A ascensão da China e o desafio brasileiro nos rankings universitários
A comparação entre CWUR, QS e Elsevier mostra uma ascensão chinesa consistente, mas também expõe os limites de transformar rankings em diagnóstico simples de qualidade universitária
A queda de universidades brasileiras em rankings internacionais costuma ser noticiada como se fosse uma radiografia direta da qualidade nacional. Não é. Rankings são medidas relativas, com metodologias próprias, mudanças de cobertura e pesos diferentes para reputação, pesquisa, inserção internacional e impacto bibliométrico. Ainda assim, quando indicadores distintos apontam na mesma direção, eles podem revelar alterações estruturais importantes. Esse é o caso da ascensão chinesa.
Recentemente, C. Figueiredo e colaboradores publicaram aqui no The Conversation Brasil a análise "Universidades brasileiras perdem espaço nos rankings internacionais, e maior alerta é nas instituições fluminenses". O artigo chama atenção para a perda de posições das instituições brasileiras e, em particular, para a situação das universidades do Rio de Janeiro.
Aqui, ampliamos essa discussão. Em vez de observar apenas as universidades brasileiras, comparamos a evolução de Brasil, China, Rússia, França e Estados Unidos em três bases distintas: dois rankings institucionais, QS e CWUR, e um indicador bibliométrico baseado em pesquisadores altamente citados, associado à Elsevier. A pergunta central é como a posição relativa do Brasil evoluiu diante da ascensão chinesa e de sistemas científicos já consolidados.
China e Brasil são o contraste principal da análise. Estados Unidos e França foram incluídos como referências de sistemas universitários historicamente dominantes, enquanto a Rússia permite comparar o Brasil com outro membro dos BRICS, embora sob condições institucionais e geopolíticas muito diferentes.
O CWUR: perda brasileira e avanço chinês
O Center for World University Rankings (CWUR) classifica as duas mil universidades mais bem colocadas em um universo de dezenas de milhares de instituições avaliadas. Em 2026, foram consideradas 21.291 instituições. O ranking combina dimensões de educação, empregabilidade, corpo docente e pesquisa; por isso, sua leitura é particularmente útil quando o foco é a posição acumulada de universidades no sistema mundial.
Para reduzir o ruído de oscilações individuais, usamos a mediana das posições mundiais das dez universidades mais bem colocadas de cada país. Entre 2022-23 e 2026, a China foi a única entre os cinco casos que apresentou ganho relevante: a mediana de suas dez melhores universidades melhorou 35,5 posições. O Brasil perdeu 13 posições; a França, 2,5; os Estados Unidos ficaram praticamente estáveis; e a Rússia perdeu 55,5 posições.
O resultado não significa que uma universidade chinesa isolada tenha necessariamente se tornado superior a qualquer instituição de outro país. Significa que, na parte alta da distribuição, o conjunto das universidades chinesas avançou de maneira sistemática. É justamente esse caráter coletivo que torna a tendência mais relevante do que a melhora de uma única universidade.
A China não sobe apenas com a sua universidade líder
A evolução chinesa fica ainda mais nítida quando o recorte é ampliado. A mediana das dez melhores universidades chinesas passou de 99,5 para 64,0 no CWUR. Entre as vinte melhores, a mediana caiu de 158,5 para 122,0. Como posições menores representam melhor desempenho, as duas séries indicam avanço: 35,5 posições para o grupo das dez e 36,5 para o grupo das vinte.
Esse ponto importa porque distingue "efeito de vitrine" de fortalecimento sistêmico. O avanço das vinte melhores acompanha o das dez melhores, o que sugere que a melhora não está restrita a Tsinghua, Pequim ou a um punhado de instituições já consolidadas. A China vem alargando a densidade de sua elite universitária.
QS e Elsevier: duas lentes diferentes
O QS mede universidades com uma arquitetura diferente da do CWUR, atribuindo peso importante a reputação acadêmica, reputação entre empregadores, internacionalização e outros indicadores. Já a base Stanford-Elsevier não é um ranking de universidades: identifica pesquisadores de alto impacto no_ Scopus _por subárea, combinando citações, índices de citação e posições de autoria em um indicador composto. A edição mais recente disponível mede citações recebidas em 2024; a comparação aqui a confronta com 2019.
Na terceira figura, o indicador é a variação absoluta da mediana da posição da elite nacional, e não uma variação percentual. Essa escolha é deliberada. Percentuais de ranking distorcem comparações entre países próximos do topo e países na faixa 500 ou 600. Assim, números negativos representam melhora; positivos, piora. Os períodos não são idênticos: QS compara 2022 a 2027, CWUR compara 2022-23 a 2026 e Elsevier compara 2019 a 2024. O objetivo não é transformar os três índices em uma escala única, mas verificar a direção da mudança em cada um deles.
A leitura conjunta é clara em um ponto: a China melhora nos três instrumentos. No QS, sua elite universitária avança; no CWUR, o ganho é mais acentuado; e na base Elsevier há forte melhora da posição mediana de seus dez pesquisadores mais bem classificados no impacto anual. A convergência entre ranking institucional e bibliometria individual reforça a interpretação de que não se trata apenas de mudança cosmética de metodologia.
O Brasil apresenta uma situação diferente. No CWUR, há perda de posição; no QS, a mediana também piora em termos absolutos; e, na Elsevier, a elite científica selecionada no recorte perde posição. Isso não autoriza concluir que a ciência brasileira "piorou" de modo simples ou homogêneo. A produção científica nacional continua ampla e várias universidades mantêm desempenho de destaque em áreas específicas. O que os dados mostram é uma perda relativa de espaço diante de sistemas que avançam com maior velocidade, sobretudo a China.
A Rússia apresenta uma deterioração muito acentuada no QS e no CWUR, mas a ausência de um resultado diretamente comparável no indicador Elsevier impede uma avaliação plenamente simétrica entre os três índices. Nesse caso, a própria atribuição institucional dos pesquisadores tornou-se especialmente sensível: mudanças de vínculo, mobilidade internacional e reorganizações institucionais podem alterar contagens e posições sem corresponder apenas a mudanças na produção científica.
A França, por sua vez, mostra perda de posição nos três indicadores, com destaque para o recuo no índice Elsevier. Isso não significa que tenha deixado de ser um dos grandes polos científicos mundiais, mas sugere perda relativa de espaço diante da expansão acelerada de outros sistemas, sobretudo o chinês. Os Estados Unidos permanecem essencialmente estáveis no período analisado, enquanto a China é o único caso de melhora consistente e substancial nos três índices.
O que os rankings permitem dizer - e o que não permitem
A conclusão não é que rankings sejam sentenças definitivas sobre países ou universidades. Eles não medem adequadamente ensino de graduação, impacto social local, extensão, diversidade, formação de profissionais ou relevância de campos menos citados. Também não identificam causalidade: não é possível atribuir uma mudança de posição a uma única política pública. Mas eles são úteis para detectar tendências quando usados com método, transparência e mais de uma fonte.
A mensagem principal é simples. A China não aparece em ascensão apenas em um ranking, nem apenas por uma universidade de exceção. Ela avança no CWUR, no QS e na bibliometria de pesquisadores de alto impacto, e seu avanço alcança tanto as dez quanto as vinte melhores instituições. O Brasil, por sua vez, não pode tratar a perda relativa como mero acidente anual: ela é um sinal para proteger financiamento, infraestrutura, carreiras científicas e a capacidade das universidades públicas de competir internacionalmente.
Metodologia e fontes
Em CWUR e QS, cada país foi representado pela mediana das posições mundiais de suas dez universidades mais bem colocadas. Quando uma edição apresentou intervalos de posição, foi usado o ponto médio do intervalo. Na base Stanford-Elsevier, selecionaram-se os dez pesquisadores por país com melhor posição no indicador anual de impacto, baseado em citações recebidas no ano, e calculou-se a mediana de suas posições. A comparação Elsevier usa afiliação institucional, não nacionalidade. Os valores devem ser lidos como movimentos relativos em listas internacionais, não como medidas diretas de qualidade absoluta.
O autor agradece a Leonardo Tinoco, da PR2/UFRJ, pelas inúmeras discussões sobre os rankings.
João Torres de Mello Neto recebe financiamento do CNPq, FAPERJ e CAPES.
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