Royal Enfield confirma Flying Flea e Continental GT 750 para o Brasil
Modelo a combustão deve estrear já em 2027, enquanto elétrica é esperada dentro de 18 a 24 meses; montagem própria em Manaus ajudará a ampliar volume
A Royal Enfield colocou dois relógios para correr no Brasil. O primeiro marca a chegada de sua nova geração de motos de 750 cc, prevista para 2027, ou, no mais tardar, 2028. O segundo conta de 18 a 24 meses até a estreia da elétrica Flying Flea. Considerando agosto de 2026 como ponto de partida, a novidade deve desembarcar entre fevereiro e agosto de 2028.
Os prazos foram revelados à reportagem em entrevista exclusiva durante o Festival Interlagos 2026, em São Paulo. Participaram da conversa Siddhartha Lal, presidente-executivo da Eicher Motors, controladora da Royal Enfield; Gabriel Patini, diretor-executivo da marca para a América Latina; e Ross Clifford, responsável pela operação nas Américas.
Embora a elétrica deva demorar um pouco mais, a Royal Enfield já começou a preparar sua pista de pouso. Duas Flying Flea foram trazidas ao país não apenas para ocupar o estande da empresa no festival, mas também para rodar com clientes e convidados. A marca quer entender como a proposta se encaixa em cidades como São Paulo, por exemplo, antes de iniciar as vendas.
"É um processo de aprendizado", resumiu Patini. A intenção é começar devagar, mirando quem já consegue recarregar a moto em casa ou no trabalho. Em outras palavras, a Flying Flea não terá a obrigação de ganhar em volume.
Flying Flea é uma elétrica feita para a cidade
Flying Flea não é o nome de um único modelo, mas de uma nova marca de veículos elétricos criada pela Royal Enfield. As duas primeiras motos são a C6, de perfil urbano e visual clássico, e a S6, uma scrambler com maior aptidão para caminhos de terra.
O desenho recupera elementos da Flying Flea original, motocicleta leve usada durante a Segunda Guerra Mundial, mas a receita agora inclui motor elétrico, bateria envolta por uma carcaça aletada de magnésio, transmissão por correia e uma incomum suspensão dianteira do tipo girder, feita de alumínio.
A ficha técnica, evidentemente, ainda não está definida. Lal, porém, trabalha com uma faixa de uso entre 100 km e 120 km por recarga, suficiente para deslocamentos urbanos e escapadas curtas para fora da cidade. A Royal Enfield chama essa proposta de "City+". Longas viagens, ao menos por ora, ficam fora da equação.
"É importante observar que os modelos exibidos ainda são conceituais. Parecem muito próximos da produção, mas ainda não estão prontos", ponderou Clifford. Segundo o executivo, trazê-los ao Brasil permite ao público "tocar, sentir e enxergar como pode ser o futuro" da fabricante no mercado que ela pretende transformar em sua segunda casa.
A GT-R funciona como laboratório e cartão de visitas do seu novo motor bicilíndrico paralelo. A Royal Enfield ainda não divulgou números definitivos, mas a expectativa é de cerca de 55 cv e 6,5 kgf.m de torque na vindoura versão de rua. O conjunto deve incluir dois discos de freio na dianteira, enquanto a identidade visual continuará próxima da atual Continental GT 650.
"Sabemos agora sobre a sazonalidade do Amazonas. Há períodos em que o rio permite o transporte e outros em que complica", explicou Lal. Segundo o executivo, o Brasil será tratado como prioridade máxima fora da Índia. A partir dos próximos projetos, o planejamento da operação local começará antes mesmo da apresentação mundial.
A nova unidade própria de montagem CKD em Manaus, prevista para entrar em operação em 2027, terá papel central nisso. A capacidade e o investimento ainda não foram revelados, mas a estrutura foi dimensionada para sustentar o crescimento da marca até perto de 2030.
Faixa Azul entra no debate
A conversa sobre motos urbanas também passou pela segurança de quem já circula nas grandes cidades, e a Faixa Azul paulistana ganhou um admirador. Ao comentar a solução durante a entrevista, Lal defendeu que a ideia atravesse as fronteiras brasileiras.
"Adorei o conceito. Gostaria de vê-lo em outros lugares do mundo", afirmou o executivo. "O motociclista não precisa ficar costurando o trânsito. É incrível poder ter um espaço, um corredor reservado para ele. De certo, isso o protege muito mais", completou.
O entusiasmo tem contexto. A Faixa Azul cria um espaço preferencial, mas não exclusivo, para motocicletas entre os demais veículos. A proposta é organizar uma circulação que já ocorre naturalmente nos corredores e, com isso, reduzir os conflitos entre motos, carros, ônibus e caminhões.
O segundo relatório consolidado da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), enviado à Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), analisou 233,3 km implantados em 36 vias entre janeiro de 2022 e dezembro de 2025.
Segundo a CET, a taxa de severidade dos sinistros com motos caiu 26,6% depois da implantação. Dentro da Faixa Azul, o índice médio foi de 2,5, ante 23,9 nas demais faixas de rolamento. Isso significa que a incidência e a gravidade das ocorrências foram 9,5 vezes maiores fora da sinalização.
Os números também contrariam a percepção de que o corredor estimularia velocidades mais altas. A velocidade pontual média das motocicletas recuou de 54 km/h para 51,1 km/h nos trechos avaliados. Perto dos radares, a parcela de motos acima do limite caiu de 44,2% para 27,6%.
A metodologia, porém, é alvo de críticas por atribuir o mesmo peso estatístico a vias com volumes de tráfego bastante diferentes. Além disso, a continuidade e a expansão do projeto permanecem em discussão. O prazo federal que autorizava a experiência terminou em março de 2026, e novos trechos dependem do aval da Senatran.
O interesse de Lal, contudo, se conecta diretamente aos planos da Royal Enfield. A Flying Flea foi pensada justamente para o ambiente urbano, enquanto modelos como Hunter 350 e Guerrilla 450 já encontram nos grandes centros boa parte de seu público. Vender mais motos é apenas um lado do crescimento; criar condições para que elas circulem com menor risco é o outro.
Brasil como segunda casa da Royal Enfield
A ofensiva de produtos acompanha uma mudança maior de escala. Depois de vender cerca de 17 mil motocicletas no primeiro semestre, a Royal Enfield trabalha para se aproximar de 35 mil unidades em 2026 e da região de 50 mil em 2027. O número, porém, não será perseguido a qualquer preço.
"Não gostamos de correr atrás de números. Eles são resultado do trabalho", apontou Lal. "Se houver algum problema no curto prazo, não vamos empurrar vendas aos concessionários nem fazer algo que afete a qualidade ou a relação com o cliente."
Clifford reforçou a mensagem. "Executar a marca de forma completa é mais importante do que perseguir apenas um número", ressaltou.
Patini, por sua vez, frisou que a expansão dependerá de uma combinação de fábrica, rede de concessionárias, distribuição e pós-venda. Só em 2026, a empresa terá apresentado seis produtos no mercado brasileiro. A lista tende a crescer porque, segundo Lal, praticamente todo o portfólio global está à disposição do país quando houver demanda.
"Estamos ampliando a rede para levar as motos, os produtos e os serviços para mais perto dos clientes. Com a nossa CKD [em Manaus] no próximo ano, teremos os blocos de fundação necessários para continuar crescendo no Brasil", afirmou Patini.
Na prática, a operação própria de CKD permitirá que a Royal Enfield amplie a montagem de motos por meio de kits importados e responda com mais rapidez ao avanço dos pedidos. A empresa ganhará maior controle sobre o ritmo da linha, a disponibilidade de modelos e a preparação dos próximos lançamentos.
Isso não cria demanda por si só, mas evita que a capacidade produtiva se torne um freio justamente quando a marca pretende avançar de cerca de 35 mil para 50 mil unidades anuais. "É muito mais uma questão de controlar o nosso futuro e ter a capacidade de manter a trajetória e o ritmo que alcançamos", completou Clifford.
É nesse contexto que Lal chama o Brasil de "segunda casa" da Royal Enfield. A Índia continua sendo a matriz e o principal centro produtivo, mas nenhum outro mercado terá o mesmo nível de prioridade. Mais do que reduzir atrasos, a operação própria em CKD dará sustentação ao salto de volume pretendido para os próximos anos.
A Continental GT 750, inclusive, pode ser um dos primeiros testes importantes dessa estrutura. A Flying Flea virá logo depois, com a tarefa de conquistar um motociclista que talvez ainda nem se considere motociclista.
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