Feminicídio: para psicóloga, ignorar pedidos de ajuda é falha do sistema
Doutora em saúde mental, Karen Scavacini, explica como funciona ciclo de violência e como ajudar mulheres em vulnerabilidade
O apoio familiar, psicológico e institucional é essencial para ajudar vítimas de violência doméstica a reconhecerem a situação e conseguirem romper o ciclo de violência, marcado por dependência e diversos medos.
Quando uma mulher não se torna estatística de feminicídio, acaba como vítima de outros tipos de violência, quase sempre cometidos pelo companheiro. Essa máxima, atravessa a nossa sociedade diariamente, e é preciso preciso apoio para que ela consiga sair dessa relação abusiva, conforme explica a psicóloga e doutora em saúde mental, Karen Scavacini.
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Para além do julgamento, quem está em uma situação de violência doméstica enfrenta uma série de questões, que podem envolver dependência psicológica e até financeira, como costuma ser. “Essa mulher acaba ficando mais prisioneira de toda uma situação”, reforça a especialista.
“A gente tem que ter muito cuidado até para essa mulher conseguir ter força para entender que está nessa situação. Para conseguir sair, ela precisa ter apoio, e esse apoio pode vir dessa rede de pessoas mais próximas, pode vir, às vezes, de redes de conversa, de espaços de escuta, como pode vir de um cuidado específico e especializado dentro da área da saúde mental para que pouco a pouco ela possa se entender até como alguém que não merece essa violência.”
Logo, sair desse ciclo não depende somente do querer, é difícil, mas é possível romper. “Não há uma resposta simples para uma situação complexa”, menciona.
Desigualdade de gênero contribui
Karen explica que essa realidade ocorre com a combinação obviamente perigosa da desigualdade de gênero estrutural, que também é muito cultural no Brasil, com a fragilização da rede de proteção e uma certa falha na resposta das instituições públicas que deveriam proteger a vítima.
“A gente muitas vezes não está falando de episódios que são inesperados, mas de violências, de trajetórias de violência que vão aumentando durante o tempo, vão se acumulando, desde ameaça, de controle, de humilhação e de pedidos de ajuda que muitas vezes não foram acolhidos”, aponta.
Ela também traz para esse cenário a questão de cunho mental, em que essas situações ocorrem em contextos de sofrimento psíquico, tanto nas mulheres como para suas famílias. Estão relacionadas a desregulação emocional, perda de controle, ciúme patológico, dependência afetiva e dificuldade dos homens em lidar com frustrações.
“Eu não estou querendo patologizar a violência e muito menos justificar o agressor, mas é preciso entender que a gente tem uma ausência de cuidado mental muito antiga e isso é aliado a essa desigualdade de gênero histórica. Isso vai ser um terreno fértil para essa escalada de violência”, esclarece.
O ciclo da violência doméstica
O ciclo da violência doméstica pode ser compreendido por três fases:
- Aumento da tensão;
- Ato de violência;
- Arrependimento.
No primeiro, o agressor se mostra irritado com coisas banais, humilhando e ameaçando a vítima, o que provoca nela o ato de evitar certos comportamentos que possam “provocá-lo”. É nesse contexto que a mulher é levada a pensar que fez algo para desencadear aquele tipo de comportamento violento.
Já a fase dois, é quando há a falta de controle do agressor, que pode se materializar em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial. Isso pode provocar medo, vergonha, confusão e paralisia da vítima frente à situação extrema.
A última, conhecida como a fase da “lua de mel”, o agressor se mostra arrependido e passa a ser amável a fim de reconciliar a situação. Ele promete que vai mudar. Isso também provoca na vítima uma sensação de confusão e ilusão, de que ela entendeu errado, que exagerou ao reagir à violência. Depois de um tempo, tudo se repete.
Para quem está dentro de um relacionamento abusivo, nem sempre os sinais estão claros. Muitas vezes, o controle, o ciúmes e o isolamento da família e dos amigos ditos ‘mal intencionados’ podem ser confundidos com amor. Até o lance de ‘homem provedor’ pode reforçar esse sistema de violência.
“A gente pode pensar em comportamentos de controle, ciúme excessivo, faz com que a mulher tenha um isolamento de amigos, de familiares. Às vezes ela muda, inclusive, de cidade, de emprego. Quanto mais isolada ela fica das pessoas que são vinculadas a ela, maior controle esse homem vai ter, inclusive um controle financeiro sobre essa mulher”, reforça Karen.
A vigilância constante, ameaças veladas e a desqualificação emocional do que ela está sentindo também entram nesse imbróglio. Sabe o famoso: ‘você está ficando louca’? E isso se intensifica quando não há uma interrupção, o que pode levar a casos extremos, como os de agressão física ou até feminicídio.
“Muitos desses sinais são, muitas vezes, socialmente minimizados. São confundidos com conflito de casal, com um problema que é privado, com o exagero emocional dessa mulher, e essa mulher não é vista como vítima", defesa a psicóloga.
Segundo ela, quando a mulher começa a verbalizar que está com medo, preocupada, e que se sente aprisionada ou ameaçada, já deve ser entendido como um marcador de alto risco. "Ignorar isso é uma falha de todo o sistema de proteção que deveria tomar conta dessa mulher”, aponta.
Recorde histórico de feminicídio em 2025
Quando o Brasil completou dez anos da sanção da Lei do Feminicídio, também atingiu número recorde de vítimas desse crime: ao todo, 1.518 mulheres foram mortas em 2025, o que quer dizer que quatro mulheres foram assassinadas por dia, conforme os dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O recorde anterior já havia sido atingido em 2024, com 1.458 registros.
No período de dez anos, entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram assassinadas no Brasil em crimes de feminicídio.
Um dos casos mais emblemáticos do ano passado foi o de Tainara Souza Santos, 31 anos, que morreu em 24 de dezembro, semanas depois de ser atropelada e arrastada pelo ex-companheiro Douglas Alves Silva até a Marginal Tietê, em São Paulo.
Outro caso de dezembro, foi o de Evelyn de Souza Saraiva, de 38 anos, que foi baleda pelo ex-companheiro, Bruno Lopes Fernandes Barreto, em seu local de trabalho, uma pastelaria da Rua Ushikichi Kamiya, na zona norte de São Paulo. Por sorte, ela sobreviveu. Já ele, foi preso no último dia 26, por uma equipe da Polícia Militar.
Em resposta ao grande número de casos registrados no país, os Três Poderes assinaram, no último dia 4, o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. A iniciativa tem como objetivo articular esforços entre União, estados, municípios, sistema de Justiça e sociedade civil para combater esse tipo de violência.