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A "loirona de Flávio Bolsonaro": o que uma influenciadora que não existe revela sobre a política brasileira

A história da personagem "Juju Cortez" revela uma nova e infame modalidade de exploração comercial da comunicação política: a fabricação de manifestações aparentes de apoio para atrair audiência e encaminhá-la a serviços pagos, sem participação comprovada da campanha do candidato

28 out 2026 - 11h44
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Resumo
Uma influenciadora fictícia gerada por inteligência artificial, inserida em vídeos reais com Flávio Bolsonaro, alcançou milhões de visualizações para monetizar a venda de conteúdo adulto. O caso revela um esquema comercial sem elo comprovado com campanhas políticas, no qual a notoriedade partidária é usada por terceiros para atrair público. A prática, já repetida com outras figuras políticas, expõe desafios jurídicos e democráticos ao simular apoios reais na internet.

Uma jovem loira aparece sorridente ao lado de Flávio Bolsonaro durante manifestações políticas. Chama-se Julia Berlli Cortez e, segundo sua apresentação nas redes sociais, tem 22 anos e estuda Biomedicina. Sua aparência desperta curiosidade, os vídeos circulam rapidamente e centenas de milhares de pessoas começam a acompanhar suas publicações. Há, entretanto, um detalhe: Julia nunca existiu.

Criada por inteligência artificial, a personagem foi inserida em gravações autênticas de atos políticos, chegando a substituir digitalmente o deputado Nikolas Ferreira em algumas cenas. Segundo a Agência Lupa, entre 8 e 20 de outubro de 2026, o perfil de Julia publicou 24 vídeos relacionados a Flávio Bolsonaro, que acumularam 45,2 milhões de visualizações até o meio-dia do último dia.

A história revela uma nova e infame modalidade de exploração comercial da comunicação política: a fabricação de manifestações aparentes de apoio para atrair audiência e encaminhá-la a serviços pagos, sem participação comprovada da campanha do candidato.

A propaganda eleitoral sempre recorreu a imagens capazes de despertar emoções e transmitir aceitação social. Fotografias de candidatos cercados por admiradores, encontros com celebridades e manifestações populares integram há décadas as estratégias de comunicação política. A inteligência artificial introduz uma diferença fundamental: a participação em determinado acontecimento dispensa a presença física.

Nos vídeos de Julia, os atos políticos realmente aconteceram, mas a personagem modifica os registros originais, criando a impressão de que também esteve presente. A combinação de imagens autênticas e elementos fabricados dificulta a identificação da manipulação, especialmente quando os conteúdos circulam sem indicação de sua origem.

Essa alteração interfere na interpretação das imagens. Ver alguém acompanhando um candidato sugere proximidade, identificação ou apoio, embora a relação retratada jamais tenha existido. Entretanto, visualizações, seguidores e comentários representam formas distintas de interação, sem comprovar mudanças nas preferências eleitorais. A importância do episódio reside na criação de uma aparência de participação política, independentemente dos efeitos efetivos sobre o voto.

O Projeto Comprova identificou que os perfis associados a Julia direcionavam usuários para um canal no Telegram e um assistente virtual que oferecia conteúdo adulto, incluindo fotografias, vídeos e conversas íntimas. As assinaturas semanais custavam entre R$ 14,90 e R$ 39,90.

Em 20 de outubro, o canal reunia 164.432 seguidores, número que não corresponde à quantidade de compradores. O faturamento efetivo permanece desconhecido. Ao examinar a chave Pix utilizada nas cobranças, o Comprova identificou a Sync Tecnologia como titular da conta recebedora. A empresa afirmou atuar exclusivamente como intermediadora de pagamentos, negou envolvimento na criação ou administração da personagem e informou ter iniciado uma análise interna.

Identificação partidária como instrumento de captação de consumidores

A Agência Lupa não encontrou evidências de ligação entre os responsáveis pelos perfis e a campanha de Flávio Bolsonaro. Essa distinção esclarece o mecanismo econômico: o candidato aparece como beneficiário político da mensagem, enquanto terceiros exploram comercialmente a atenção despertada por sua imagem.

A identificação partidária transforma-se em instrumento de captação de consumidores, independentemente dos objetivos eleitorais da liderança retratada. A notoriedade política adquire, assim, valor econômico para agentes externos às campanhas.

Julia também não representa um caso isolado. Em investigação publicada em 20 de outubro, a BBC News Brasilidentificou 37 perfis no Instagram e no TikTok que utilizavam personagens femininas criadas por inteligência artificial para manifestar apoio a candidatos presidenciais. Juntos, reuniam aproximadamente sete milhões de seguidores. Predominavam referências a Flávio Bolsonaro, mas também havia personagens associadas a Luiz Inácio Lula da Silva. Algumas contas encaminhavam usuários para serviços comerciais semelhantes, embora a existência de estratégias compartilhadas não demonstre coordenação entre todos os responsáveis nem participação das campanhas. Diferentes identidades políticas servem à atração de públicos segmentados.

O perfil de Julia não identificava claramente sua natureza artificial, situação apontada pelo Comprova como contrária às diretrizes do Instagram. A retirada posterior das contas pelas plataformas não equivale a uma determinação judicial. No Brasil, o artigo 9º-B da Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral exige a identificação explícita de conteúdos sintéticos utilizados em propaganda eleitoral.

O artigo 38-A prevê a remoção de perfis falsos ou vinculados a pessoas inexistentes quando suas publicações envolvam práticas reiteradas de crimes eleitorais ou divulgação de fatos notoriamente inverídicos ou gravemente descontextualizados, nas condições definidas pela norma. As determinações judiciais exigem contraditório e ampla defesa, enquanto as exclusões realizadas pelos provedores obedecem a hipóteses específicas. A aplicação dessas disposições ao episódio depende de avaliação jurídica concreta.

O episódio brasileiro de Julia Cortez evidencia uma prática mundial cada vez mais presente e preocupante na economia digital: a fabricação de manifestações aparentes de apoio político como instrumento de influência e exploração comercial. Ao apresentar personagens artificiais em acontecimentos reais, essas estratégias criam uma impressão de participação espontânea que encobre os interesses envolvidos na produção e circulação das imagens.

A atenção despertada pela política transforma-se, assim, em oportunidade de negócio, enquanto os cidadãos enfrentam dificuldades crescentes para distinguir manifestações autênticas de representações fabricadas. Nesse cenário, a transparência sobre autoria, financiamento e finalidade constitui uma exigência fundamental para a integridade do debate público e a confiança nas instituições democráticas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Armando Alvares Garcia Júnior não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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