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Ser mulher, negra e cega me faz lutar todo dia por direitos

Quando eu descobri a interseccionalidade, ela já era parte do meu ser

3 jun 2022 - 05h00
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Eu pertenço a grupos que precisam lutar diariamente contra o sistema na busca de seus direitos
Eu pertenço a grupos que precisam lutar diariamente contra o sistema na busca de seus direitos
Foto: Arquivo pessoal

Sendo mulher sou silenciada, como negra tenho direitos negados e enquanto pessoa com deficiência nem sou considerada. Essas negligências são reflexo de uma sociedade que estruturalmente condiciona identidades minoritárias ao fracasso, desconsiderando assim as características que compõe esses corpos.

Antes de compartilhar um pouco sobre a minha relação com a interseccionalidade, faço uma pergunta: você sabe o que significa essa palavra? De acordo com Kimberlé Williams Crenshaw, professora afro-americana e criadora do conceito, as interseccionalidades são “formas de capturar as consequências da interação entre duas ou mais formas de subordinação: sexismo, racismo, patriarcalismo(...)”. Sendo assim, de acordo com o que esse conceito tenta estudar, eu Nathalia não sou só mulher, sou também negra, pessoa com deficiência e mãe. Esses recortes individuais são alguns fragmentos de um todo que compõe a minha identidade.

Quando eu descobri a interseccionalidade ela já era parte do meu ser, pois estando inserida numa sociedade estruturalmente machista, racista, capacitista (…) tenho minhas experiências de vida diretamente afetadas por essas negligências que são criadas a partir das intersecções. Se eu enquanto mulher cisgênero enfrento socialmente o sistema patriarcal, que defende a inferiorização da mulher em relação ao homem (branco cis hétero), como negra enfrento o racismo que estruturalmente violenta e retira direitos de corpos não brancos. Esses dois fatores são diretamente sobrepostos pela cegueira quando incluímos o fato de eu ser uma pessoa com deficiência, visto que a sociedade não só invisibiliza, mas também inviabiliza qualquer autonomia para atividades cotidianas de uma pessoa com deficiência.

A cidade, a sociedade e a estrutura não são feitas e tampouco pensadas para o diferente, imagine carregar consigo sem possibilidade de dissociação vários rótulos que são atrelados a tanto preconceito e desigualdade, complicado, não é? Nós estamos em 2022 e ainda é um grande tabu a presença de pessoas como eu em sociedade. A raiz desse problema está na tentativa incessante da criação de espaços destinados restritivamente à comunidade PcD, como por exemplo espaços educacionais direcionados apenas a PcD’s, o que impede a inclusão dessas pessoas na sociedade.

Estruturalmente as pessoas têm o olhar treinado para enxergar os outros a partir das interseccionalidades. Eu, por exemplo, quando chego nos lugares sou vista geralmente como uma mulher negra de pele clara e cabelos cacheados, essas são algumas das minhas características físicas. Mesmo sendo uma mulher cega, por eu ter o olhar “vivo” a minha deficiência se torna quase que imperceptível, quando eu sinalizo isso para as pessoas, automaticamente passo a ser referida como “a Nathalia, que é cega”. Dentro das interseccionalidades, as sobreposições das intersecções se fazem de acordo com o grau de inferiorização do grupo marginalizado, e essa inferiorização determina como vão se dar as experiências diárias na sociedade de determinados corpos.

Imagine um prédio em que todos precisam chegar ao topo, enquanto um homem cis hétero branco tem a possibilidade de chegar ao topo de helicóptero, eu enquanto mulher negra com deficiência tenho reservado a mim o ponto de partida à partir do subsolo sem direito a elevador. As interseccionalidades permitem que a sociedade me julgue tanto positivamente quanto negativamente, e por eu ser uma mulher negra e cega esses julgamentos caem frequentemente num lugar de espetacularização. Dentro dessa reflexão que eu propus, se eu consigo chegar ao topo o elogio é: “olha aqui, um grande exemplo de superação… ela cega e conseguiu chegar ao topo”, mas se eu fracasso ouço: “olha lá a cega, tinha que ser… fez tudo errado e ainda é cega”.

Eu pertenço a grupos que precisam lutar diariamente contra o sistema na busca de seus direitos, as melhoras que precisam acontecer no cotidiano de uma pessoa com deficiência dependem diretamente de olhares que sejam capazes de humanizar esses corpos. Não será possível qualquer mudança se nós, pessoas com deficiências, não formos consideradas no desenvolvimento de políticas sociais que possam gerar direitos para nós. Nossas vozes precisam ser ouvidas e nossas histórias precisam ser contadas, o progresso nas lutas sociais se faz efetivo quando há apoio, respeito e atenção de outros grupos minoritários.

Fonte: Redação Nós
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