Bateria de estado sólido de startup finlandesa resiste ao calor, aponta estudo
Entre o calor extremo de 100 °C e o 'olhar sanguinário' da dúvida, bateria da Donut Lab entrega mais energia sob pressão, embora o fantasma dos dendritos ainda assombre a startup
"Aqui estou, mais um dia, sob o olhar sanguinário do vigia" e pronto para escrever mais um texto sobre a polêmica bateria de estado sólido da Donut Lab. Já falamos aqui no Jornal do Carro sobre o teste de recarga rápida. Agora, trazemos notícia mais, digamos, quente.
O VTT Technical Research Centre, instituição de pesquisa finlandesa, focou em testar o quanto as células da Donut Lab resistem ao calor extremo. Esta condição, inclusive, é o calcanhar de Aquiles das baterias de íons de lítio com eletrólitos líquidos.
O calor extremo acelera reações químicas internas delas, degradando o eletrólito líquido e os materiais dos eletrodos. As temperaturas elevadas fazem com que o eletrólito evapore ou se decomponha. Em casos extremos há perigo de fuga térmica e explosão.
Mas voltemos ao mote. Como a bateria de estado sólido da startup finlandesa se comportou? Os resultados mostram que ela não apenas consegue descarregar energia em até 100 °C, mas também é capaz de ganhar capacidade. Nada mal para uma "fraude".
O VTT concluiu que a célula de estado sólido se tornou mais eficiente em temperaturas elevadas, entregando mais energia do que em temperatura ambiente. Para garantir que a bateria funcionasse de modo apropriado durante o teste, pesquisadores usaram placa de aço para aplicar pressão física sobre ela e a colocaram sobre um dissipador de calor.
Para se ter ideia, a instituição afirma que a bateria entregou 24,9 Ah em temperatura ambiente. A 80 °C, o desempenho chegou a 27,5 Ah e a 100 °C houve entrega de 27,6 Ah. Que coisa, não?
De acordo com o estudo, a bateria da Donut Lab continuou a fornecer energia acima de 100 °C, temperatura considerada extremamente perigosa para a maioria das baterias convencionais. Mais uma vitória para a startup finlandesa.
Problemas
Beleza. "Amanheceu com sol, dois de outubro, tudo funcionando, limpeza, jumbo". No entanto, a Donut Lab ainda sente um calafrio. O invólucro da bateria perdeu o selo de vácuo provavelmente por conta do calor extremo.
E tem mais. O VTT não confirma a química, apenas aceita informações providas pela startup. Além disso, não aborda o principal temor de baterias de estado sólido.
É o problema que envolve dendritos. Ocorre quando estruturas microscópicas de lítio metálico, parecidas com agulhas ou "estalagmites", crescem do ânodo em direção ao cátodo durante os ciclos de carga e descarga da bateria.
Se os filamentos atravessarem o eletrólito sólido e alcançarem o outro eletrodo, há risco de curto-circuito interno. Tal pode causar perda de desempenho, degradação acelerada da célula e, em casos extremos, falha da bateria.
Esse fenômeno é um dos grandes desafios técnicos das baterias de estado sólido. Embora o eletrólito sólido seja mais seguro que o líquido, ele ainda pode permitir a formação ou propagação desses dendritos em determinadas condições de carga, pressão ou temperatura.
Talvez o tema seja abordado na divulgação de mais testes independentes. De acordo com landing page comandada pela Donut Lab, o próximo será revelado na segunda-feira, 9.
Relembrando que, de acordo com a Donut Lab, a Verge — focada em motocicletas elétricas — utilizará sua bateria de estado sólido em uma nova versão da TS Pro. Para nosso espanto, caso a promessa de lançamento, previsto para este ano, se cumpra, teremos o primeiro veículo de produção em massa alimentado por tal solução.
O repórter admite que precisa de mais para bancar a bateria de estado sólido da Donut Lab. Mas, a cada parte do estudo publicada, quem vai acreditar no meu depoimento? Dia 3 de Outubro, diário de um detentor da incredulidade.