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Apesar do silêncio de Milei, governo argentino diz que 'tomou conhecimento' do resultado das eleições no Brasil

Porta-voz da Casa Rosada afirmou que divergências políticas entre os presidentes não devem afetar as relações comerciais e citou a ausência de um cumprimento de Lula a Milei após a eleição argentina de 2023.

27 out 2026 - 15h25
(atualizado às 15h49)
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Resumo
O governo argentino declarou ter tomado conhecimento da reeleição de Lula, mas o presidente Javier Milei segue em silêncio, sendo o único líder sul-americano a não parabenizá-lo. O porta-voz da Casa Rosada justificou a postura apontando diferenças ideológicas e alegando falta de cumprimento recíproco em 2023. Apesar do atrito político, a Argentina assegurou a plena normalidade nas relações comerciais e no Mercosul, priorizando a parceria bilateral sobre divergências políticas.
Porta-voz da Casa Rosada disse que Lula não teria cumprimentado Milei após a eleição argentina de 2023.
Porta-voz da Casa Rosada disse que Lula não teria cumprimentado Milei após a eleição argentina de 2023.
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Pela primeira vez, o governo de Javier Milei se pronunciou oficialmente sobre a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais no Brasil, por meio de um porta-voz do governo argentino.

O presidente da Argentina segue em silêncio e ainda não se manifestou publicamente sobre a vitória de Lula.

Mas Adrián Ravier, porta-voz da Casa Rosada, abordou o assunto nesta terça-feira (27/10) durante uma coletiva de imprensa e disse que o resultado eleitoral já havia sido registrado.

"Tomou-se conhecimento do resultado eleitoral do Brasil", limitou-se a dizer.

Milei, que tenta se posicionar como o líder da direita na América Latina, participou em julho do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e associou o senador a uma "transformação política em curso" na região.

Diante da insistência dos jornalistas na Casa Rosada, o porta-voz do governo argentino justificou o silêncio de Milei, alegando que Lula não teria parabenizado o presidente argentino após sua vitória eleitoral em 2023.

"Quando Javier Milei foi eleito, em 2023, não houve nenhum gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente nem nada. Por enquanto, não há nenhum comunicado que pretendamos divulgar", argumentou.

No entanto, Lula publicou uma mensagem no X na noite de 19 de novembro de 2023.

"A democracia é a voz do povo, e ela deve ser sempre respeitada. Meus parabéns às instituições argentinas pela condução do processo eleitoral e ao povo argentino que participou da jornada eleitoral de forma ordeira e pacífica", publicou Lula na época.

"Desejo boa sorte e êxito ao novo governo. A Argentina é um grande país e merece todo o nosso respeito. O Brasil sempre estará à disposição para trabalhar junto com nossos irmãos argentinos", seguiu o presidente brasileiro.

Relações comerciais seguem com 'total normalidade', diz porta-voz

Governo argentino afirmou que divergências políticas entre os presidentes não devem afetar as relações comerciais
Governo argentino afirmou que divergências políticas entre os presidentes não devem afetar as relações comerciais
Foto: EPA / BBC News Brasil

Depois de mais insistências dos repórteres sobre a ausência de uma manifestação oficial de Milei, Adrian Ravier afirmou que o presidente argentino considera mais importantes as relações entre os dois países do que suas divergências políticas.

O Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina. Já o país vizinho é a terceira maior parceira comercial do Brasil.

"Argentina e Brasil são dois povos irmãos, que comercializam e trabalham dentro do Mercosul. Nada disso deveria ter sido afetado. Para o presidente Milei, os dois povos, o comércio e as relações que podem ser construídas são muito mais importantes do que as diferenças ideológicas que possam existir entre os dois mandatários", declarou.

"Do lado argentino, a diplomacia continua, as relações comerciais continuam. Não esperamos que nada disso seja afetado daqui para a frente dentro do Mercosul", acrescentou.

O porta-voz garantiu que as relações comerciais seguiriam normalmente.

"Acabo de responder a dois colegas seus que fizeram a mesma pergunta: já tomamos conhecimento do resultado eleitoral e seguimos trabalhando como sempre dentro do Mercosul", disse a um jornalista que havia perguntado, novamente, se Milei se manifestaria publicamente.

"Todas as pessoas e empresas da Argentina e do Brasil que queiram comercializar e estabelecer relações poderão continuar fazendo isso com total normalidade", afirmou.

Ravier também reconheceu a existência de divergências políticas entre os presidentes. "A única coisa que posso dizer aqui é que o presidente não é um hipócrita. Existe uma diferença ideológica real entre os dois mandatários", disse.

Perguntado se o silêncio de Milei seria uma represália ao fato de Lula não ter se pronunciado sobre a eleição do argentino em 2023, o porta-voz respondeu: "É um antecedente, nada mais".

Líderes de direita na América do Sul reconheceram vitória de Lula

Ao longo deste ano, Milei distanciou a diplomacia da Casa Rosada do Brasil, principalmente depois de insultar Lula e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no evento que lançou a candidatura de Flávio Bolsonaro, em julho.

Dias depois, chamou Lula de "corrupto" e "ladrão" em uma entrevista ao canal argentino LN+.

Lula, por sua vez, causou alvoroço em Buenos Aires, em setembro de 2025, ao visitar Kirchner em seu apartamento durante uma cúpula do Mercosul. À época, ela começava a cumprir uma pena de seis anos de prisão, em regime domiciliar, por ter favorecido empresários próximos quando era presidente. A visita gerou fortes críticas na Argentina.

Até o momento, o presidente da Argentina é o único líder da América do Sul que ainda não se pronunciou publicamente sobre a vitória de Lula nas eleições brasileiras.

A maioria dos líderes da região, muitos deles representantes da direita, reconheceu o resultado e parabenizou o presidente brasileiro reeleito.

O presidente do Chile, José Antonio Kast, considerado de direita, afirmou ter conversado por telefone com Lula após a vitória. Apesar das diferenças ideológicas, Kast defendeu uma agenda comum para ampliar a integração econômica e combater o crime organizado na região.

Na Colômbia, o político Abelardo de la Espriella, que apoiou Flávio Bolsonaro na eleição brasileira, reconheceu o resultado das urnas e defendeu o respeito à decisão dos eleitores.

Ele afirmou ter profundas divergências políticas e ideológicas com Lula, mas ressaltou que Brasil e Colômbia precisam cooperar em temas como o combate ao narcoterrorismo e à mineração ilegal, a proteção da Amazônia e o bem-estar da população.

"Próximos ao bicentenário de nossas relações diplomáticas, reafirmo nossa vontade de fortalecer nossa aliança estratégica, a integração, a cooperação e o desenvolvimento sustentável da Amazônia que compartilhamos, em benefício de ambos os povos", escreveu a presidente peruana.

Outros presidentes latino-americanos também se manifestaram. O boliviano Rodrigo Paz destacou a história e os desafios comuns entre os países. O paraguaio Santiago Peña defendeu a continuidade da agenda de integração e desenvolvimento. Os presidentes do Equador, Daniel Noboa, e do Panamá, José Raúl Mulino, também felicitaram Lula.

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