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Fotógrafa faz "diagnóstico vivo" das barreiras de acessibilidade de São Paulo

Luiza Sigulem, mulher com deficiência, ocupa e transforma uma galeria que era inacessível para colocar o direito à cidade no centro do debate artístico. "Meu trabalho não tenta resolver a cidade inteira, atua no espaço concreto, no que pode ser feito agora. Como criar lugares onde mais pessoas consigam entrar, circular, parar e permanecer?".

24 jan 2026 - 14h46
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"Você sai de casa achando que vai resolver algo rápido e o trajeto começa a se desdobrar", diz a artista visual Luiza Sigulem sobre as barreiras de acessibilidade da cidade de São Paulo. Mulher com deficiência, ela investiga as relações entre corpo, espaço e arquitetura a partir de experiências concretas de circulação e adaptação, por meio de fotografia, vídeo, intervenções espaciais e performance.

Na capital paulista, os bloqueios urbanos atrasam a vida das pessoas com deficiência. É literal. Mínimos impedimentos geram enormes obstáculos e exigem a busca constante por outros caminhos. O trajeto de um minuto dura uma hora, a ida rápida à esquina pode ser impossível e a volta no quarteirão quase nunca é uma alternativa.

"Sou uma artista que circula pela cidade de cadeiras de rodas. Isso muda o meu cotidiano de um jeito muito concreto. Muda o caminho, muda o tempo e muda a atenção que eu preciso ter para fazer coisas simples. A calçada está quebrada e você precisa ir para a rua. Em algum ponto, não tem onde atravessar e você dá a volta no quarteirão. Quando chega no destino, percebe que a entrada não foi pensada para você passar sozinho. Pode ser um degrau, uma porta estreita, um detalhe mínimo. E você acaba esperando alguém aparecer para ajudar", detalha a fotógrafa formada pelo Senac e vencedora, em 2024, do Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia.

"Nada disso parece enorme quando acontece uma vez. O problema é o acúmulo. Isso se repete o tempo inteiro. Cada deslocamento vira uma sequência de pequenas negociações. Parar, olhar, recalcular, refazer, o tempo se estica, o simples deixa de ser simples. Não é uma questão de melhor ou pior. A experiência muda completamente, dependendo de como você se desloca e, desse atrito, desse desgaste que vai se acumulando, nasceu esse trabalho", conta.

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Luiza Sigulem ocupa o Ateliê397, na Travessa Dona Paula, n° 119A, em Higienópolis, com sua segunda exposição individual, 'Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro', numa galeria que funciona dentro de uma vila, um conjunto de casas e espaços culturais no mesmo terreno.

"Quem entra ali circula entre diferentes galerias, ateliês e projetos independentes, em um pequeno percurso compartilhado. A galeria não era acessível e isso não foi um problema a ser resolvido antes de tudo ou algo a ser escondido. Na verdade, foi o ponto de partida do trabalho. Depois das intervenções que eu propus para o espaço, a experiência já começa a mudar logo na entrada. Quem anda precisa se abaixar um pouco para entrar. Esse gesto simples quebra o automático de atravessar um lugar sem perceber o próprio corpo. Dentro da galeria, as obras estão mais baixas do que o padrão. A espografia foi pensada a partir da altura de quem está sentado. Isso muda o campo de visão e reorganiza a relação de todo mundo com o espaço. Para permitir a entrada de cadeira de rodas foi construída uma rampa de madeira, de desenho simple, feita em parceria com o escritório Messina Rivas. Essa mesma parceria também foi responsável pela transposição da porta, ajustando o acesso de forma direta e funcional. A rampa foi pensada para ser fácil de reproduzir, com materiais comuns e adaptável a diferentes situações".

A exposição tem imagens táteis, para pessoas com baixa visão, textos em braile e audiodescrição. "A experiência não depende apenas do olhar. E a acessibilidade não é só conseguir entrar, é conseguir ficar. Por isso, existem bancos e almofadas. Não apenas para cadeirantes, mas para pessoas que se cansam, que não conseguem ficar muito tempo de pé, para pessoas que precisam de um pouco de descanso, até os bancos externos da vila, que estavam bastante desgastados, receberam almofadas para voltarem a funcionar como lugares de pausa", diz a artista.

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Luiza explica que as rampas usadas na galeria não ficam guardadas depois da exposição. Algumas foram doadas para outras galerias e espaços culturais da própria vila e as galerias foram convidadas a deixar a rampa depois da exposição.

"Criamos propostas concretas do que cada galeria poderia fazer dentro das suas possibilidades reais para ampliar a acessibilidade do conjunto como um todo. Hoje existem leis muito boas sobre acessibilidade, fruto de muita luta. O problema não é a falta de legislação no Brasil, mas o fato de que muita coisa ainda não é implementada no cotidiano. O meu trabalho não tenta resolver a cidade inteira. Ele atua no espaço concreto, no que pode ser feito agora. No fim, a exposição propõe uma pergunta simples. Como criar lugares onde mais pessoas consigam entrar, circular, parar e permanecer?".

SERVIÇO

Exposição: Manual para percorrer a menor distância de um ponto a outro

Artista: Luiza Sigulem

Curadoria: Juliana Caffé

Expografia: Messina | Rivas

Em cartaz: 24/1 a 28/2

Vistação: quarta a sábado, das 14h às 18h

Local: Ateliê397

Endereço: Travessa Dona Paula, n° 119A, Higienópolis, São Paulo

Entrada gratuita

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Estadão
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