensões nas rochas circundantes e favorece novas rupturas. Sua frequência costuma diminuir progressivamente com o tempo.

Um caso distinto são os pares sísmicos, nos quais ocorrem dois terremotos de magnitude comparável, com epicentros próximos e separados por um curto intervalo de tempo. O recente par sísmico na Venezuela é um exemplo.

Quando dois grandes terremotos ocorrem muito próximos um do outro, pode haver uma relação entre eles. A ruptura do primeiro redistribui as tensões na crosta terrestre, e essas tensões aumentam em algumas zonas. Se uma falha próxima já estivesse próxima de seu ponto de ruptura, esse aumento de tensão pode favorecer ou antecipar um novo terremoto. Esse mecanismo é conhecido como transferência de esforços de Coulomb.

Mas esse mecanismo não pode ser extrapolado para terremotos distantes. As variações estáticas de esforço diminuem rapidamente com a distância e afetam principalmente a área próxima à ruptura. Por isso, uma possível relação entre os dois terremotos venezuelanos não significa que eles possam explicar outro ocorrido muito mais longe, como o da Colômbia.

Nem todos os grandes terremotos viram notícia

Há outro fator que influencia nossa percepção: nem todos os grandes terremotos têm o mesmo impacto.

Em todo mundo ocorrem, em média, cerca de 16 terremotos de magnitude 7 ou mais a cada ano, aproximadamente um a cada três semanas. Mas muitos passam despercebidos, seja porque ocorrem no fundo do oceano, em grande profundidade ou longe de áreas habitadas, e não causam danos.

A magnitude, por si só, também não determina o impacto. Dois terremotos semelhantes podem ter consequências muito diferentes, dependendo de sua profundidade, da distância em relação às populações, das características do terreno e, sobretudo, da vulnerabilidade de edifícios e infraestruturas.

O que torna a sucessão recente especialmente chamativa não é necessariamente um aumento excepcional da atividade sísmica, mas o fato de que vários terremotos afetaram áreas povoadas e causaram danos significativos. Se esses mesmos eventos tivessem ocorrido em regiões desabitadas, provavelmente teriam recebido muito menos atenção.

A isso se soma a tendência humana de buscar padrões. Quando um terremoto destrutivo ganha destaque nas notícias, prestamos mais atenção ao seguinte, e é natural relacioná-los, mesmo que, geologicamente, sejam independentes.

Por isso, é importante distinguir entre quantos terremotos ocorrem e quantos afetam populações e se tornam notícia. A sucessão de vários terremotos destrutivos em um curto intervalo de tempo pode aumentar enormemente nossa percepção do risco sem que haja de fato um aumento da atividade tectônica global.

A recente sucessão de terremotos na Venezuela, Japão, Colômbia, Indonésia ou em Granada não indica, por si só, que a Terra tenha entrado em uma fase de maior atividade sísmica, especialmente agitada. Nosso planeta é tectonicamente ativo e continuará gerando grandes terremotos, mas isso não significa que tenha começado uma inesperada "temporada de terremotos".

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

María Belén Benito Oterino não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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