Brasil pode (mesmo) perder 69 mil empregos na indústria automotiva?
Estudo citado pela Anfavea projeta impacto em cenário considerado hipotético, enquanto incentivos a CKD e SKD seguem limitados
Em seu balanço anual, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) voltou a alertar para possíveis perdas de empregos e impactos econômicos caso a produção automotiva no Brasil passe a ser substituída, em maior escala, pela montagem de veículos importados por meio de kits CKD e SKD.
Segundo estudo apresentado pela entidade, a adoção ampla desse modelo poderia resultar na eliminação de até 69 mil empregos diretos, o equivalente a cerca de 75% da força de trabalho atual do setor, além de afetar aproximadamente 227 mil postos indiretos ao longo da cadeia automotiva.
O levantamento estima ainda perdas de até R$ 103 bilhões para fabricantes de autopeças, redução de cerca de R$ 26 bilhões na arrecadação de tributos em um ano e impacto de R$ 42 bilhões nas exportações de veículos.
“Cenário hipotético e inviável”
A própria Anfavea reconhece, no entanto, que esse cenário é extremo e pressupõe uma mudança abrupta no modelo produtivo, com a troca da fabricação completa pela simples montagem de kits importados. “Claro que este cenário é hipotético e inviável, porque existem contratos a serem respeitados e investimentos feitos. Mas precisávamos criar um teto. E é este”, afirmou o presidente da entidade, Igor Calvet, em entrevista ao jornalista André Barros, do Autodata.
Atualmente, os incentivos discutidos pelo governo federal estão concentrados em volumes limitados e direcionados principalmente a veículos 100% elétricos e híbridos plug-in. Essas tecnologias ainda não são produzidas em escala no Brasil pelo sistema tradicional de fabricação adotado pelas montadoras instaladas no País.
O debate ocorre em um momento de transformação do mercado automotivo, marcado pela ampliação da oferta de veículos eletrificados e pelo avanço das tecnologias de zero ou baixa emissão. Mesmo após a reintrodução de tarifas de importação mais elevadas, as vendas de carros elétricos e híbridos plug-in seguem em crescimento no Brasil, impulsionadas pela entrada de novos modelos e pelo aumento do interesse do consumidor por alternativas à combustão tradicional.
A discussão sobre CKD e SKD reflete estratégias distintas adotadas pelas montadoras no processo de transição tecnológica. Grupos já estabelecidos no País buscam mais tempo para desenvolver e adaptar seus projetos globais de eletrificação às condições do mercado brasileiro.
Já novas fabricantes utilizam a montagem de kits como etapa inicial de entrada no País. É o caso da BYD, que adotou esse modelo enquanto planeja avançar para etapas posteriores de produção local. O prazo divulgado pela empresa é maio de 2026.
Além disso, o uso de SKD não se restringe a novos entrantes. Algumas montadoras tradicionais também operam com esse sistema no Brasil, como ocorre no Ceará, onde a General Motors iniciou a oferta de veículos elétricos montados a partir de kits importados, inicialmente com os Chevrolet Spark e Captiva.
A Anfavea atua como representante institucional das montadoras instaladas no Brasil e tem sido a principal interlocutora do setor junto ao governo federal nas discussões sobre política industrial, incentivos e regras de produção. O volume total de investimentos anunciados pelas associadas para os próximos anos soma cerca de R$ 190 bilhões, resultado de decisões estratégicas individuais das empresas.
Apesar do alerta da associação das montadoras tradicionais, até o momento não há informação oficial sobre a continuidade dos incentivos relacionados a CKD e SKD após o prazo atual, nem critérios públicos estabelecidos para os volumes considerados elevados nesse tipo de operação. No momento, não há indícios de que a produção automotiva no Brasil esteja sendo substituída por montagem em larga escala de veículos importados.