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'Tal pai, tal filho': imprensa europeia acompanha 'fuga espetacular' de Flávio até chegar em Miami

A pergunta que domina nesta quarta-feira (28) parte da imprensa europeia é simples: "Flávio Bolsonaro desapareceu?" A formulação foi escolhida pelo jornal francês Libération para sintetizar as horas de incerteza que cercaram o paradeiro do senador brasileiro após sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva. Do Le Monde ao Guardian, passando pelo El País, Les Echos e Corriere della Sera, a fuga do ex-candidato para os EUA se transformou em um dos principais assuntos da cobertura internacional.

28 out 2026 - 11h59
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Resumo
A imprensa internacional repercutiu com destaque a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos após sua derrota para Lula nas eleições. O senador descumpriu uma ordem para entregar seus passaportes e viajou com a família de carro até a Argentina, de onde seguiu em voo privado com escala no Equador até Miami. Jornais europeus compararam a manobra à saída de Jair Bolsonaro em 2022 e apontaram que a rota visava driblar investigações por lavagem de dinheiro, com apoio de aliados políticos.

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos se transformou nesta quarta-feira em um dos principais temas da imprensa internacional. Enquanto autoridades argentinas, norte-americanas e brasileiras acompanham os desdobramentos do caso, jornais europeus passam o dia tentando reconstruir os detalhes da saída do senador do Brasil após sua derrota para Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de domingo (25).

Flávio Bolsonaro desembarca do avião após chegar ao Aeroporto Executivo Opa Locka, em Miami, Flórida. O senador derrotado nas eleições deixou o Brasil, apesar de uma ordem judicial proibindo-o de sair do país.
Flávio Bolsonaro desembarca do avião após chegar ao Aeroporto Executivo Opa Locka, em Miami, Flórida. O senador derrotado nas eleições deixou o Brasil, apesar de uma ordem judicial proibindo-o de sair do país.
Foto: AFP - RICARDO ARDUENGO / RFI

O episódio mobiliza correspondentes em Brasília, São Paulo, Buenos Aires, Miami e Guayaquil e provoca interpretações distintas sobre o significado político da viagem. Entre dúvidas sobre seu paradeiro, especulações sobre seus planos futuros e questionamentos sobre a atuação de governos estrangeiros, a imprensa internacional trata o caso como mais um capítulo da crise política envolvendo a família Bolsonaro.

Enquanto isso, jornalistas confirmaram que Flávio Bolsonaro desembarcou por volta das 9h30 (10h30 em Brasília) no aeroporto executivo de Opa-locka, nos arredores de Miami, acompanhado de familiares, após uma viagem que passou pela Argentina e pelo Equador.

Jornais europeus acompanham operação passo a passo

O jornal Le Monde destaca em sua cobertura que as autoridades brasileiras já trabalhavam há semanas com a hipótese de uma saída do país em caso de derrota eleitoral.

Segundo a correspondente do diário francês em São Paulo, a possibilidade ganhou força depois que Eduardo Bolsonaro passou a mencionar publicamente a hipótese de o irmão deixar o Brasil caso fosse derrotado nas urnas. O jornal observa que esse receio ajudou a justificar a decisão judicial que determinou a entrega dos passaportes de Flávio Bolsonaro.

Para o diário francês, a medida mostra que a possibilidade de uma saída do país não era tratada como uma simples especulação política, mas como um cenário concreto considerado pelas autoridades.

"Desapareceu?"

O também francês Libération escolheu um caminho diferente. Sob o título "Desapareceu?", o jornal concentra sua cobertura nas horas de imprecisão que cercaram o paradeiro do senador.

A publicação destaca que existia uma "incerteza total" em torno da localização de Flávio Bolsonaro enquanto diferentes informações surgiam sobre uma possível saída do Brasil. O diário descreve a operação como uma grande "fuga" e acompanha as tentativas da imprensa internacional de reconstruir os passos do senador desde a noite de terça-feira (27).

Mais do que o aspecto jurídico ou eleitoral, o foco do jornal está no desaparecimento repentino de uma figura política que, apenas dois dias antes, havia disputado a presidência.

Já o diário econômico Les Echos estabeleceu uma comparação direta entre familiares: "Tal pai, tal filho", resumiu o jornal ao recordar que o ex-presidente Jair Bolsonaro também deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos após a derrota para Lula em 2022, antes de retornar meses depois ao país.

No Reino Unido, o Guardian mobilizou seu correspondente em Brasília para acompanhar a expectativa em torno da chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos. A reportagem britânica acompanha o deslocamento do senador praticamente em tempo real e descreve a expectativa criada em torno de seu desembarque em Miami. O jornal trata o episódio como um dos principais desdobramentos da eleição presidencial brasileira e acompanha atentamente os efeitos diplomáticos e políticos da viagem.

Operação Alpa e a conivência de aliados

Já o italiano Corriere della Sera concentra sua atenção na chamada Operação Alpa. Segundo o jornal, a operação teria sido concebida pelo secretário de Estado norte-americano Marco Rubio com o objetivo de facilitar a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. A publicação destaca que o deslocamento incluiu etapas discretas e até uma travessia terrestre na fronteira com a Argentina.

Na Espanha, o El País não se limita a relatar a fuga. No próprio título de sua reportagem, "A escapada de Bolsonaro: do Brasil à Argentina para viajar aos Estados Unidos depois de fazer escala no Equador", o veículo enquadra a viagem como uma operação de saída organizada em "várias etapas".

O texto afirma que Flávio Bolsonaro deixou o Brasil "para evitar uma investigação por lavagem de dinheiro" e destaca que Donald Trump se declarou disposto a recebê-lo nos Estados Unidos.

O El País observa que a travessia ocorreu justamente na região de Foz do Iguaçu, administrada pelo Partido Liberal, legenda de Bolsonaro. O jornal também lembra que o estado do Paraná é governado por aliados do bolsonarismo e que Sergio Moro foi eleito governador no primeiro turno. 

Argentina revelou a rota da viagem

As primeiras informações concretas sobre a movimentação da família Bolsonaro surgiram durante a madrugada desta quarta-feira, quando a Direção Nacional de Migrações da Argentina divulgou detalhes da travessia.

Segundo o órgão, Flávio Bolsonaro, sua esposa Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e as filhas Carolina e Luiza cruzaram a fronteira às 22h50 (hora local) de terça-feira, entrando em território argentino pela Ponte Internacional Tancredo Neves.

Em uma mensagem publicada na rede X, as autoridades argentinas ressaltaram que todos apresentaram documentação considerada regular e não possuíam impedimentos legais para entrar no país.

Pouco depois, às 23h30 (hora local), a família embarcou em uma aeronave privada operada pela empresa Baires Fly S.A., com destino à cidade equatoriana de Guayaquil.

Escala no Equador e chegada à Flórida

Jornalistas em Guayaquil acompanharam a breve passagem da aeronave pelo Equador. O avião procedente de Puerto Iguazú realizou apenas uma rápida escala para abastecimento antes de decolar novamente em direção aos Estados Unidos.

Após horas de especulação sobre o destino final da viagem, a chegada de Flávio Bolsonaro ao aeroporto de Opa-locka, na região metropolitana de Miami, foi confirmada.

A localização exata do senador havia sido objeto de intensos debates ao longo das últimas 24 horas, especialmente após reportagens de veículos norte-americanos indicarem que ele pretendia buscar refúgio nos Estados Unidos.

Passaportes cancelados e cidadania italiana

A viagem ocorreu em meio a uma disputa jurídica envolvendo o senador. Flávio Bolsonaro havia afirmado na segunda-feira que cumpriria uma ordem judicial para entregar seus passaportes às autoridades brasileiras. Segundo uma fonte policial ouvida pela AFP, isso não aconteceu.

Na terça-feira, seus documentos de viagem foram cancelados pelas autoridades brasileiras, incluindo o passaporte diplomático ao qual tinha direito por exercer mandato parlamentar.

O senador possui cidadania italiana desde 2023, conforme documento do Parlamento italiano consultado pela agência.

Paralelo inevitável com Jair Bolsonaro

A fuga de Flávio Bolsonaro reativou na imprensa internacional as comparações com o caminho percorrido por seu pai em 2022. Após perder a eleição para Lula, Jair Bolsonaro deixou o Brasil sem reconhecer a derrota e embarcou para os Estados Unidos na véspera da posse do adversário.

Meses depois, retornou ao país. Atualmente, o ex-presidente cumpre pena em prisão domiciliar após condenação por tentativa de golpe de Estado.

Para muitos jornais europeus, a história acompanhada nesta quarta-feira não foi apenas a fuga de um político derrotado nas urnas. Foi, sobretudo, a repetição de um roteiro familiar já conhecido da política brasileira recente.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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