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A eleição que pode resultar no 1° governo estadual de ultradireita da Alemanha moderna

5 set 2026 - 16h46
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Resumo
Com mais de 40% das intenções de voto na Saxônia-Anhalt, o partido de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD) pode quebrar um tabu histórico e liderar um governo estadual pela primeira vez no pós-guerra. O avanço da legenda antissistema ameaça o domínio dos conservadores da CDU, enfraquece siglas tradicionais e amplia a pressão sobre o chanceler Friedrich Merz, enquanto rivais tentam articular alianças para frear a ascensão extremista às vésperas de novos pleitos regionais no país.

Pleito na Saxônia-Anhalt pode quebrar tabu e levar ultradireita a conquistar um governo estadual alemão pela 1° vez no pós-guerra. Com 40% em pesquisas, AfD está bem à frente de rivais, que lutam para segurar eleitores.Os olhos da Alemanha estarão voltados para o leste do país neste domingo (06/09), quando os eleitores do estado da Saxônia-Anhalt vão às urnas para eleger a nova composição do Parlamento regional e, consequentemente, o novo governador local.

Ulrich Siegmund, da AfD. Será ele o próximo governador da Saxônia-Anhalt?
Ulrich Siegmund, da AfD. Será ele o próximo governador da Saxônia-Anhalt?
Foto: DW / Deutsche Welle

Com pouco mais de dois milhões de habitantes e majoritariamente rural, a Saxônia-Anhalt raramente atraiu atenção nacional pelas suas eleições locais nas últimas décadas, mas desta vez o pleito tem potencial de ser um dos mais impactantes da Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

De acordo com pesquisas, o partido antissistema e de ultradireita Alternativa para a Alemanha (AfD), conhecido pelas suas bandeiras anti-imigração, pode conquistar de 40% a 43% dos votos no pleito -bem à frente de siglas centristas, e com chances de formar maioria legislativa e assim indicar o governador.

O potencial resultado representaria a quebra de um tabu na Alemanha, que no pós-guerra não viu nenhum partido tão à direita como a AfD liderar um estado. Pesquisas ainda mostram que legendas tradicionais que lideraram a Saxônia-Anhalt nas últimas décadas também devem sair enfraquecidas.

Mesmo registrando crescimento nas urnas em diversos estados alemães na última década, a AfD nunca conseguiu porcentagens suficientes ou formar alianças para liderar um governo estadual. Agora, o pleito na Saxônia-Anhalt é visto como uma das melhores chances para a legenda.

Para o governo nacional do chanceler federal Friedrich Merz, que sofre com reprovação recorde em meio a uma economia estagnada, a eleição também é vista como um teste.

O governo da Saxônia-Anhalt é liderado desde 2002 por um governador do partido do chanceler, a conservadora União Democrata-Cristã (CDU). Uma vitória decisiva da AfD não só marcaria o fim do longo reinado estadual dos conservadores no estado, mas também tem potencial de elevar a pressão sobre Merz, cujo governo, que tomou posse em 2025, vem testemunhando o crescimento da AfD em várias eleições estaduais realizadas desde então.

Em novembro de 2018, quando disputava o posto de presidente da CDU, Merz havia prometido que, sob sua liderança, o apoio eleitoral à AfD poderia ser "reduzido pela metade". À época, a AfD contava com 14% nas pesquisas nacionais e havia recebido 24,3% dos votos na mais recente eleição estadual da Saxônia-Anhalt. Quase oito anos depois da fala, a AfD tem aparecido com entre 27% e 29% das intenções de voto nacionais e, pela primeira vez, pode romper a marca de 40% dos votos num pleito estadual.

Raixo-X da Saxônia-Anhalt

A Saxônia-Anhalt fica no território que compunha a antiga Alemanha Oriental comunista. Mais de 35 anos após a reunificação do país, essa região tem sido o principal reduto da AfD do país.

O Leste também é mais empobrecido que a maior parte das regiões do Oeste, e a Saxônia-Anhalt é o estado com a menor renda per capita da Alemanha, além de ter a expectativa de vida masculina mais baixa do país e uma taxa de desemprego mais alta que a média nacional.

A partir da década de 1990, a paisagem econômica do estado foi marcada pela perda de postos de trabalho na indústria e mineração, além de um intenso êxodo de jovens para o oeste, que levou a população a cair de quase 2,9 milhões em 1990 para 2,1 milhões em 2025. O estado também é visto como menos atraente por migrantes, e a proporção local de estrangeiros na população é de 7,9%, abaixo da média nacional de 17%.

Desde o fim do regime comunista, em 1990, a Saxônia-Anhalt foi governada majoritariamente por administrações lideradas pela conservadora CDU, com apenas um intervalo de quase oito anos entre 1994 e 2002, quando o Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, controlou o posto de governador. Atualmente, o governador local é Sven Schulze, da CDU, que busca a reeleição.

Em alta, AfD é classificada como "extremista" na Saxônia-Anhalt

Fundada em 2013, inicialmente como uma sigla eurocética de tendência liberal, a AfD rapidamente passou a pender para a ultradireita, especialmente após a crise dos refugiados de 2015-2016. Conhecida pelas bandeiras anti-imigração, a legenda permanece sob vigilância nacional de órgãos de inteligência por suspeita de abrigar extremistas.

Na Saxônia-Anhalt, o diretório estadual da AfD, assim como de outros estados orientais, é oficialmente classificado desde 2023 como uma "organização extremista de direita confirmada" pelo Departamento de Proteção da Constituição do estado, que monitora de perto as atividades dos seus membros. Nos últimos meses, reportagens da imprensa alemã apontaram conexões de alguns filiados do partido com grupos neonazistas.

O candidato da legenda ao posto de governador é o deputado estadual Ulrich Siegmund, de 35 anos, um vendedor de perfumes que começou a ganhar proeminência local em 2021 ao lançar uma conta no TikTok, na qual passou a reclamar das restrições impostas pelo governo durante a pandemia de covid-19.

No início de 2024, foi a vez de Siegmund ganhar destaque nacional quando uma reportagem o apontou como participante de uma reunião secreta entre figuras de alto escalão da AfD e o extremista de direita austríaco Martin Sellner, no qual foram discutidos planos de "remigração" de estrangeiros e de cidadãos alemães com origem migrante.

Com o slogan de campanha "Tudo é possível", Siegmund tem feito campanha para tentar mais do que dobrar os 20,8% dos votos recebidos pela AfD no estado em 2021. Em agosto, a revista semanal Der Spiegel estampou na sua capa uma foto de Siegmund com o título O homem mais perigoso da Alemanha. O político da AfD passou a ironicamente autografar exemplares da revista em comícios.

Com a AfD perto do poder como nunca no estado, os olhos da imprensa alemã também se voltaram para o programa do partido. Nele, há propostas como o fim do direito de asilo e uma moratória na imigração de fora da União Europeia, mas eles dificilmente poderiam ser implementados, já que são temas federais. Mas, em áreas como educação e segurança, nas quais os estados alemães têm bastante autonomia, um eventual governo da AfD poderia ter mais influência.

Na Saxônia-Anhalt, a AfD quer permitir o ensino domiciliar, além de promover aulas de russo e abolir a "inclusão" de alunos com necessidades especiais em turmas mistas.

Há também planos para combater "linguagem neutra", "doutrinação" e proibir escolas de hastear a bandeira LGBT do arco-íris e garantir que elas hasteiem a bandeira alemã.

Há ainda uma proposta de reformulação do currículo escolar para reduzir a presença da "cultura da memória", focada nos crimes do período nazista, e, em vez disso, promover eras de "sucesso", ou que um membro da AfD local chamou de "Mais Bismarck e menos Hitler", em referência ao chanceler alemão Otto von Bismarck, que forjou o antigo Império Alemão (1871-1918).

Na área de segurança, a AfD local também defendeu a formação de uma "patrulha cidadã" para auxiliar a polícia. O plano gerou alarme em sindicatos de polícia, que levantaram o temor de formação de "justiceiros". O partido ainda propôs converter um centro de acolhida de refugiados no estado em um centro de detenção, e responsabilizar financeiramente igrejas que acolherem solicitantes de asilo.

No plano administrativo, membros da legenda falam em ocupar 200 postos-chave da máquina pública, além de promover mudanças profundas na agência de inteligência estadual, justamente aquela que classifica a AfD como "extremista". Pelos planos, a agência deixaria de ser usada para enfraquecer "a oposição patriótica" e seria redirecionada para tarefas "mais clássicas", como "contraterrorismo".

Como os outros partidos tentam reagir

No poder há pouco mais de seis meses, o atual governador Sven Schulze, da conservadora CDU, tem lidado com uma campanha desafiadora. Além de ter que lidar com o crescimento da AfD, ele ainda tenta fixar sua imagem entre os eleitores após suceder o outrora popular governador Reiner Haseloff, que ficou quase 15 anos no cargo.

Sob Schulze, a CDU tem aparecido 20 pontos atrás da AfD. Com Friedrich Merz sofrendo com impopularidade em toda a Alemanha, o governador tratou de esconder o líder alemão da sua campanha, preferindo exibir o apoio do influente governador da Baviera, Markus Söder.

Schulze também tentou se vender tanto como "pragmático" para eleitores mais centristas, como também endurecer em alguns temas como imigração e segurança, mas argumentando que o programa da AfD "não é uma solução".

Num debate, Schulze ainda acusou o rival Siegmund de não ter propostas para a falta de mão de obra no estado. Já o chanceler Merz fez uma pequena intervenção na eleição nesta semana, alertando que a chegada dos ultradireitistas ao poder afugentaria investidores. No entanto, a estratégia não tem levado a CDU a reagir de maneira decisiva nas pesquisas.

Para outros partidos, a maioria contando com apenas um dígito nas pesquisas, a eleição passou a ser vista como uma prova de sobrevivência. No momento, apenas a legenda A Esquerda, fundada em parte por ex-membros do partido comunista da Alemanha Oriental, aparece com chances de crescer, com entre 12% e 13% dos votos em pesquisas, acima dos 10% obtidos em 2021.

Já o Partido Social-Democrata (SPD), que encolhe no estado há anos, arrisca uma nova queda, obtendo apenas 7%. Para os Verdes e membros do Partido Liberal Democrático (FDP, na sigla em alemão), pesquisas indicam que os partidos arriscam ficar abaixo da cláusula de barreira de 5% e assim não garantirem assentos no parlamento estadual.

A formação de um governo na Saxônia-Anhalt

Na Alemanha, a formação de governos estaduais também é parlamentarista. Um partido que obter mais da metade dos assentos na Assembleia Legislativa conquista o posto de governador do estado. Mas, como nem sempre um partido sozinho conquista tantos assentos, muitas vezes é preciso que legendas formem coalizões para governar.

Atualmente, Schulze, da CDU, governa a Saxônia-Anhalt numa coalizão com o SPD e os liderais do FDP, que juntos detêm 58 das 97 cadeiras na Assembleia.

Dificilmente o governo Schulze tem chances de continuar no atual desenho, já que a CDU deve ficar bem abaixo da marca de 37% obtida em 2021, além de provavelmente ver seu aliado FDP excluído do Assembleia Legislativa pela cláusula de barreira.

Pela forma que a eleição caminha, de acordo com as pesquisas, quase todos os outros partidos com chances de garantir cadeiras teriam que se unir numa coalizão para formar um governo de maioria e assim isolar efetivamente a AfD.

Mas essa costura acabaria tendo que incluir partidos de todos matizes, como a CDU, o SPD, os Verdes e, crucialmente, a legenda A Esquerda. Só que liderança da conservadora CDU já afirmou que não pretende se unir formalmente com A Esquerda para tentar formar um governo de maioria.

Com pesquisas apontando entre 40% e 43% das intenções de voto para a AfD, os ultradireitistas ainda aparecem aquém da marca de mais da metade dos assentos no Parlamento da Saxônia-Anhalt para garantir a formação de um governo próprio de maioria.

Mas, dependendo do resultado das urnas, a AfD pode não vir a precisar de 50% para conseguir hegemonia. Isso por causa da cláusula de barreira que ameaça partidos como o FDP e o populista de esquerda BSW.

Num cenário em que 9% dos votos totais acabarem indo para partidos barrados, cadeiras seriam redistribuídas para partidos que ultrapassaram a marca. Assim, a AfD pode vir a precisar de apenas 45,5% dos votos para garantir maioria. A porcentagem pode cair para 42,5% caso os Verdes, marcando entre 5% e 6% nas pesquisas, ficarem de fora.

No sistema alemão, um governo também não precisa necessariamente ser de maioria para funcionar e atualmente há dois governadores no país (Saxônia e Turíngia) que lideram administrações de minoria. Tal tipo de governo, no entanto, é normalmente instável, tendo que negociar projetos caso a caso.

Apesar da ascensão da AfD, o conservador Schulze ainda tem chances de permanecer na chefia do Executivo liderando um governo de minoria, caso a AfD não conquiste maioria isolada no Parlamento.

Já a AfD, mesmo caminhando para ficar à frente de todas as legendas rivais, tem um cenário mais complicado para conseguir formar um governo de minoria. Isso porque o partido ainda precisaria de uma aprovação inicial da maioria dos deputados do Parlamento local para formar essa administração. Conservadores, social-democratas, verdes e membros da Esquerda já avisaram que não pretendem deixar isso acontecer, e que devem fornecer seus votos para Schulze.

O único cenário viável para um governo de minoria da AfD seria no caso de o partido BSW, de esquerda socialmente conservadora, conseguir superar a cláusula de barreira de 5%, o que por enquanto não parece viável nas pesquisas. A legenda, fundada pela ex-comunista Sahra Wagenknecht, foi a única que sinalizou que pode dar os votos decisivos para a AfD.

Próximas eleições: Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental e Berlim

A Alemanha ainda será palco de mais duas eleições estaduais, em 20 de setembro, na cidade-estado de Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Com 1,6 milhões de habitantes e também localizado no leste alemão, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental deve ser palco da mesma dinâmica da Saxônia-Anhalt, segundo pesquisas: crescimento robusto da AfD e declínio de conservadores, social-democratas, verdes e liberais.

No momento, Mecklemburgo é governado por uma coalizão de social-democratas e membros da Esquerda. Pesquisas mostram que a AfD deve formar a maior bancada no estado, conquistando entre 35% e 37% dos votos, mas, ao contrário da Saxônia-Anhalt, o cenário parece mais improvável para um governo da sigla, e os social-democratas, que governam desde 1998, têm maiores chances de permanecer no poder, ainda que na liderança de um governo de minoria.

Já em Berlim, a AfD tem chance de dobrar seu eleitorado de 9% na última eleição em 2023 para 18%. No entanto, na capital, os olhos do mundo político não estão voltados para a performance da ultradireita, mas para o duelo entre o partido A Esquerda e a CDU, que lideram as intenções de voto numa campanha pulverizada que foi dominada por temas como custo de vida e a crise da habitação da cidade.

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