Crise Raízen: preços dos combustíveis podem aumentar após pedido de recuperação extrajudicial?
Crise financeira de uma das maiores distribuidoras do país levanta dúvidas sobre reflexos nas bombas; o que dizem especialistas
O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pela Raízen para renegociar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas levantou dúvidas sobre possíveis impactos no abastecimento de combustíveis no Brasil. A preocupação cresce num momento delicado, pois o consumidor também olha com atenção para o conflito que envolve Estados Unidos e Israel contra o Irã, que pressiona preços da gasolina e, principalmente, do diesel no país.
Apesar do tamanho da operação da empresa, uma das maiores distribuidoras do país, especialistas ouvidos pelo Jornal do Carro avaliam que, ao menos por ora, não há sinais de risco imediato de desabastecimento.
De acordo com Milad Kalume Neto, da K.Lume Consultoria, o pedido de recuperação extrajudicial tem natureza estritamente financeira e não altera, por enquanto, a operação da companhia. "Particularmente não vejo elementos para um desabastecimento decorrente de um pedido de recuperação extrajudicial. A Raízen esclareceu que este plano é exclusivamente financeiro e as operações permanecem normais", afirma.
O plano protocolado pela empresa prevê um standstill de 90 dias, período em que credores suspendem temporariamente cobranças e pagamentos de juros e principal da dívida. A ideia é ganhar tempo para renegociar parte do passivo e evitar uma recuperação judicial.
O objetivo da investigação é apurar se há indícios de práticas anticompetitivas, como a combinação de preços ou a adoção de condutas comerciais uniformes entre concorrentes. Por meio desse monitoramento, a Senacon quer proteger o bolso do consumidor contra possíveis abusos ou tentativas de influenciar o setor de forma coordenada e injustificada.
Raízen: sinal amarelo, mas nada de crise
Para o especialista em combustíveis Vitor Sabag, o estágio atual da renegociação ainda não permite prever qualquer reflexo concreto no mercado. "Com essa recuperação extrajudicial, não consigo vislumbrar algum tipo de impacto sobre distribuição ou preço de produto", afirma.
Segundo Sabag, um eventual avanço para uma recuperação judicial poderia trazer novos elementos, especialmente relacionados a crédito e financiamento das operações. "Naturalmente, numa recuperação judicial a questão de crédito pode diminuir, inclusive com fornecedores. Mas ainda é cedo para fazer qualquer afirmação", comenta.
Mesmo nesse cenário hipotético, ele considera improvável uma falta de combustíveis. "Não acredito em desabastecimento, até pela fiscalização da ANP e de outros agentes do setor", crava.
O ponto de atenção, segundo Kalume, está mesmo no que acontecerá após o período de 90 dias de negociação com credores. Se a reestruturação não atingir os objetivos, a empresa poderia enfrentar restrições de crédito no curto prazo — o que potencialmente reduziria sua flexibilidade operacional.
Isso poderia resultar, por exemplo, em menor formação de estoques, atrasos logísticos ou perda de participação de mercado. Ainda assim, o cenário atual está longe de indicar uma crise no abastecimento nacional. "Hoje não vejo como sendo um problema crítico, mas obviamente acende-se um sinal amarelo", conclui Kalume.
Em um mercado competitivo e altamente regulado como o brasileiro, a situação da Raízen merece atenção. No entanto, por ora, seu status não parece capaz de provocar turbulência nas bombas e, tampouco, no bolso do consumidor.