Carro segue perdendo espaço para moto: Brasil está virando uma Índia?
Dados da Fenabrave mostram mercado de carros estagnado, enquanto as motos crescem e ocupam cada vez mais espaço no trânsito
Quem tem carro e dirige todos os dias já sentiu a mudança e nem precisa de estatística. O trânsito está diferente. Há muito mais motos circulando, passando pelos corredores, ocupando espaços onde antes só havia carros. Trata-se de uma tendência e ela está fazendo muita gente se perguntar: o Brasil está caminhando para um cenário parecido com o da Índia, onde as motos dominam completamente as ruas?
Motos passaram de 32% para 43% de participação nas vendas
Os números indicam que essa pergunta não é exagerada. Em 2025, segundo a Fenabrave, as motos passaram a representar 42,9% de todos os veículos emplacados no Brasil. Os carros de passeio ficaram com 39%. Nunca a diferença entre carros e motos foi tão pequena. Dez anos atrás, em 2015, o cenário era quase o oposto: os carros respondiam por 53,3% das vendas, enquanto as motos ficavam em 32%.
Em apenas uma década, de acordo com os dados da Fenabrave, o carro perdeu mais de 14 pontos percentuais de participação no mercado. A moto ganhou quase 11. Isso ajuda a explicar por que o trânsito mudou tanto, e tão rápido.
Essa transformação não é apenas percentual. Ela também aparece nos volumes absolutos. Em 2015, o Brasil emplacou cerca de 2,8 milhões de carros de passeio. Em 2025, esse número ficou um pouquinho abaixo de 2 milhões. São quase 800 mil carros a menos nesse período. No mesmo intervalo, as motos fizeram o caminho inverso: saltaram de aproximadamente 1,43 milhão para 2,19 milhões de unidades.
Honda CG emplacou 5 vezes mais do que o Volkswagen Polo
Na prática, o brasileiro está trocando carro por moto. Esse movimento fica ainda mais evidente quando se olha para os modelos mais vendidos. Em 2025, apenas dois carros de passeio – Volkswagen Polo e Fiat Argo – conseguiram superar a marca de 100 mil unidades no ano. Entre as motos, quatro modelos passaram com folga desse patamar. A Honda CG 160 sozinha se aproximou de meio milhão de unidades vendidas, um volume que hoje nenhum automóvel consegue alcançar no Brasil.
A comparação com a Índia ajuda a entender como esse processo acontece quando o carro deixa de ser acessível. O mercado automotivo indiano é conhecido por oferecer uma ampla gama de carros pequenos, simples e de baixo custo. Modelos como Alto K10, S-Presso e Wagon R, todos da Maruti Suzuki, Tata Tiago, Tata Punch, Renault Kwid e Renault Triber são exemplos de modelos acessíveis.
Na Índia, muitos desses carros custam o equivalente a menos de R$ 40.000 na conversão direta, graças a incentivos fiscais, projetos simplificados, legislação menos rígida em segurança e foco em veículos compactos com menos de 4 metros de comprimento. O Tata Tiago, por exemplo, mede menos de 3,80 metros, é totalmente elétrico e custa o equivalente a R$ 47.000.
No Brasil, o movimento foi diferente. Ao longo da última década, a oferta de carros de entrada encolheu, enquanto o mercado passou a se concentrar em SUVs e modelos mais caros. Hoje, a maior parte dos lançamentos está acima de faixas de preço que, para muitos consumidores, são inatingíveis. Para além disso, com a taxa Selic a 15%, os juros reais no financiamento de um carro chegam a 28%. É como comprar um carro e pagar três.
Carro de passeio virou luxo. Moto é barata e rende uma grana
A moto entrou nesse espaço como solução possível: mais barata, manutenção simples, parcelas menores e uso imediato. Ao contrário do automóvel de passeio, que virou um luxo, a motocicleta ou scooter resolve a vida de milhões de brasileiros, especialmente em cidades congestionadas, com transporte público falho e longas distâncias a percorrer. Além disso, virou ferramenta de trabalho essencial em entregas, aplicativos e serviços urbanos.
Com menos opções de carros realmente baratos, parte da demanda migrou para as motos. Esse deslocamento aparece no trânsito. Com menos carros novos entrando nas ruas e mais motos circulando, o espaço viário passou a ser disputado de outra forma. Corredores se intensificaram, a convivência entre carros e motos – que nunca foi boa – se tornou mais tensa e o fluxo urbano mudou de dinâmica, especialmente nos horários de pico.
Na Índia, esse cenário já é parte da paisagem urbana há décadas, com ruas compartilhadas por carros compactos, motos, scooters e outros veículos leves. No Brasil, essa convivência ganhou força nos últimos dez anos, acompanhando a mudança no perfil de vendas.
O País ainda está distante dos volumes absolutos indianos e mantém uma renda per capita muito superior. Ainda assim, os dados mostram que a redução da oferta de carros acessíveis e o crescimento consistente das motos estão redesenhando o trânsito brasileiro.
Os dados da Fenabrave ajudam a explicar o que o motorista vê todos os dias ao sair de casa: menos carros novos, mais motos e um trânsito cada vez mais disputado entre dois tipos de veículo que passaram a dividir o mesmo espaço de forma mais intensa.
Brasil x Índia: carros e motos em números
BRASIL
Participação no mercado total
- 2015: carros 53,3% | motos 32%
- 2025: carros 39% | motos 42,9%
Vendas de carros de passeio
- 2015: cerca de 2,8 milhões
- 2025: cerca de 2,0 milhões
Vendas de motos e scooters
- 2015: cerca de 1,43 milhão
- 2025: cerca de 2,19 milhões
Carros mais vendidos em 2025
- Volkswagen Polo - 122.700
- Fiat Argo - 102.600
Motos mais vendidas em 2025
- Honda CG 160 - 478.400
- Honda Biz - 267.000
- Honda Pop 110i - 236.500
- Mottu Sport 110i - 99.500
ÍNDIA
Vendas em 2024
- Carros de passeio: cerca de 4,27 milhões
- Motos e scooters: cerca de 18,9 milhões
Vendas em 2015
- Carros de passeio: cerca de 2,03 milhões
- Motos e scooters: cerca de 16,12 milhões
Renda per capita (US$)
2015
- Brasil: 8.700 | Índia: 1.600
2025 (estimativa)
- Brasil: 10.500 a 10.700 | Índia: 2.800 a 3.000
Texto autoral: cópia proibida. Fontes: Fenabrave, Focus2Move, Economic Data Series, Square Insurance, World Bank Open Data e CarTrade.