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"Realizei um sonho”, diz biólogo trans do Butantan

Conheça Eli Campos de Oliveira, que enfrentou muito preconceito antes de trabalhar no centro de pesquisa referência no Brasil

17 mai 2022 05h00
| atualizado em 20/5/2022 às 17h30
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Falta de representatividade fez Eli demorar a se reconhecer como homem trans
Falta de representatividade fez Eli demorar a se reconhecer como homem trans
Foto: Comunicação Butantan

Eli Campos de Oliveira, 33 anos, realizou um sonho de infância quando foi contratado para ser tecnologista no Laboratório de Coleções Zoológicas do Instituto Butantan. “Sempre gostei de animais, plantas e insetos, amava ler sobre eles e sonhava desde cedo trabalhar nessa área, em busca de novas descobertas para benefício da sociedade”, lembra.

Filho de pais trabalhadores e humildes, Eli foi criado em Jardim Santo Antônio, em Osasco, na Grande São Paulo. Para orgulhar a família, que sempre se esforçou para lhe dar tudo, Eli focou sua vida nos estudos. Formou-se em Ciências Biológicas pela Universidade Paulista em 2011 e, sete anos depois, começou a trabalhar no Instituto Butantan. Fez a sua transição de gênero dentro da instituição, onde foi acolhido pelos colegas de trabalho. A primeira vez que viu seu nome social ser respeitado, aliás, foi no Butantan, no seu crachá.

Apesar de começar a perceber que era diferente das outras pessoas ainda na infância, a falta de representatividade fez Eli demorar para se reconhecer como homem trans. “Nunca gostei de vestidos e saias, não gostava de boneca e quando queria brincar com algo classificado de menino era repreendido. Minha brincadeira favorita passou a ser no jardim em contato com as plantas e pequenos insetos. Não sabia nomear a diferença existente entre mim e os demais, mas aquilo era crescente”, conta.

Crachá com foto e nome social: "Me reconheci pela primeira vez como pessoa"
Crachá com foto e nome social: "Me reconheci pela primeira vez como pessoa"
Foto: Comunicação Butantan

Dos 7 aos 11 anos viveu um conflito silencioso e solitário: se via como menino, mas não contava para ninguém por sentir medo de como seria tratado. Aos 11 percebeu que se atraía por meninas. “Meus pais sempre demonstraram falta de compreensão em relação a sexualidades e identidade de gênero. E eu os amava muito a ponto de achar que ser LGBT seria uma grande decepção para eles. Continuei com toda angústia de tentar lidar com tudo isso sozinho. Me mantendo longe de qualquer tipo de relacionamento, até de amizades”.

Aos 16 anos, contou para seus pais, que não tiveram a melhor reação. “Demorou um certo tempo para que as coisas se acalmassem e tivéssemos uma relação boa”, desabafa. Já na fase adulta, Eli começou a ler identidade de gênero e, pela primeira vez, teve uma resposta para toda angústia que sentiu na vida. Começou a fazer terapia para lidar com os conflitos e com a depressão. Seu entendimento como homem trans começou em 2016, mas só em 2021 teve coragem de contar para as pessoas ao seu redor.

Antes de chegar no Butantan, Eli enfrentou muita LGBTfobia. “Temos que lutar para sempre sermos melhores e, mesmo assim, muitas vezes foi preciso um hétero cis para afirmar minha fala ou trabalho para que eu tivesse algum reconhecimento. O mercado de trabalho é muito injusto, ainda prevalecem os cisgêneros, héteros e brancos”, detalha. “Hoje me sinto privilegiado de estar numa empresa diferente das demais que já trabalhei, onde não tive nenhum problema quanto à minha identidade de gênero”.

Desafios no mercado de trabalho foram muitos até chegar ao Butantan
Desafios no mercado de trabalho foram muitos até chegar ao Butantan
Foto: Comunicação Butantan

Na vida social os desafios também existiram. Precisou enfrentar dentro da própria família piadas, olhares de reprovação e erros no pronome e no nome. “É uma luta constante para ser reconhecido pelo que você é, lutar diariamente  por ter um espaço e ter seu direito de existir, não apenas de sobreviver”, define.

Em uma palestra sobre comunicação inclusiva, Eli decidiu contar aos colegas de trabalho que era um homem trans. O acolhimento foi imediato. Viu seu nome social e sua foto juntos pela primeira vez no crachá do trabalho. “Eu não parava de olhar para ele e chorei demais por vários minutos segurando ele, eu me reconheci pela primeira vez como pessoa ali”, se emociona. E completa: “O Instituto foi minha salvação durante grande parte da minha vida, pois me dedicar aos estudos e estar ali serviu de sustento quando pensei em desistir muitas vezes. E naquele momento eu não precisava mais performar uma pessoa que eu não era. Estava livre para ser eu: Eli, o biólogo”.

Fonte: Redação Nós
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