A catástrofe humanitária de Oleshky, na Ucrânia ocupada
A cidade ucraniana de Oleshky está ocupada por tropas russas. Muitos civis ucranianos permanecem lá, isolados e enfrentando a fome, enquanto o governo em Kiev tenta resgatá-los.A situação na cidade de Oleshky, ocupada pela Rússia, é crítica. Com a destruição da barragem de Kakhovka, no sul da Ucrânia, em 2023, a cidade foi inicialmente inundada e depois bombardeada. Hoje, está praticamente isolada.
Mesmo assim, segundo a administração militar ucraniana, ainda vivem nela cerca de 2 mil pessoas, em sua maioria aposentados e pessoas com mobilidade reduzida, além de 47 crianças.
Antes da invasão da Ucrânia pela Rússia, Oleshky tinha 24 mil habitantes e ficava numa área turística popular. Das 13 regiões do município, cinco foram completamente destruídas pela ocupação russa, e nas demais ainda há habitantes.
Oleshky se tornou uma armadilha
Hoje é quase impossível deixar Oleshky. A cidade e todas as estradas de acesso foram minadas pelo exército russo. A ponte Antonivka, sobre o rio Dnipro, que ligava Oleshky à capital regional, Kherson, sob controle ucraniano, já não existe, pois foi destruída pelos russos em novembro de 2022, após sua retirada da margem direita para a margem esquerda do rio.
"Em Oleshky, as pessoas morrem por causa de minas, impactos diretos em casas ou estilhaços de granadas", relata à DW Ksenia Arkhipova, que viveu na cidade e atualmente ajuda na retirada de moradores. "O hospital funciona com geradores, mas praticamente não há combustível. Operações complexas, como amputações após explosões de minas, são impossíveis."
Isso também é confirmado por Natalia, que viveu um ano e meio sob a ocupação russa e deixou Oleshky após a destruição da barragem. "As pessoas mal conseguem sobreviver, não têm eletricidade nem água. Medicamentos quase não chegam; alimentos são raros e, quando chegam, todos enfrentam longas filas para comprar algo, apesar de terem pouco dinheiro. Minas estão nas margens das estradas e explodem quando alguém passa de bicicleta ou a pé - muitas pessoas morrem assim", diz.
Natalia mantém contato com parentes e conhecidos na cidade, já que Oleshky ainda está dentro do alcance da rede móvel ucraniana devido à proximidade com Kherson. Para carregar seus celulares, as pessoas usam painéis solares deixados em casas parcialmente destruídas. No entanto, segundo Natalia, essa comunicação é extremamente perigosa. Chips de celular ucranianos são proibidos nas áreas ocupadas, assim como qualquer contato com o lado ucraniano.
Kiev quer um corredor humanitário
No inverno europeu passado, Oleshky ficou ainda mais isolada. As estradas estavam a tal ponto minadas que muitos comerciantes deixaram de transportar alimentos para a cidade por temerem pela própria vida. Isso levou, em fevereiro, a um colapso quase total do abastecimento, segundo Tetiana Hasanenko, chefe da administração militar da região de Kherson.
"A partir de março a situação passou a ser praticamente de fome em Oleshky, já que de meados de janeiro até fevereiro quase não chegaram alimentos. Só no dia 4 de maio chegou um caminhão com provisões, e não houve mais entregas. Sem eletricidade, as pessoas cozinham no fogo aberto, e as geladeiras não funcionam", relata.
Segundo Hasanenko, o governo ucraniano quer resgatar as pessoas em Oleshky. Os esforços nesse sentido são liderados pelo Ministério do Exterior, pelo comissariado de direitos humanos e também por organizações humanitárias internacionais. Discute-se a criação de corredores humanitários, mas eles não dependem apenas da Ucrânia.
Hasanenko acusa a Rússia de usar a população civil como escudo humano e afirma que um corredor humanitário só seria possível sob supervisão internacional, como da ONU ou do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
À espera do cessar-fogo
O comissário ucraniano de direitos humanos, Dmytro Lubinets, fala em catástrofe humanitária. "Faltam alimentos, medicamentos e água potável." No início de março ele recebeu pedidos de ajuda de moradores e recorreu ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha, além de dialogar com a então comissária de direitos humanos russa, Tatiana Moskalkova.
Segundo Lubinets, no fim de abril o CICV se declarou pronto para fornecer os ônibus para a retirada dos moradores. A Ucrânia então coordenou os aspectos técnicos de uma evacuação de Oleshky e vilarejos vizinhos na margem direita do rio Dnipro, afirmou Lubinets à imprensa ucraniana. O plano é levar cerca de 6 mil civis, incluindo 200 crianças, a um local seguro. Mas Kiev ainda aguarda que Moscou defina uma data para o cessar-fogo, para que a retirada possa começar.
O comissário ucraniano de direitos humanos está tentando chamar a atenção da comunidade internacional para a situação em Oleshky. O Ministério do Exterior anunciou que pretende apresentar a precária situação humanitária em Oleshky à ONU e à Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).
"Apelamos urgentemente à comunidade internacional para que tome medidas concretas para salvar nossos cidadãos na parte temporariamente ocupada da região de Kherson", afirmou o Ministério do Exterior.
Busca por rotas de saída
Enquanto as autoridades negociam, alguns moradores tentam fugir por conta própria. A ativista Ksenia Arkhipova ajuda nesses esforços. "Avançamos a cada 100 metros verificando minas, e só depois permitimos que um veículo siga. Retiramos de sete a 12 pessoas por semana." Essa operação é financiada pela ONG Save Ukraine.
Segundo ela, as pessoas são levadas para Skadovsk, também na Ucrânia ocupada, e depois, via Rússia, até a fronteira ucraniano-belarussa - o caminho mais seguro para alcançar território controlado por Kiev.
"Mas só quem tem documentos pode sair", alerta. Quem os perdeu precisa esperar novos documentos, emitidos pela força de ocupação. "Pessoas sem documentos, que perderam tudo, não passam pelos postos de controle. Eu aconselho que obtenham passaportes russos apenas para poder fugir, mas os russos exigem que três vizinhos confirmem sua identidade. Onde conseguir isso?", questiona.
Essas pessoas acabam ficando retidas em Skadovsk. Famílias com crianças também enfrentam dificuldades, pois é necessário fazer um passaporte russo para os menores. Elas também precisam passar meses em Skadovsk, até conseguirem os documentos.
Sair das áreas ocupadas é praticamente impossível para quem tem apenas o passaporte ucraniano. "Quem tentar vai enfrentar controles terríveis, de seis a sete horas", diz Arkhipova. Segundo ela, as autoridades da ocupação elevaram sistematicamente as barreiras, fazendo com que muitos portadores de documentos ucranianos fiquem retidos na região.
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