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"Comecei a dar aulas de pole dance pela demanda de ter uma professora gorda"

Pessoas com "corpos fora do padrão" estão mudando a prática de atividade física

1 jan 2023 - 05h00
(atualizado em 1/2/2023 às 05h00)
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Pessoas fora do padrão contam como a prática mudou suas vidas para muito melhor
Pessoas fora do padrão contam como a prática mudou suas vidas para muito melhor
Foto: Colagem digital/Natalia Nunes

Expressões como "tá pago", "endorfinada", ou "ioga para todos" aparecem diariamente em postagens nas redes sociais, acompanhadas de fotos com muito suor e musculatura à mostra. Para quem posta, o objetivo pode ser incentivar a prática da atividade física e mostrar que o movimento faz parte da rotina. Mas será que o incentivo abarca todo mundo? Corpos gordos ou fora do padrão também estão convidados para o banho de endorfina?

Ótimo para o corpo e aliado da saúde mental, o esporte pode ser altamente tóxico se vier acompanhado de falas e pensamentos gordofóbicos. Diferentemente do que diz o senso comum, o pior inimigo do exercício não é a preguiça, mas sim o julgamento alheio. Academias, galpões de crossfit e estúdios de ioga são ambientes gordofóbicos, o que afasta dos espaços uma parcela considerável da sociedade brasileira. 

Conforme publicamos em reportagem sobre gordofobia e direito ao afeto, no Brasil, 85% das pessoas gordas e gordas maiores declararam já ter sofrido gordofobia (o preconceito contra pessoas gordas), de acordo com a pesquisa Obesidade e Gordofobia — Percepções 2022, promovida pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso)  e a Sociedade Brasileira de Metabologia e Endocrinologia (SBEM).

Apesar do cenário hostil e de dados tão preocupantes, cada vez mais pessoas gordas desafiam o padrão e estabelecem uma rotina de treinamentos e atividades físicas na busca por prazer, qualidade de vida e consciência corporal, aspectos que passam longe do objetivo tão popularizado de simplesmente emagrecer.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos entre 150 e 300 minutos de atividade aeróbica por semana para pessoas adultas, com intensidade moderada a vigorosa e atesta que até 5 milhões de mortes por ano poderiam ser evitadas se a população em todo o mundo fosse mais ativa.

"Sou uma pessoa muito mais confiante depois da atividade física"

A influenciadora Patricia Avelino se sente confiante e quer continuar praticando musculação
A influenciadora Patricia Avelino se sente confiante e quer continuar praticando musculação
Foto: Reprodução/Instagram

Foi durante a pandemia que a influenciadora e criadora de conteúdo Pati Avelino, 36, começou sua relação com a prática de exercícios. "Eu não estava buscando emagrecer, o que eu queria era algo que tirasse a minha cabeça da contagem de mortos pela covid 19", relata Patrícia.

Entre a mulher que se apaixonou pela musculação e treinamento funcional e a que fugia das aulas de educação física na escola, existiu um penoso caminho com tentativas frustradas de se movimentar, quase todas marcadas pelo capacitismo que envolve o mundo do esporte. "Uma vez, em uma aula de crossfit, entrei na fila pra subir na corda, que é um tipo de exercício comum no galpão. Na hora o professor me abordou e disse que eu não precisava fazer aquilo, que eu podia ir pular corda. Eu concordei com ele, mas depois fiquei pensando em que momento isso aconteceu, dele me dizer que aquela atividade não era pra mim só de me olhar", conta ela.

A influenciadora já foi constrangida por um professor de crossfit apenas pelo seu corpo
A influenciadora já foi constrangida por um professor de crossfit apenas pelo seu corpo
Foto: Reprodução/Instagram

Para Pati Avelino, depois de situações como essa, ter encontrado um professor que não tem como objetivo o emagrecimento dela, fez toda a diferença em seus treinos atuais. "Estou descobrindo um potencial de força e de fazer coisas com o meu corpo que eu jamais imaginei. Pra mim, pensar na performance é muito importante, sair daquele lugar de ficar só fazendo adaptações eternamente e buscar uma evolução, dentro daquilo que o meu corpo mostra ser capaz," diz a influenciadora.

NÓS Explicamos: Expressões gordofóbicas para você parar de falar:

Os resultados da frequência da atividade passam - também - pelo emagrecimento, mas Pati entende que emagrecer é uma consequência do aumento do exercício na sua rotina. Para ela, questões como prazer, realização, controle de stress e a sensação de se saber capaz são os principais ganhos. "Falo sempre pras minhas seguidoras que eu não estou em busca de nada, eu tô apenas vivendo o meu corpo e curtindo no que ele está se transformando. Quero pegar mais peso, quero continuar amando a musculação e me sentindo uma super heroína", brinca Pati.

"Sofri muita gordofobia e preconceito dentro da faculdade"

O educador físico Cristiano Collyer sempre foi um homem gordo e sofreu muito preconceito na faculdade de educação física por conta disso. Em 2006, deixou Belém do Pará, sua cidade natal, e veio para São Paulo, onde começou a praticar ioga e, um ano depois, fez sua primeira formação. Desde então ele dá aulas de ioga e atua na formação de outros professores. "Trabalho em muitos cursos de formação e um dos meus objetivos é trazer a diversidade de corpos para a ioga, promovendo uma mudança na base da nossa prática. Ainda temos professores de ioga com bases de posturas muito amarradas e que só acolhem um tipo de corpo, quando o que precisamos fazer são variações para que a gente consiga acolher todos os corpos. A gente tem muito o discurso hoje em dia de que o ioga é para todes, mas os professores às vezes não sabem como receber todo mundo", afirma Collyer.

Ele reforça que a falta de acesso não se restringe à questão financeira e que a gordofobia é um fator que inibe e constrange a presença de pessoas gordas em academias e estúdios. "Pessoas gordas maiores não conseguem passar na catraca da academia e têm que enfrentar constrangimentos desse tipo. Até dentro da prática de ioga, por exemplo, existem tapetes extremamente finos que não cabem uma pessoa gorda, o bloco é super pequeno. Muita gente desiste porque não tem acesso ou é constragido". 

"Muita gente desiste porque não tem acesso ou é constrangido"
"Muita gente desiste porque não tem acesso ou é constrangido"
Foto: Reprodução/Instagram

Collyer chama a atenção para a falta de acolhimento e violências que as pessoas gordas vivenciam quando estão em busca de atividade física "É muito comum numa academia uma pessoa gorda ser recebida com a pergunta 'quantos quilos você quer emagrecer?' e às vezes a pessoa não foi com o objetivo de emagrecer. Se isso acontecer é uma consequência, mas ela foi para desestressar, para trabalhar a mente, e essa é uma pergunta com a qual infelizmente ainda são recebidas pessoas com um corpo gordo". 

Mariana de los Santos é catarinense, educadora física e psicóloga. Ela também compartilha com Cristiano a opinião de que ainda existe um longo caminho para tornar a prática esportiva mais inclusiva. "Tendo transitado e frequentado muitos ambientes de esportes e atividade física ao longo da vida, acredito que é muito mais fácil se deparar com ambientes que sejam gordofóbicos e capacitistas do que acolhedores e inclusivos. Não pela prática, mas pelos profissionais que a conduzem e muitas vezes reforçam discursos nesse sentido", diz.

"Existem muitas formas de colocar o corpo em movimento que extrapolam as academias e o crossfit"

Mariana descobriu o circo aos 17 anos, fez uma aula de tecido acrobático e se apaixonou. Começou a fazer aulas regulares de tecido e a praticar e estudar tudo o que envolvia o universo acrobático: aéreos do circo, ginástica, acrobacias em grupo, parada de mãos. "Tive a sorte de frequentar ambientes onde fui estimulada a entender que eu podia escolher minha atividade física preferida pelo prazer que ela me traria em vez do resultado ou transformação que ela geraria no meu corpo", conta.

Mesmo sendo uma mulher considerada dentro do padrão da magreza, o fato de ter praticado esportes a vida toda e se dedicar profissionalmente à atividade física deu a Mariana uma musculatura corporal que foge do padrão feminino. Mesmo magra, seu corpo atrai olhares e julgamentos depreciativos. "Ser uma mulher forte me dá uma dimensão dentre tantas do que é estar fora do padrão. Uma mulher forte (no sentido físico) é uma pessoa que causa estranhamento. É comum receber comentários sobre meu corpo fora do contexto esportivo e quase sempre num sentido pejorativo, em tom de piada. Hoje entendo que faz mais sentido me reconciliar com a força que meu corpo tem e vê-la como potência do que lutar contra ela. E por que não usar minha força para inspirar outras mulheres a mostrarem suas próprias forças e pararem de se esconder sobre o pretexto da inadequação?

A educadora física Mariana de Los Santos diz que teve sorte ao ser incentivada a escolher a atividade física por prazer
A educadora física Mariana de Los Santos diz que teve sorte ao ser incentivada a escolher a atividade física por prazer
Foto: Reprodução/Instagram

Mariana relata que sempre foi estimulada a escolher a atividade física pelo prazer que ela proporcionaria em vez do resultado que a prática poderia gerar em seu corpo. "Somos educadas a desenvolver um relacionamento ruim com nossos corpos e percebo que isso envolve inclusive mulheres com corpos considerados dentro do padrão". 

A educadora física e psicóloga fala sobre como a pressão estética afeta a autoestima e acaba sendo fator determinante para muitas mulheres que praticam esporte. "Muitas meninas não tem a sorte que eu tive e, em algum momento de suas vidas, depois de tanto sofrerem uma pressão (consciente ou não) da necessidade de se enquadrar em um padrão estético, acabam cedendo a ele e desenvolvem uma relação destrutiva com suas imagens que as acompanha até o fim da vida. Isso afeta diretamente a escolha de que atividades físicas fazemos. Acabamos nos exercitando por odiar nosso corpo e não por amor a ele". 

Como educadora, ela trabalha para mudar essa realidade "Sinto que a facilidade que tenho em colocar a atividade física em um lugar de leveza em minha vida pode influenciar outras pessoas a aprenderem a fazer o mesmo."

"O tipo de corpo não diz se você pode ou se você não pode fazer"

Influenciadora e instrutora de pole dance, Daylane Cerqueira inspira mulheres a se movimentarem no pole dance
Influenciadora e instrutora de pole dance, Daylane Cerqueira inspira mulheres a se movimentarem no pole dance
Foto: Reprodução/Instagram

A influenciadora e instrutora de pole dance Daylane Cerqueira, 35, começou a fazer pole dance há seis anos, quando estava em busca de uma atividade que a inspirasse a ter frequência. "Eu sempre fui na academia mas ia mais naqueles três primeiros meses em que você tem um gás, sabe?"

Depois de um tempo praticando o pole dance, foi convidada pela dona do estúdio a dar aulas. "Eu nunca tinha pensado em dar aulas, mas comecei também muito pela demanda de ter uma professora gorda, para mostrar pras pessoas que todo corpo pode fazer pole e que essa atividade não é só sobre acrobacia e fazer coisas mirabolantes, tem muitas outras coisas que podem ser exploradas", diz. 

Ela conta que ficou receosa com o convite, por conta de cobranças excessivas consigo mesma, uma reação comum às mulheres. "A gente sempre acha que precisa estar experiente, sabendo dar todas as dicas, didática perfeita, sabendo falar todas as técnicas, mas eu entendi que até isso você vai aprendendo no processo de ensino". 

Com olhar inclusivo para o pole dance, Daylane explica que limitações existem para todos os corpos.  "O preconceito faz as pessoas pensarem 'ah ela não consegue porque ela é gorda' e não é isso. Eu já ensinei mulheres com diversos tipos de corpos e as dificuldades variam entre todas elas. Mulheres magras também podem não ter força, não ter consciência corporal, flexibilidade. O tipo de corpo não diz se você pode ou se você não pode fazer. O que existem são histórias e a partir dessas histórias você vai entender como cada uma vai conseguir fazer as coisas", conta. 

Os benefícios da prática regular de atividade física já têm reflexos em seu corpo "Eu não sinto mais nenhuma dor nas articulações, aquelas dores por ficar muito tempo sentada ou deitada eu não sinto mais depois que eu comecei o pole."

Como influenciadora, Daylane faz postagens sobre autoestima e incentiva as pessoas a entenderem que o mundo é um lugar diverso. "Muitas mulheres e não só mulheres gordas, me procuram dizendo que eu sou uma referência para elas, e eu me sinto uma mulher mais forte, mais segura, mais sensual. Eu nunca fui magra e mesmo assim eu sempre usei as roupas que eu quis. Quando você é ousada as pessoas olham pra você e pensam 'se ela pode eu também posso.'"

Fonte: Redação Nós
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