Os impactos das mudanças no estilo de vida na saúde cognitiva
Exercício físico, dieta adequada, treino cognitivo, monitoramento clínico e socialização melhoram em 55% o desempenho cognitivo de idosos da América Latina
Recentemente apresentamos em Londres, para uma plateia de mais de mil especialistas mundiais em demência, os resultados do estudo LatAm-FINGERS, primeiro ensaio clínico multicêntrico randomizado realizado na América Latina para investigar estratégias de prevenção de declínio cognitivo em idosos. E os resultados do estudo causaram grande repercussão no meio científico, porque mostram que mudanças no estilo de vida podem melhorar em até 55% o desempenho cognitivo global de idosos com risco de desenvolver declínio cognitivo e demência.
O trabalho foi apresentado durante a Alzheimer's Association International Conference (AAIC 2026), principal evento científico mundial sobre a doença de Alzheimer e outras demências, e foram publicados simultaneamente na revista The Lancet, uma das mais importante revistas médicas científicas do mundo, onde tivemos a satisfação de ver o tema destacado na capa da revista, além de um editorial dedicado ao estudo.
Um problema mundial em crescimento
Com o envelhecimento da população mundial que vem ocorrendo sobretudo nos últimos 80 anos, a prevalência de demência no mundo tornou-se elevada. Na América Latina e no Brasil, alguns estudos apontam a frequência de demência em idosos como a mais alta dentre todas as regiões geográficas do mundo. Uma metanálise publicada em 2022, analisando 31 estudos realizados na América Latina, mostrou uma prevalência de demência de 9% em pessoas com idades de 65 anos ou mais.
Existem alguns fatores de risco para demência que não são modificáveis, como a idade e a genética. Por outro lado, há fatores que podem ser alterados, tratados ou controlados, e que podem reduzir o risco do problema. Por essa razão, existe um esforço da comunidade científica mundial, especialmente nas duas últimas décadas, para identificar esses fatores modificáveis e calcular o impacto de seu controle sobre a redução do número de casos.
Um dos primeiros estudos a se debruçar sobre a prevenção do declínio cognitivo e da demência com mudanças de estilo de vida já mostrou a eficácia desse tipo de intervenção. Trata-se do estudo FINGER, realizado na Finlândia, com pessoas de 60 a 77 anos que apresentavam risco elevado para declínio cognitivo e demência.
Os participantes do estudo foram divididos de forma aleatória em dois grupos: um recebia apenas orientações gerais de saúde; o outro recebia uma intervenção sistemática sobre múltiplos domínios, como atividade física, dieta, monitoramento clínico, treino cognitivo e socialização.
Ao final de dois anos de acompanhamento, o estudo mostrou que as pessoas que receberam a intervenção sistemática melhoraram o desempenho cognitivo global em 25% em relação ao grupo que recebeu apenas orientações gerais de saúde. O estudo foi publicado em 2015 e teve grande repercussão, gerando o interesse da comunidade científica de reproduzir esses resultados positivos em outros contextos.
Em 2025, foi publicado o estudo U.S. Pointer, conduzido nos Estados Unidos, e que também observou efeitos positivos dessa intervenção de múltiplos domínios sobre o desempenho cognitivo global de 2.111 pessoas com idades entre 60 e 79 anos e risco elevado de declínio cognitivo acompanhadas ao longo de dois anos.
A própria revista The Lancet criou comissão que se dedica ao tema já há alguns anos. Na última publicação que fez, em 2024, a revista identificou 14 fatores de risco modificáveis que incidem ao longo da vida: na infância, temos o analfabetismo e baixa escolaridade; depois, vêm se instalando outros, como a perda auditiva, hipertensão arterial, diabetes, sedentarismo, redução da acuidade visual, entre outros.
E o que a publicação mostrou é que, se eliminássemos todos esses fatores de risco, reduziríamos significativamente os casos de demência. Projetando os dados para o Brasil, quase 60% dos casos de demência seriam eliminados se todos esses fatores de risco fossem controlados ou eliminados.
O estudo latino-americano
Há cerca de uma década, grupos de pesquisa latino-americanos começaram a discutir a possibilidade de realizar um estudo semelhante na região. A Alzheimer's Association, entidade baseada nos Estados Unidos e importante financiador de projetos de pesquisa na área, apoiou firmemente a ideia e financiou o nosso estudo.
Foram reunidos então 12 centros de pesquisa em 11 países latino-americanos: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, México, Peru, República Dominicana e Uruguai. O Brasil conta com dois centros, um na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outro na Universidade de São Paulo (USP). Em cada centro, tínhamos equipes multidisciplinares com médicos, psicólogos, educadores físicos, nutricionistas, equipe de pesquisa de bancada e radiologistas (para criação de um biobanco de amostras de sangue e exames de ressonância magnética cerebral).
Selecionamos pessoas com o mesmo perfil do estudo finlandês — idades de 60 a 77 anos e com fatores de risco elevado para declínio cognitivo e demência — que foram acompanhadas ao longo de dois anos, também divididas em um grupo que recebeu orientações gerais de saúde e outro que recebeu uma intervenção sistemática sobre múltiplos domínios, com acompanhamento pelas equipes multiprofissionais. Os eixos de intervenção foram definidos a priori pelos pesquisadores para que os centros de todos os países seguissem exatamente o mesmo protocolo.
As intervenções consistiam em:
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Atividade física: supervisionada por educadores físicos, quatro vezes por semana, uma hora por dia. A atividade começava com aquecimento e alongamento, e depois envolvia tanto exercícios aeróbicos quanto musculação/força.
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Aconselhamento nutricional: implementação da dieta MIND, que combina a dieta do Mediterrâneo com a dieta DASH, para hipertensão, pobre em sódio. As equipes de nutrição de cada país discutiram adaptações possíveis para as realidades locais. No Brasil, por exemplo, substituímos frutas vermelhas por açaí, azeite de oliva por abacate, e assim por diante. As adaptações regionais foram feitas tanto para contemplar questões socioeconômicas quanto o hábito gastronômico de cada país/população.
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Treino cognitivo: feito com um programa de treino cognitivo computadorizado chamado Brain HQ. Os participantes utilizaram esse recurso com a orientação de neuropsicólogos e alunos de graduação em Psicologia que tinham a função de ajudá-los a usar programa, estimulá-los e acompanhá-los para que fizessem os exercícios com a frequência desejada.
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Controle clínico e cardiovascular: acompanhamento médico regular, monitoramento e orientação clínica para controle de hipertensão arterial, diabetes mellitus, colesterol elevado, dentre outras condições clínicas.
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Socialização: alcançada no treino cognitivo e na atividade física, atividades realizadas em grupo.
Resultados expressivos
Nossa hipótese era a de que, na América Latina, a janela de oportunidade de resposta seria ainda mais expressiva do que no estudo original finlandês. E esse foi justamente o resultado obtido. Demonstramos que, ao final de dois anos, as pessoas que receberam a intervenção não farmacológica sistemática tiveram uma melhora do desempenho cognitivo global em relação ao outro grupo da ordem de 55%. Além da cognição global, tivemos também efeitos positivos expressivos sobre memória, função executiva (i.e., capacidade de planejamento) e velocidade de processamento de informação.
E por que uma diferença de resultados tão grande em relação ao estudo original? Existem alguns estudos epidemiológicos que mostram que, em países da Europa e nos Estados Unidos, a incidência de demência nos últimos 30 anos diminuiu. Nesses países, a expectativa de vida já era alta. Assim, o efeito do envelhecimento já existia. O que se fez foi melhorar as condições socioeconômicas, de educação e de saúde cardiovascular dessas pessoas. Isso fez com que a incidência de demência reduzisse nesses países.
Já na América Latina, o processo de transição demográfica ainda está em curso, com significativo envelhecimento da população nas últimas décadas e projetado para as próximas. Adicionalmente, a frequência de fatores de risco modificáveis para demência e não controlados ainda é muito alta. Infelizmente, há na região um grande número de pessoas hipertensas, diabéticas que não se tratam ou que controlam irregularmente esses fatores de risco.
Com uma população com uma carga de fatores de risco cardiovascular não controlada maior, o salto dado na melhoria quando se controlam esses fatores também é maior.
Próximos passos
Obtivemos um novo um financiamento da Alzheimer's Association para seguir acompanhando os participantes do LatAm-FINGERS por quatro anos, não com a intervenção controlada inicial, apenas com a observação das pessoas, na expectativa de que elas mantenham esses hábitos de vida ao longo do tempo. Nesse estudo mais longo talvez possamos ver o impacto das mudanças de hábito a médio prazo, para investigar se haverá ou não uma redução da incidência de casos de demência.
O que já confirmamos foi uma melhora do desempenho cognitivo global e de três diferentes domínios cognitivos específicos, o que pode nos levar à hipótese de que, mesmo no caso de uma doença degenerativa como a doença de Alzheimer, o aumento da reserva cognitiva dessas pessoas pode fazer com que os sintomas se manifestem mais tarde. Além, é claro, dos benefícios sobre a saúde cardiovascular e metabólica que têm impacto sobre a ocorrência de doença cerebrovascular e mesmo doenças neurodegenerativas.
A Alzheimer's Association, que foi a agência financiadora do estudo, decidiu investir agora na implementação, ou seja, avaliar como os dados científicos dessas várias pesquisas podem ser transpostos para a "vida real", sobretudo em políticas de promoção de saúde e prevenção de doenças. A Associação lançou um edital de financiamento de estudos piloto para testar essa implementação.
Nosso grupo na UFMG, bem como o grupo da USP, apresentamos propostas que felizmente foram contempladas. Desse modo, além do seguimento dos participantes do estudo LatAm-FINGERS, vamos investigar como implementar essas mudanças de hábitos para o dia a dia de outras pessoas idosas da comunidade, o que é fundamental para a avaliação da sua aplicabilidade como política pública. Vamos realizar um estudo em Belo Horizonte, buscando parceria com uma unidade básica de saúde de algum bairro da cidade.
A ideia é selecionar em torno de 40 ou 50 pessoas atendidas por essa unidade básica de saúde, convidá-las a participar e observar como será a aderência, além de avaliar as dificuldades das pessoas em seguir - e manter - o que o programa propõe. É muito importante que isso retorne para a sociedade, para as pessoas que precisam e podem usar essa informação para melhorar o seu futuro e a qualidade do seu envelhecimento.
O Brasil tem uma Política Nacional de Cuidado Integral às Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Demências, que foi aprovada em 2024, mas ainda precisa ser implementada. Os resultados do estudo LatAm-FINGERS são uma boa notícia para programas de prevenção e promoção de saúde e, talvez, com o projeto de implementação que será iniciado, consigamos demonstrar para os gestores públicos que vale a pena investir em equipes multiprofissionais no Sistema Único de Saúde e oferecer esse programa. Acreditamos que esse é o tipo de investimento que vale a pena, pois o custo é menor do que os gastos com medicações e a assistência a pessoas com demência.
Paulo Caramelli recebe financiamento de pesquisa do CNPq e da Alzheimer's Association (EUA).
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