O que explica a virada histórica de Lula no segundo turno
A virada histórica de Lula no segundo turno, com 64,2 milhões de votos, é explicada por especialistas por uma conjunção de fatores cruciais: a intensa mobilização de militantes nas ruas e nas redes digitais para reduzir a abstenção, a implementação de benefícios sociais estratégicos na reta final e a exploração de pautas que geraram medo eleitoral. Esse avanço foi impulsionado também pelo enfraquecimento da campanha de Flávio Bolsonaro, prejudicada por posturas agressivas e erros táticos.
Presidente conquistou mais de 10 milhões a mais do que no primeiro turno e conseguiu virada histórica. Para especialistas, mobilização intensa de apoiadores e deslizes de adversário ajudam a explicar vitória do petista.A virada histórica do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve um número incomum: foram 10,3 milhões de votos a mais entre o primeiro e o segundo turno. Por trás desse dado, segundo especialistas, estão as intensas mobilizações que ocorrem nas últimas semanas e deslizes cometidos pelo adversário, Flávio Bolsonaro (PL).
No primeiro turno, Lula obteve 53,8 milhões de votos, o que o deixou com uma desvantagem de cerca de 2,2 milhões em relação a Flávio. Já no segundo turno, o petista obteve 64,2 milhões de votos, que representaram 4,4 milhões a mais do que o adversário. Foi a maior votação já recebida por um candidato à Presidência do Brasil.
"Estava muito claro que o cenário era muito adverso para o Lula. Nunca houve uma virada, e o primeiro turno tendia a consolidar algumas preferências eleitorais. Então, a margem de manobra para o Lula vencer no segundo turno era muito estreita", avalia o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
No domingo (28/10), mais eleitores foram às urnas após abstenção recorde no primeiro turno, os números de votos brancos e nulos caíram e o eleitorado de Lula cresceu em todos os estados.
"A redução da abstenção foi muito interessante, porque foi uma mobilização e uma conscientização. Vimos muitas pessoas com mais de 70 anos votando", comenta a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).
O principal gatilho para toda essa mobilização foi a possível derrota de Lula após o primeiro turno, avalia Mayra Goulart, coordenadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (LAPPCOM) da UFRJ.
Ainda não há levantamentos detalhados sobre o perfil dos eleitores que foram os principais responsáveis pela virada do petista. Apesar disso, os especialistas destacam que houve uma mobilização intensa entre os idosos. A participação dos jovens também foi ressaltada no discurso da vitória de Lula.
"Mas com os dados disponíveis até hoje, não há base estatística para afirmar que jovens e idosos decidiram o segundo turno. O TSE ainda não divulgou os dados oficiais de comparecimento do segundo turno por perfil do eleitorado, e a decomposição dos totais indica que a maior parte da virada veio da redistribuição de votos", ressalta Goulart.
Mobilizações nas ruas e nas redes
Nas ruas, estudantes e movimentos sociais começaram a organizar atos a favor de Lula. Foram registrados eventos a favor do petista em diferentes regiões do país, algo que não havia tido a mesma força no primeiro turno. Nas redes e nas ruas, teve início uma campanha para "virar votos", que tinha entre seus principais alvos os eleitores que se abstiveram no primeiro turno: 33,4 milhões de brasileiros, o equivalente a 21,08% do eleitorado.
Um dos principais pontos de mobilização foi o canal de WhatsApp "Exército do Lula", que chegou a ter mais de 10 milhões de seguidores. Nele, o deputado federal André Janones (Rede-MG) passava "missões" para engajar conteúdos da esquerda, como vídeos, hashtags e publicações contrárias a Flávio. Além disso, fazia lives para impulsionar a campanha do petista.
Segundo os especialistas, a esquerda aprendeu no segundo turno a fazer uma militância digital forte, que tradicionalmente tinha mais impacto em grupos bolsonaristas.
"O bolsonarismo sempre teve força nas redes porque eles ativavam a capilaridade digital e cresciam. Eu acho que a esquerda aprendeu sobre essa necessidade de mostrar vigor na reta final. E também havia a composição da comunicação digital, sempre incentivando a compartilhar e pedindo para evitar comentar os posts contrários ao presidente para não engajar", diz Veiga.
Medo e pacote de bondades
Os grupos coordenados de esquerda também passaram a compartilhar notícias negativas sobre Flávio. Temas como possibilidades de perda de benefícios sociais e mudanças na Constituição Federal passaram a ser recorrentes na estratégia contra o senador, apontam especialistas.
"O PT usou a estratégia do medo. Afinal, o medo é o que mais movimenta as pessoas, assim como a esperança", diz o cientista político Kleber Carrilho, pesquisador e professor da Universidade de Helsinque, na Finlândia. Segundo ele, foi uma estratégia semelhante ao que já era usado rotineiramente por aliados de Bolsonaro, quando relacionavam ameaças sociais a partidos de esquerda.
Além desses fatores, especialistas também mencionam que medidas do governo federal nas últimas semanas, antes do segundo turno, também podem ter ajudado a impulsionar os votos de Lula. Entre essas ações estão a antecipação do calendário de pagamentos do Bolsa Família, junto com reajustes nos valores, e um pacote de perdão de dívidas tributárias de microempreendedores individuais (MEIs) com a União.
"Esses mecanismos tradicionais, usados por governos para se reeleger, não me parecem decisivos. Eles não foram decisivos para reeleger o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022, que perdeu a eleição mesmo usando recursos parecidos ou piores", diz Barbosa.
Deslizes de Flávio e aliados
Enquanto a campanha de Lula no segundo turno parecia mobilizar cada vez mais pessoas, especialistas apontam que a de Flávio já não demonstrava o mesmo fôlego pelo país. Para os cientistas políticos, a campanha do bolsonarista cometeu vários deslizes, que podem ter ajudado o adversário.
Os especialistas dizem que Flávio adotou uma postura que pode ter sido considerada arrogante por muitos eleitores, após liderar o primeiro turno. "Nos debates, muitos começaram a perceber o Flávio", afirma Veiga, acrescentando que no primeiro turno o pleito incluía governador, deputado estadual, deputado federal, senador e presidente. "Tinha um engajamento local e a ideia era de que o eleitor levasse todo um pacote". Quando essas eleições decididas, Flávio ficou sozinho diante o eleitorado.
A conduta que Flávio adotou nos debates é apontada como um fator prejudicial, incluindo a insistência do senador em ficar atrás de Lula no primeiro embate entre os dois, exibido pela Band. "As pessoas podem ter ficado com medo desse personagem, que lembra o pai dele, que no primeiro turno não aparecia tanto. Ficaram com medo desse cara que em um debate faz uma piada com a falta de dedo do presidente, que é um idoso", diz Carrilho.
Outro ponto prejudicial ressaltado por especialistas é o vídeo do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em que eleitores do Nordeste reclamam de Lula. "Aquele vídeo não era algo que poderia ser feito com o objetivo de conquistar votos no Nordeste. Quando o Lula, que é nordestino, fala sobre as dificuldades da região, as pessoas entendem. Mas quando quem diz isso é o Nikolas, que é de Minas Gerais, é enxergado de outra forma", avalia Carrilho.
O cientista político afirma que o eleitor que se considera bolsonarista dificilmente vai mudar de opinião, mas esses deslizes de Flávio podem ter influenciado aqueles que ainda tinham dúvidas em quem votar no segundo turno.
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