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Como o 'cheiro de carro novo' mexe com o seu cérebro

Aroma dos veículos zero-quilômetro é definido por especialistas treinados para cheirar as peças

20 out 2026 - 05h42
(atualizado às 08h07)
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Resumo
O cobiçado "cheiro de carro novo" é um projeto deliberado da indústria que une segurança química e marketing sensorial. Criado sob a supervisão de osmólogos, o aroma evita compostos tóxicos e funciona como âncora sensorial ligada a ideias de status, limpeza e qualidade. Segundo a neurociência, esse estímulo olfativo desperta memórias afetivas profundas e emoções de forma inconsciente antes de qualquer análise lógica, influenciando diretamente a percepção do consumidor sobre o veículo.
O Rolls-Royce Phanton tem cinco unidades registradas no Estado
O Rolls-Royce Phanton tem cinco unidades registradas no Estado
Foto: Divulgação / Estadão

Ao abrir a porta de um novo veículo, o aroma sentido e apelidado de "cheiro de carro novo" não é uma mera coincidência. Pelo contrário, para que cada modelo fabricado tenha o seu cheiro característico, há uma equipe inteira para desenvolver, testar e aprovar cada detalhe do lançamento do veículo, antes dele sair da fábrica e chegar à garagem do cliente.

Entre os profissionais mais requisitados está o osmólogo, especialista em assegurar que o cheiro produzido seja agradável. No caso do Brasil, a Maria de Lourdes Feitosa é a primeira Osmóloga Veicular e Especialista em Avaliação Sensorial Automotiva com certificação alemã. Feitosa concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal do Carro para explicar: afinal, de onde vem esse cheiro de carro novo?

"Observo um ponto muito importante que é, ao se caracterizar os odores nitidamente perceptíveis, se cria a memória olfativa do odor de cada peça, portanto, ao avaliar o odor do veículo eu consigo dentro do 'cheiro de carro novo' como um todo, identificar os odores que ficaram na minha memória olfativa", indica Feitosa.

Neste quesito, Maria de Lourdes Feitosa explica ainda que "é muito importante lembrar que também se exige dos fornecedores um laudo específico e de caráter jurídico que comprove a não utilização de substâncias como benzeno e tolueno", pois são prejudiciais à saúde e altamente tóxicas.

Marketing sensorial

O artigo "Marketing sensorial: uma ferramenta estratégica para conquistar manter clientes", publicado na Revista Científica Multidisciplinar, classifica o marketing sensorial como: "uma nova ferramenta estratégica, que através da estimulação dos cinco sentidos humanos (tato, paladar, visão, audição e olfato), busca explorar as experiências emocionais do consumidor e proporcionar a estes momentos de bem-estar e sensações acolhedoras".

A professora de Psicologia do Consumidor e Neurociências da ESPM, Vanessa Clarizia Marchesin, explica que "a indústria identificou que esse cheiro especial virou um sinal de 'novo, limpo, valioso' e passou a usá-lo". A professora reforça que "isso

ajudou a tornar a experiência mais agradável para o consumidor e virou, para o marketing, uma âncora sensorial na categoria, pois a marca associa um estímulo olfativo consistente na experiência que envolve posse e status, transformando o olfato como um julgamento de qualidade".

"Cheiro de carro novo" para além da fabricação

Até os anos 1960, o cheiro dos carros não tinham um aroma agradável, em decorrência de compostos químicos utilizados, inclusive nocivos à saúde. Uma das primeiras marcas a investigar como melhorar a experiência do usuário foi a Audi. A partir dos anos 2000, as montadoras passaram a investir em mecanismos de marketing sensorial para marcar seus modelos pelos aromas.

Para além do "cheiro de carro novo" oriundo das peças, alguns modelos complementaram com outras estratégias como, o Rolls-Royce Phantom, que aderiu a combinação de amyris, pau-rosa, íris e cedro para liberar um aroma, via difusor patenteado, direto pela cabine. Já a BMW Série 5, G30 investiu em tratar o ar com cartuchos e fragrâncias substituíveis.

Neurociência explica

Nenhum lançamento de uma marca automotiva é sem um intuito. Além de envolver um alto investimento no novo modelo a ser apresentado ao mercado, a conexão com o cheiro e o público-alvo é estudada de ponta a ponta.

Marchesin explana que existem alguns "pontos de conexão com a Neurociência que são um tanto curiosas. Um aroma ativa emoção e memória antes mesmo de haver reconhecimento consciente do estímulo. As memórias associadas a odores tendem a ser mais antigas, mais emocionalmente intensas e mais resistentes ao esquecimento do que memórias associadas a estímulos visuais ou auditivos".

"Um último aspecto é da repetição de pareamento aroma-experiência (o cheiro do carro do pai, do primeiro carro próprio, da infância com viagens de carro, etc.). [Ela] gera condicionamento clássico de valência positiva. O consumidor não recupera memória declarativa, ele recupera as emoções experienciadas", destaca Marchesin.

Estadão
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